Tragédia transoceânica

Tragédia transoceânica

Pesquisador brasileiro detalha em livro o terremoto de Lisboa, que há 260 anos destruiu a capital portuguesa e matou milhares de pessoas. O tsunami gerado pelo evento, de magnitude estimada entre 8,5 e 9, atingiu o Brasil, onde fez vítimas

» ISABELA DE OLIVEIRA
postado em 28/11/2015 00:00


Em questão de segundos, a natureza pode destruir o que o homem demorou séculos para erguer. Em 1; de novembro de 1755, foram os lisboetas que sentiram a fúria do planeta. Uma fratura no fundo do oceano desencadeou um poderoso terremoto, causando a destruição quase completa da capital portuguesa. Passados 260 anos do Terremoto de Lisboa, o geólogo Alberto Veloso reconta a catástrofe no livro Tremeu a Europa e o Brasil também (Chiado Editora), no qual descreve a força destrutiva do fenômeno, que, devido a um tsunami que cruzou o Atlântico, fez ao menos duas vítimas na então colônia lusitana.

Foram entre 30 mil e 40 mil mortos apenas em Lisboa, que na época contava com 250 mil habitantes. A cidade, considerada então a quarta mais importante da Europa ; depois de Londres, Paris e Nápoles ;, foi ainda consumida por um incêndio que durou seis dias. O reparo do prejuízo custou 40% do Produto Interno Bruto (PIB) da Coroa portuguesa, que, para arcar com os danos, elevou as atividades de mineração e os impostos nas colônias, especialmente no Brasil.

O arrocho fiscal não foi o único reflexo do cataclismo do lado de cá do Atlântico. Também historiador, Alberto Veloso ficou intrigado com informações apresentadas pelo pesquisador canadense Allan Ruffman, segundo o qual o maremoto tinha chegado a Pernambuco e à Bahia, de acordo com registros feitos por marégrafos, aparelhos que medem a variação da maré. Veloso estranhou o dado porque esses equipamentos não existiam em 1755, o que deu início a uma ;troca de figurinhas; entre os dois pesquisadores, que compartilharam conhecimentos.

A partir daí, o brasileiro iniciou uma pesquisa aprofundada sobre o episódio, acessando documentos da época, como os guardados no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. Baseado nos relatos, que indicavam, por exemplo, edificações brasileiras atingidas pelo mar, o também historiador fez uma série de cálculos que dão uma boa ideia de como a tragédia se refletiu no país. Segundo as estimativas de Veloso, o tsunami cruzou o oceano a uma velocidade média de 800km/h. Depois de mais ou menos sete horas, ondas estimadas em até 6m atingiram a costa brasileira, lavando cerca de mil quilômetros de praias das capitanias de Paraíba, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro ; embora existam dúvidas sobre a última.

Foi nesses documentos que Veloso descobriu o relato sobre um casal que acabou morto pelo mar feroz e as confirmações de que os estragos chegaram a terras tupiniquins. Em um dos arquivos, o coronel Luiz Antonio de Lemos Brito, então comandante da capitania da Paraíba, afirmava: ;Parece sem dúvida que essa parte da terra se abalou quando tremeu a outra;. Segundo o pesquisador, algo semelhante poderia acontecer hoje. ;A formação geológica ainda é a mesma. No entanto, talvez os danos fossem menores ainda, pois há como informar e remover as pessoas do litoral antes que o pior aconteça;, analisa.

O terremoto de Lisboa, cuja magnitude foi estimada entre 8,5 e 9 na escala de Richter, é considerado um ponto de inflexão na história ocidental. ;Ele revelou a vulnerabilidade de cidades de mesmo porte e balançou também as convicções de Portugal, que, no século 18, era extremamente religioso;, conta o autor. Os reis, em especial dom João V, se empenharam na construção de igrejas e monastérios, todos destruídos pela sucessão de catástrofes. Ninguém compreendia por que Deus havia castigado rigorosamente um povo tão devoto. A confusão foi acentuada pelo fato de a rua dos prostíbulos ter sido pouco afetada. ;Não existia a sismologia nem teoria das placas tectônicas, que apareceu na década de 1960. O terremoto colocou em xeque tudo o que se acreditava, ajudando a apagar e a destruir ensinamentos errados. Isso deu mais força ao Iluminismo;, conta Veloso.

Tsunami no Amazonas

Na obra, o geólogo e historiador descreve também alguns terremotos que atingiram diretamente o Brasil. ;A gente acha que não existe terremoto aqui, e, realmente, há poucos. Mas os que tivemos foram significativos e deixaram estragos. Não estamos livres deles;, afirma. Um dos idealizadores do Observatório Sismológico de Brasília, onde lecionou, Veloso dedicou uma década de estudos para costurar os casos narrados nas 412 páginas do livro.

A incidência de tremores é menor no Brasil porque, ao contrário do Chile e do Japão, por exemplo, o país não está sobre a junção de placas tectônicas, cujo choque desencadeia abalos e tsunamis. Mas há casos. Um dos maiores, com 7 de magnitude estimada, ocorreu há 300 anos na Amazônia. Alberto Veloso chegou até ele investigando o diário do padre alemão Samuel Fritz, jesuíta da Companhia de Jesus que atuava no lado espanhol do território, nas proximidades do Equador. Ao retornar de um tratamento médico em Belém do Pará, o sacerdote encontrou, na região que hoje é Manaus, um cenário de destruição.

Indígenas e padres relatavam assustados um tremor que provocou um tsunami no Rio Amazonas. O padre luxemburguês João Fellipe Batendorf, que vivia do lado português das terras, constatou o mesmo. Como não existiam centros de monitoramento sismológico na época, o evento não foi oficialmente registrado como o maior do Brasil. Esse posto cabe a um abalo ocorrido em 1955, em João Câmara (RN). Na ocasião, foram vários tremores espaçados, ao longo de sete anos. No total, mais de 50 mil abalos danificaram 4 mil construções e deixaram 26 mil desabrigados.


Lançamento

Tremeu a Europa e o Brasil Também
De Alberto Veloso. Quarta-feira, 19h.
Embaixada de Portugal (Avenida das Nações, Quadra 801, Lote 2)

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