Consumo cai 4,5% e afunda a economia

Consumo cai 4,5% e afunda a economia

Desemprego, queda de renda e inflação alta inibem gastos das famílias, que recuam pelo terceiro trimestre seguido. Para pagar contas, brasileiros cortam compras

» ALESSANDRA AZEVEDO Especial para o Correio » MARIANA AREIAS Especial para o Correio
postado em 02/12/2015 00:00
 (foto: Fotos: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Carlos Vieira/CB/D.A Press)



O consumo das famílias, a antiga mola da economia, perdeu força. De julho a setembro, o tombo foi grande e ficou acima das projeções dos analistas. O índice teve o terceiro trimestre seguido de queda no ano, com recuo de 4,5% na comparação com o mesmo período do ano passado. As quedas anteriores foram de 1,5%, de janeiro a março, e de 3%, de abril a junho. Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Com peso de 62% do PIB, pela ótica da despesa, a redução do consumo das famílias afeta diretamente a produção de riquezas do país. ;De uma forma geral, o quadro de emprego e renda do Brasil está se deteriorando. Estamos trabalhando com taxas de juros mais altas e isso dificulta o acesso ao crédito. Fica mais caro tomar empréstimos e isso afeta diretamente o consumo e os investimentos;, destacou a gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, Claudia Dionísio.


A economista Alessandra Ribeiro, da Tendência, diz que a queda surpreendeu. ;Isso mostra que a economia está muito ruim e deverá demorar para se recuperar, principalmente, pela piora da crise política, que acaba afetando a confiança dos investidores e da população, e freia o consumo;, explicou.


Segundo o professor Roberto Piscitelli, do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), o aumento da inflação é um dos principais fatores para a redução do consumo. Beirando os 10%, reflete diretamente no poder aquisitivo das famílias. Na casa da professora Ana Beatriz Vieira, 48 anos, abrir mão das compras foi um sacrifício necessário para pagar as contas. Restaurantes, bares, cinema e shopping viraram passeios de luxo. ;Nem lembro quando foi a última vez que comprei roupas. Este ano, adquiri uma ou duas peças;, disse. Ao longo do ano, os cortes mais bruscos foram nos gastos com alimentação. ;Comer está muito caro. Reduzimos as compras no supermercado, com cereais, frutas e carnes, e passamos a comer mais em casa;, contou.


Mesmo economizando, a funcionária pública Simone da Cruz, 39, que mora com o marido e o filho de dois meses, diz estar cada vez mais preocupada. O vale-alimentação de R$ 400, antes suficiente para fazer todas as compras do mês, hoje precisa de um complemento de R$ 300 para acompanhar os aumentos. ;Preciso usar o cartão de crédito para dar conta de pagar, e, mesmo assim, o carrinho fica mais vazio que no ano passado;, lamentou.


Para não estourar o orçamento, Simone abriu mão de algumas vaidades. ;Eu costumava ir toda semana ao salão de beleza. Atualmente, vou uma vez por mês. Se eu não cortar gastos, não consigo manter o essencial;, concluiu. Sem saber o que esperar, mesmo sendo funcionária pública, ela começa a ter medo do desemprego bater na porta. ;Eu deixei de ganhar férias e 13; e tudo está mais difícil;, comentou.


O desemprego é um perigo iminente que também contribui para deixar as pessoas cautelosas com o dinheiro, lembrou Piscitelli, da UnB. ;Temendo ficar sem trabalho e fonte de renda, as pessoas têm procurado se não comprometer muito o futuro. Preferem se retrair e evitar aventuras;, explicou. (Colaborou Rosana Hessel)






Veículos: venda despenca 33,74%
A venda de veículos novos despencaram 33,74% em novembro ante o mesmo mês do ano passado, de acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Com o resultado, a comercialização de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus acumula queda de 25,15% de janeiro a novembro. Em relação a outubro, houve incremento de 1,59% nas vendas, quando foram emplacados 195.212 veículos. Em 11 meses, o número de emplacamentos caiu 786,5 mil veículos, para 2.341.256, na comparação anual.






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