Delcídio: Cerveró é indicação de Dilma

Delcídio: Cerveró é indicação de Dilma

Em depoimento à Polícia Federal, senador disse que a presidente o consultou sobre a nomeação do acusado de corrupção para uma diretoria da Petrobras. Petista também afirmou aos investigadores que Temer tem proximidade com outro suspeito de malfeitos: Jorge Zelada

Eduardo Militão João Valadares Paulo de Tarso Lyra
postado em 28/11/2015 00:00
 (foto: Wilson Dias/Agencia Brasil)
(foto: Wilson Dias/Agencia Brasil)

Dois dias após ser preso pela Polícia Federal na Operação Lava-Jato e de ter sido abandonado pelo PT e pelo Planalto, o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) declarou, em depoimento na Superintendência da PF em Brasília, que o ex-diretor Internacional da Petrobras Nestor Cerveró foi indicado pela presidente Dilma Rousseff, quando ela era ministra de Minas e Energia. Segundo Delcídio, ela o consultou em 2003, primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, sobre Cerveró, que havia trabalhado com Delcídio na Diretoria de Gás e Petróleo da Petrobras.

Ainda de acordo com o senador petista, Dilma conhecia Cerveró desde o tempo em que era secretária de Energia do Rio Grande do Sul, na gestão de Olívio Dutra. Até então, a escolha de Cerveró era atribuída a uma dobradinha entre o próprio Delcídio e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República respondeu que ;presidenta Dilma Rousseff nunca consultou o senador Delcídio do Amaral ou qualquer outra pessoa acerca da nomeação de Nestor Cerveró para a diretoria da Petrobras;. E mais: ;No período em que exerceu a função de ministra de Minas e Energia, nunca sequer foi consultada ou mesmo participou, em qualquer medida, dessa indicação;. Ainda de acordo com a Secom, como ;é público e notório, a presidente da República não manteve relações pessoais com Nestor Cerveró, seja antes ou depois da sua designação para a diretoria da Petrobras;.

Delcídio também envolveu o vice-presidente, Michel Temer, alegando que ele tinha proximidade com o ex-diretor da Petrobras Jorge Zelada. Questionado sobre o que seria essa relação próxima, o político disse que preferia não responder. Preso na Lava-Jato, Zelada é acusado de atuar em nome do PMDB mineiro e de fazer parte de esquemas que renderam propinas a ele e ao partido na compra do navio Vantage.

Zelada também é suspeito de receber suborno para a compra de metade de um poço de petróleo em Benin, negócio de US$ 34,5 milhões que rendeu 1,3 milhão de francos suíços em corrupção para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ainda de acordo com o Ministério Público.

Em nota divulgada ontem, Temer alega que falou com Zelada em 2007 ; no mesmo ano em que esteve com seu antecessor, Nestor Cerveró, conforme revelou o Correio ; para discutir a Diretoria de Internacional da Petrobras. No entanto, afirmou que ;não indicou; Zelada ;nem trabalhou; para que ele se tornasse diretor da estatal. ;O presidente do PMDB nega qualquer relação de proximidade com Jorge Zelada e repudia veementemente as declarações do senador Delcídio;, afirmou a assessoria do vice-presidente da República.

O advogado de Zelada, Alexandre Lopes, disse que não tem como confirmar uma reunião de 2007, no entanto, atestou que a relação de seu cliente com Michel Temer é ;zero;. ;Primeiro, deve ser bravata. Só Temer pode responder;, continuou Lopes.

A assessoria de imprensa do senador Delcídio do Amaral comunicou ontem, por meio de nota, que ele se encontra ;abatido, porém sereno e concentrado, junto dos advogados, na formulação da sua defesa com o firme propósito de provar, o quanto antes, a sua inocência;.

Preocupação
Em uma gravação de 4 de novembro feita pelo filho de Nestor Cerveró, Bernardo Cerveró, o senador Delcídio afirma que Michel Temer estava preocupado com Zelada, que está preso em Curitiba. ;O Michel conversou com o Gilmar (Mendes, ministro do STF) também, porque o Michel tá muito preocupado com o Zelada, né?;, disse o parlamentar, no áudio, ao comentar tentativas de convencer os ministros do Supremo a soltarem Cerveró. Gilmar Mendes negou qualquer conversa.

Como mostrou o Correio na quarta-feira, o vice-presidente Michel Temer confirmou o relato do lobista Fernando Baiano sobre outra negociação pelo cargo de diretor Internacional da Petrobras. A assessoria do peemedebista afirmou que o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula, lhe telefonou e pediu um encontro com Nestor Cerveró, que, naquela altura, estava ameaçado de perder o posto.

Temer recebeu o então diretor em 2007. Ele teria dito a Cerveró que não poderia ajudá-lo porque o cargo pertencia ao PMDB de Minas Gerais, comandado por Fernando Diniz, e já estava prometido a Jorge Zelada ; o que de fato aconteceria depois. A única divergência do vice-presidente é que, ao contrário do que disse o lobista, ele afirma que o pecuarista não participou da conversa com Cerveró.

De acordo com Baiano, foi Lula quem recomendou a Bumlai procurar Temer para Cerveró tentar ficar no cargo. O lobista afirmou que o ex-dirigente da Petrobras foi nomeado com o aval do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e com a indicação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS). Em 2006, após o então diretor conceder ;ajuda financeira; ao PMDB por meio de contratos da Petrobras, o partido passou a apoiá-lo. Com a ameaça de perder o cargo entre 2007 e 2008, Cerveró procurou Bumlai e depois Temer.

Conforme Baiano, diante do insucesso da empreitada, o lobista foi atrás de um advogado que se dizia ligado a Diniz. O advogado afirmou que a intenção inicial era nomear o lobista João Augusto Henriques para a Diretoria Internacional. Ele comunicou a Baiano que cobraria R$ 1 milhão para Cerveró continuar no cargo. No fim, Cerveró foi transferido para a Diretoria Financeira da BR Distribuidora. Jorge Zelada assumiu o cargo com as bênçãos do PMDB e de Henriques.
Colaborou Julia Chaib

;É público e notório, a presidente da República não manteve relações pessoais com Nestor Cerveró, seja antes ou depois da sua designação para a diretoria da Petrobras;
Trecho da resposta divulgada pela Presidência da República

Toffoli nega conversa
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli disse ontem em São Paulo que nunca conversou com o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) sobre o caso do ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró. Em gravação de áudio que serviu para embasar a prisão do senador, Delcídio afirma ao filho de Cerveró que precisa ;centrar fogo no STF;, se referindo a ministros com quem teria conversado para tentar blindar o ex-diretor da Petrobras. No áudio, ele afirma que conversou com Dias Toffoli. ;Primeiro, sobre esse tema, ele nunca conversou comigo. Nunca tr

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