"Nós enfrentamos um regime de terror"

"Nós enfrentamos um regime de terror"

postado em 28/11/2015 00:00
 (foto: Leo Ramirez/AFP - 8/6/14)
(foto: Leo Ramirez/AFP - 8/6/14)



Menos de 48 horas depois de o colega Luis Manuel Díaz tombar morto a 2m e salpicar-lhe o rosto de sangue, Lilian Tintori ; esposa do líder opositor Leopoldo López ; visitou o marido na penitenciária militar de Ramo Verde. Mais cedo, concedeu entrevista exclusiva ao Correio, por e-mail. Transformada em porta-voz da oposição desde que López foi preso e condenado a 13 anos e 9 meses de prisão, Tintori reafirmou que os tiros que mataram o secretário-geral da Acción Democrática em Altagracia de Orituco, 160km a sudeste de Caracas, foram direcionados a ela. Horas antes de o Itamaraty divulgar nota sobre o crime, Tintori cobrou ;uma resposta firme e contundente; do governo brasileiro. ;É muito doloroso ver como nos matam, nos perseguem, nos torturam e ainda não há um pronunciamento claro (do Brasil);, lamentou.


A senhora crê ter sido o alvo do atentado de quarta-feira?
Sim, creio que foi dirigido contra mim. Primeiro, eles porque eles querem golpear Leopoldo. Já cometeram tantos abusos contra ele, desde revistas violentas até lançar fezes e urina em sua cela e cortar a água por mais de 12 horas. Existem medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos para protegê-lo. Temos razões para temer por sua integridade. As medidas foram ampliadas, em outubro, para nossa família. O líder da Acción Democrática foi assassinado a dois metros de onde eu estava, no palanque. Senti o sangue me salpicar, além de fragmentos das balas. Foi tão perto que toquei o meu próprio corpo para me assegurar que não tinha sido ferida. Horas antes, o avião em que parte da minha equipe viajava ; usamos simultaneamente duas aeronaves ; teve uma falha nos freios, saiu da pista e se incendiou. Felizmente, todos escaparam com vida. Mas foram momentos muito angustiantes. O regime (de Maduro) tem sido claro em dizer que fará qualquer coisa para ganhar as eleições. Nosso giro pela liberdade demonstra, a cada passo do caminho que temos percorrido, que o povo está comprometido e disposto a dar um grande passo pela liberdade. Eles (governantes) têm medo, porque fracassaram e, agora, utilizam o terrorismo do Estado para tentar nos fazer vergar, dobrar a Leopoldo, a mim e ao povo da Venezuela. Isso foi para aterrorizar 30 milhões de venezuelanos.

Quem estaria envolvido no crime?
A cúpula do poder, que hoje governa a Venezuela. Nicolás Maduro, pois ele é o encarregado de assegurar que nós, venezuelanos, tenhamos garantias para nossas vidas. Ele é o responsável pelo fato de que na Venezuela morrem 25 mil cidadãos nas mãos da violência, por ano, sem que o governo faça nada contra a crise humanitária, nem sequer garante o primeiro direito, o direito à vida. Sem ele, não temos oportunidade de exercer outro direito. A Maduro não importa a vida dos venezuelanos. Diosdado Cabello contribui com o clima de terror, pois não para de nos ameaçar e de usar nossos filhos na tevê pública, ao dizer que Leopoldo é o monstro de Ramo Verde e eu, a esposa de um assassino. Isso é fomentar o ódio. Ele é cúmplice, por instigar o ódio.

Maduro disse que o atentado foi produto de uma disputa entre grupos armados...
Isso é uma cortina de fumaça. Todo o mundo sabe que Guárico é um estado onde prosperam grupos ilegais, mas esses bandos estão ligados às cúpulas do poder. Se fosse um enfrentamento entre gangues, por que escolheram uma assembleia e mataram um líder da Acción Democrática a dois metros de mim, e horas antes nos enviaram essa mensagem de terror com um avião incendiado em plena pista?

Que resposta a senhora espera do governo brasileiro?
Uma resposta firme e contundente, como exige a gravidade da situação. Chegou a hora de os governos se pronunciarem sem rodeios. Esta é uma hora crucial para a democracia, para a vida dos venezuelanos. O silêncio já nos causou demasiado dano. Eu pediria à presidente Dilma Rousseff que leia a mensagem do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que reúne grande parte dos argumentos do motivo pelo qual essa situação exige uma voz firme dos líderes democratas da região. Nós enfrentamos um regime antidemocrático que utiliza o terror e o combatemos com ferramentas democráticas. Sozinhos, não podemos. A democracia mais importante do continente não pode ter atitude passiva. É muito doloroso ver como nos matam, nos perseguem, nos torturam e não há pronunciamento claro (do Brasil). (RC)

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