O valor mais alto

O valor mais alto

» ANDRÉ GUSTAVO STUMPF Jornalista
postado em 28/11/2015 00:00


A citação do poeta português é meio óbvia, mas atual. Camões observou na jornada de glórias portuguesas na África e na Ásia que um valor maior se alevantou. Por essa razão, cessou tudo que a antiga musa cantava. Aconteceu um tsunami político nesta semana no Brasil. Cinco ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram mandar prender o líder do governo no Senado da República. A polícia foi até a residência do parlamentar, efetuou a prisão e colocou-o atrás das grades.

Nunca, antes, na história do Brasil, um senador, em pleno exercício de suas faculdades políticas, foi preso. E, pior: os senadores, que agiram numa velocidade absolutamente incomum, foram levados a confirmar a decisão dos ministros do STF. O Senado conheceu um limite e os parlamentares, sem qualquer exceção, passaram a se sentir réus. Eles podem ser presos a qualquer momento, desde que um magistrado da mais elevada esfera do Judiciário entenda que a restrição de liberdade é necessária. O Supremo é o limite.

Acabou a farra. Deputados e senadores perceberam que surgiu uma barreira. Afinal de contas, o juiz federal Sérgio Moro já colocou gente da pesada na cadeia, de que é o melhor exemplo Marcelo Odebrecht. E os cinco ministros do STF, que concordaram com o relator Teori Zavascki, não hesitaram em prender o líder do governo no Senado e o empresário André Esteves, proprietário do maior banco de investimentos do Brasil e da América Latina. A impunidade está perdendo a batalha contra as investigações policiais e judiciais. Todos estão sujeitos aos rigores da lei.

Vários parlamentares estão denunciados ao Supremo Tribunal Federal. A Operação Lava-Jato aponta agora na direção do Congresso Nacional. Os senadores foram pressionados pela opinião pública a adotar o voto aberto. E, diante dessa circunstância, 59 deles votaram a favor da manutenção da prisão. Contra foram apenas 13 ; entre eles, nove petistas. A direção do Partido dos Trabalhadores anuncia que não deve solidariedade ao ainda senador Delcídio do Amaral (PT-MS), um boa-praça, simpático, bom de conversa e melhor fonte para os jornalistas. Mas em algum momento ele perdeu seus horizontes. Tentou obstruir a ação da Justiça. Foi preso e deverá perder o mandato, cedo ou tarde. Em São Paulo, Lula disse que sua ação foi ;coisa de imbecil;.

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) lembrou que a existência de indícios fortes que apontam o envolvimento do petista, a partir do registro e divulgação de diálogos ;sórdidos, chocantes, acabrunhantes;. Não havia escapatória. Delcídio do Amaral quis evitar a todo custo a delação premiada do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró. O senador se mostrou um bom conhecedor de rotas de fuga e dos equipamentos necessários para atingir o objetivo. Primeiro ele conseguiria um habeas corpus no STF para o indiciado. Depois o levaria ao Paraguai, onde o acusado, que possui também nacionalidade espanhola, pegaria um avião, tipo Falcon 50, para Madri. Além disso, ele garantiu o pagamento de R$ 4 milhões à vista para aceitação do plano e R$ 50 mil mensais durante longo período. Cerveró transformou-se, portanto, em homem bomba.

As consequências vão aparecer nos próximos dias. O Congresso entrou numa espécie de recesso branco, decorrente de profunda perplexidade. As prerrogativas parlamentares foram seriamente afetadas. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tem motivos para temer por seu futuro político imediato. Outros que têm contas a ajustar com a Justiça estão com dificuldade para dormir, todas as noites, no mesmo endereço. As medidas do ajuste fiscal foram relegadas a segundo plano. E não esquecer que, segundo o advogado que participou da reunião, Edson Ribeiro ; também com prisão decretada ;, Cerveró teria incluído na delação premiada a presidente Dilma Rousseff na controvertida aquisição da refinaria da Petrobras em Pasadena, no Texas.

A decisão do Supremo vira uma página na política brasileira. Os parlamentares não mais poderão deixar de enxergar problemas e evitar resolvê-los. A velocidade com que decidiram sobre o futuro de Delcídio Amaral é evidência de que os tempos mudaram. Não há como adiar soluções. A pressão popular, verificável nas redes sociais, comanda a ação política. O vento mudou, inclusive para o Palácio do Planalto. Quem não entender que, além disso, o Judiciário está vigilante, corre o risco de sair cena. É o que deve ocorrer com Delcídio do Amaral depois de sua desastrada manobra. Para ele, o jogo acabou.

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