Conexão diplomática

Conexão diplomática

Por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 28/11/2015 00:00
 (foto:  Evaristo Sa/AFP - 6/11/2015)
(foto: Evaristo Sa/AFP - 6/11/2015)

O raio pode cair
pela segunda vez




Decepção na Embaixada do Japão, desalento no Itamaraty: duas palavras definem o impacto do cancelamento abrupto da visita da presidente Dilma à Ásia, na próxima semana, na sequência da viagem ; mantida ; a Paris, onde se reúne a partir de amanhã a Conferência das Nações Unidas sobre o clima. Até pelo menos as 17h30 de ontem, a representação japonesa não tinha sido oficialmente comunicada pelo governo brasileiro, embora os diplomatas tenham tomado conhecimento da decisão pela imprensa, em situação especialmente constrangedora: a notícia os alcançou quando acabavam de almoçar com jornalistas para um briefing sobre a viagem. O ministro Ricardo Berzoini, presente por acaso no mesmo restaurante, confirmou que o anúncio oficial seria feito, possivelmente, à tarde.

Não apenas se tratava de uma visita de Estado, com recepções de honra oferecidas pelo primeiro-ministro Shinzo Abe e pelo imperador Akihito. Seria a primeira de um chefe de Estado brasileiro ao país desde 2005, ainda no primeiro mandato de Lula. Pior: a própria Dilma havia cancelado viagem em 2013, também em cima da hora, para permanecer no país durante as turbulências das manifestações de junho. Na ocasião, a despeito da frustração, a diplomacia japonesa absorveu o golpe, compreendendo a urgência apresentada. Agora, porém, soma-se à reincidência uma coincidência tornada infeliz: os dois países celebram neste ano 120 anos de relações diplomáticas.

Queimou o filme
Também no Itamaraty, o cano da presidente caiu como raio, o segundo sobre o mesmo alvo, desmentindo o dito popular. A diplomacia profissional se lapida, entre outros elementos, pelas demonstrações de conhecimento e atenção para com os símbolos da contraparte ; entre eles, os costumes. E eles são complexos e requintados entre os orientais, herdeiros de uma jornada civilizatória incomparavelmente mais longa que a nossa. Os japoneses têm etiqueta até para gestos simples, como a entrega de um cartão de visitas, embora se mostrem permeáveis e até simpáticos ao charme (quase) irresistível da informalidade brasileira.

;Vai ser difícil explicar mais um cancelamento;, resignava-se, no fim da tarde, um diplomata brasileiro com trânsito em círculos próximos ao chanceler Mauro Vieira.

Chá de poltrona
Na exposição que tinham acabado de fazer aos jornalistas brasileiros, os representantes japoneses haviam exercitado a proverbial e milenar sutileza do Oriente para deixar nas entrelinhas discretos sinais de que Tóquio não estava de todo contente. Omitiram, polidamente, o atraso de 20 minutos da presidente quando da visita do príncipe Akishino e da princesa Kiko (foto), entre outubro e novembro, mas lembraram que a viagem de Dilma seria em retribuição. E sublinharam, quase como detalhe passageiro, que, ;infelizmente;, a estada se restringiria a três dias e apenas a Tóquio ; sem deixar de observar, porém, que o casal imperial dedicou mais de uma semana ao país, com escalas em diversos estados.

Morreu de velho
Ainda no primeiro semestre, quando confirmou para a coluna que a presidente visitaria o país em dezembro, um diplomata japonês fez questão de ressaltar os cuidados com que tinha sido cercada a negociação da viagem, assim como o anúncio. A frustração de 2013 continuava presente, assombrada pela expectativa em torno das festividades do jubileu diplomático: apenas no Japão, foram celebrados neste ano 450 eventos comemorativos.

Na ocasião, o emissário do Sol Nascente deixou escapar um voto que, revisto agora em retrospectiva, soa quase premonitório. ;Tomara que não aconteça nada até dezembro;, confidenciou, ressabiado com o andamento da crise política em Brasília e tendo no horizonte hipóteses como renúncia ou impeachment. O fantasma resolveu tomar forma justamente quando a mesa estava praticamente posta no Palácio Imperial.

Usos e costumes
Atentos ao desenrolar da tormenta no Congresso, com a prisão do líder do governo no Senado, os anfitriões de ontem relataram aos jornalistas um detalhe que escapara à cobertura da visita do casal imperial ao país. Akishino se deslocou em voos comerciais e recusou um jatinho oferecido pelo governo do Paraná, ;para não onerar o estado;. No Japão, só têm direito a avião oficial o casal imperial e o primeiro-ministro.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação