Enfim, Brasil critica Caracas

Enfim, Brasil critica Caracas

Em nota de tom incomum, Itamaraty insta autoridades de Caracas a investigarem assassinato de opositor. Planalto entregou, em mãos, carta ao líder do país vizinho em que faz chamado à democracia. Analistas veem distanciamento entre governos

RODRIGO CRAVEIRO PAULO DE TARSO LYRA
postado em 28/11/2015 00:00
 (foto: Federico Parra/AFP)
(foto: Federico Parra/AFP)




Em uma mudança de tom surpreendente, o governo Dilma Rousseff divulgou comunicado oficial em que afirma ter tomado conhecimento ;com consternação; e ;condena com firmeza; o assassinato de Luís Manuel Díaz, secretário-geral do partido opositor Acción Democrática (AD) em Altagracia de Orituco, 160km a sudeste de Caracas. A nota, uma das mais incisivas do Itamaraty sobre a Venezuela, lembra que é ;da responsabilidade das autoridades venezuelanas zelar para que o processo eleitoral (;) transcorra de forma limpa e pacífica;. Díaz foi assassinado, na noite de quarta-feira, depois de participar de um comício ao lado de Lilian Tintori, mulher do líder opositor Leopoldo López (Leia a entrevista). Em 6 de dezembro, a Venezuela sedia eleições parlamentares, consideradas decisivas para a sobrevivência do regime do presidente Nicolás Maduro.

Consultada pelo Correio, uma fonte da área internacional do Palácio do Planalto confirmou que Rousseff enviou carta a Maduro, por meio da qual faz um sutil chamado à democracia, ao qualificá-la de ;conquista da esquerda na região;. O fato de a mensagem ter sido entregue em mãos por Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais e considerado emissário qualificado, sinaliza um gesto diplomático importante. Somada à nota do Itamaraty, a missiva reforça a nova retórica do governo em relação ao antigo aliado.

A reportagem apurou que a chancelaria brasileira teria ficado insatisfeita com o veto branco do regime madurista ao nome do ex-ministro Nelson Jobim para liderar missão de observadores eleitorais da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). No entanto, o Planalto não confirma a citação a Jobim na mensagem ao Palácio de Miraflores. O representante brasileiro nas eleições será Antônio Mena Gonçalves, cônsul do Brasil em Washington.

No texto do Itamaraty, o Brasil ;rechaça firmemente o recurso a qualquer tipo de violência que possa afetar o bom desenvolvimento do processo eleitoral, e insta as autoridades venezuelanas a investigar os fatos e punir os responsáveis;. ;O governo brasileiro confia em que o governo venezuelano atuará para coibir quaisquer atos de violência ou intimidação que possam colocar em dúvida a credibilidade do processo eleitoral;, conclui.Os presidentes Horacio Cartes (Paraguai), Tabaré Vázquez (Uruguai) e Juan Manuel Santos (Colômbia) condenaram a morte de Díaz e pediram respeito às eleições. Santos destacou que o assassinato é injustificável.

Equidistância
José Flávio Sombra Saraiva, professor titular de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), acredita que, por meio de sutis sinais diplomáticos, emerge certa equidistância entre Brasil e Venezuela. ;As vozes da opinião pública brasileira têm externado o equívoco do apoio incondicional ao governo de Maduro. Mas ainda há divisões. O Planalto insiste em sustentar Maduro, de modo incondicional. No Itamaraty, há divisão acerca de como tratar a equidistância;, explica ao Correio. O especialista vê a retaliação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Itamaraty no veto a Jobim como um ;rito de passagem de uma revisão gradual; do apoio a Maduro.

Para Pio Penna Filho, também professor de relações internacionais da UnB, a nota do Itamaraty é ;muito branda;. ;O Brasil deveria adotar um tom de discurso crítico em relação às eleições na Venezuela;, opinou. ;Nós temos duas políticas externas, uma do Itamaraty e outra do Planalto. Aquela voltada para a América do Sul é determinada por Marco Aurélio Garcia. O Itamaraty fica o tempo todo sem saber o que fazer ou o que pode fazer;, critica. Penna sustenta que o Brasil não está capacitado a liderar a América do Sul, pelo alinhamento ideológico com alguns Estados.

Na quarta-feira, Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), advertiu que o ;assassinato de um dirigente político é uma ferida de morte na democracia;. Maduro reagiu deixando o protocolo de lado. ;Espero uma retificação, se é que resta algo de ética e moral na lixeira de Luis Almagro, com perdão à lixeira, pobrezinha senhora lixeira à qual comparei a Almagro. Espero uma refificiação sua, senhor lixo;, afirmou.


Eu acho...

;O Brasil estava se isolando de atores estatais importantes da América Latina. As novas relações de Cuba com os EUA ajudaram a construir uma ideia no Brasil de que essas associações com governos de regimes políticos de modelo antigo não cabem mais na nossa região.;



José Flávio Sombra Saraiva, professor titular de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Ph.D pela Universidade de
Birmingham (Inglaterra)

;O Brasil tem uma política externa assentada em bases ideológicas. O nosso país não está capacitado a exercer uma liderança na região, por conta desse alinhamento ideológico com determinados Estados.;



Pio Penna Filho, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB)


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