Desbravador audacioso da comunicação

Desbravador audacioso da comunicação

A estreia do filme Chatô, dirigido por Guilherme Fontes, em cartaz nos cinemas, recoloca em cena a figura fascinante de Assis Chateaubriand, o criador dos Diários Associados e de inúmeros empreendimentos inovadores

Ricardo Daehn
postado em 28/11/2015 00:00
 (foto:  Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press)
(foto: Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press)


Há quase meio século, morria Assis Chateaubriand, o criador dos Diários Associados, que deixou um rico legado de realizações, empreendimentos pioneiros, histórias memoráveis e polêmicas explosivas. No momento atual, a julgar pelas convicções que defendeu, Chateaubriand poderia estar às gargalhadas, com os escândalos da Petrobras, cuja criação questionou. Desafiar, por sinal, sempre esteve nas frentes enérgicas do jornalista-empresário que, ao sabor dos ventos de orquestradas conspirações, fortalecia ou mesmo diluía poder das mais variadas esferas, enfrentando até mesmo presidentes. Chatô esteve na linha de frente dos acontecimentos políticos, econômicos e culturais do Brasil moderno.

Corresponsável pela criação, com Chatô, do Museu de Arte de São Paulo, o colecionador Pietro Maria Bardi, no passado, afirmou que ;sem Chateaubriand, muita coisa no Brasil não teria existido;. Além da capacidade imbatível de convencimento dos empresários ricaços para investimentos nas artes da elite, com modelo de incentivo cultural singular, Chatô não pode ser esquecido, pelo rastro de visionário da indústria do entretenimento das classes populares: lançou, no Brasil, a primeira estação de tevê da América Latina, em 1950.

Em tudo que fazia, imprimia o ritmo frenético, dramático e épico de um paraibano em alta voltagem, de cangaceiro moderno da comunicação, marcado por ações audaciosas. Fernando Morais conta no livro clássico, Chatô, o rei do Brasil, que a um mês da inauguração da TV Tupi, o engenheiro norte-americano Walther Obermuller alertou Chateaubriand de que a operação seria um fiasco, pois haviam esquecido de vender aparelhos receptores no Brasil: ;Doutor Assis, o senhor está investindo 5 milhões de dólares na TV Tupi e sabe quantas pessoas vão assistir à sua programação no dia 18? Zero. Sim: zero, ninguém;.

Chatô não se abalou e, para driblar a burocracia de exportação, mandou contrabandear 200 aparelhos de televisão: ;Eu me responsabilizo. O primeiro receptor que desembarcar eu mando entregar no Palácio do Catete, como presente meu para o presidente Dutra;.

Ao todo, em vida (até os 75 anos, quando morreu em decorrência de pleurisia), o professor e jornalista havia manobrado e desmandado, num império de comunicação estendido a 34 jornais, 25 emissoras de rádio, 18 emissoras de tevê e 18 revistas. Neste último nicho de publicações, no qual detinha direitos sobre tirinhas infantis, até Zé Colmeia, Luluzinha e Gasparzinho atendiam às diretivas de Assis, numa quase família, junto aos 8 mil funcionários que Chatô empregava.

Da era da pedra, com a publicação de Os Flintstones, até o auge da modernidade, com Os Jetsons (cujas aventuras também foram publicadas pelas empresas de Chatô), o termômetro de popularidade do empresário, morto em 1968, sempre reclamou de extremos, na linha do oito ou 80. Nem mesmo Chatô, por vezes, se levava a sério: antes de se ver enfraquecido, diante da dupla trombose cerebral, ocorrida em 27 de fevereiro de 1960, o ilustre paraibano de Umbuzeiro mantinha o mais alto bom humor, ridicularizando a si mesmo. Pelos períodos passados em celas, diante de mandos e desmandos de autoridades, Chatô se dizia especialista em ;turismo carcerário;.

Duas legislaturas como senador, uma aversão desmedida à facção nacionalista brasileira e mais de 17 mil artigos assinados, ao longo da vida, fizeram Chateaubriand um homem de opiniões fortes. Ele era, antes de tudo, um jornalista da cabeça aos sapatos. Por diversas vezes, ele prejudicou os interesses políticos em nome do jornalismo. Além de ter criado o Museu de Arte Moderna de São Paulo, Chatô promoveu inúmeros talentos com a modernização que empreendeu na imprensa brasileira: Millôr Fernandes, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, entre outros.

Atos improváveis também acompanharam a imagem de Chatô que, entre extravagâncias, teve, no fim da vida, o apoio quase fraternal de Irani Bastos, ex-contínuo de O Jornal. Era um homem extremamente ilustrado, cultivado na cultura alemã, mas nunca abdicou das raízes sertanejas e cangaceiras, que celebrava com ações delirantes. Em uma delas, sagrou nada menos que o primeiro ministro britânico Winston Churchill com o título de Cavaleiro da Ordem do Jagunço, uma entidade imaginária criada por Chatô. Para quem não acredita, a foto está publicada no livro Chatô, o Rei do Brasil.

Refinamento e conchavos
Assis Chateaubriand foi um jornalista inovador e um empreendedor visionário. A revista O Cruzeiro esteve em destaque, nos anos 1950, no articulado jogo de conchavos e de independência, ao alcance de Chateaubriand. A cada semana, eram quase 1,2 milhão de exemplares vendidos ; contados os volumes estrangeiros oferecidos em castelhano, no exterior.

Controverso, Assis, que foi advogado do presidente da Light e de Percival Farquhar, nada menos do que o magnata das malhas ferroviárias nacionais. Cercado por lucrativos negócios, idealizava uma sociedade brasileira com algum desprendimento de empresários e quinhão de dividendos revertidos para a comunidade. Mecenas das artes, em incursões como a do Museu de Arte de São Paulo, Chateaubriand estimulava benfeitorias culturais.

Muito das engrenagens para levantamento de acervos culturais, conforme já defendido pelo autor Fernando Morais estava numa manobra de cobrança de ;impostos;, saídos da burguesia. Detectadas obras concorridíssimas no mercado das artes, às vias da venda, patrocinadores (em geral, industriais) eram encorajados a um esquema peculiar.

Numa permuta, os mecenas aplicavam montante na compra dos objetos de arte, o que rendia publicidade nas empresas de comunicação de Chatô. Rascunho e esboço de um país mais desenvolvido ganhavam o retoque e a arte-final de Chatô, e abasteciam a engrenagem de suas duas agências de notícia, além de todo um conglomerado de meios de comunicação, ao estalar de dedos do magnata.



;Quando existia o senhor Assis Chateaubriand, as coisas eram muito fáceis, porque com o senhor Chateaubriand era possível realizar qualquer coisa. Sem Chateaubriand, muita coisa no Brasil não teria existido;

Pietro Maria Bardi, cofundador do Museu de Arte Moderna de São Paulo



Fatos marcantes

Nasceu em 5 de outubro de 1892.

Cursou o secundário, no Colégio Pernambucano (Recife).

Foi professor de direito romano e de filosofia do direito.

Em 1917, Chatô mudou-se para o Rio de Janeiro.

Foi correspondente do argentino La Nación.

Defendeu interesses de grupos estrangeiros atuantes no Brasil.

Era favorável à entrada de tecnologia e capital do exterior, para que ;assimilássemos; a Amazônia.

Em 1929, adquiriu o jornal O Estado de Minas (MG).

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