Hora de amadurecer

Hora de amadurecer

rodrigo craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 02/12/2015 00:00
Regimes populistas travestidos de democracia ameaçam liberdades civis, impõem o chamado voto de cabresto, isolam o eleitor numa redoma de obrigações eleitorais e sufocam a oposição. No próximo domingo, a Venezuela terá a chance de dar o primeiro passo para amadurecer. No bom sentido. Desde 1999, o país caminha sobre a corda bamba da chamada revolução bolivariana, imposta com mão-de-ferro pelo falecido presidente Hugo Chávez. Durante 14 anos à frente do Palácio de Miraflores, Chávez moldou um culto personalista, transformou-se quase numa espécie de deidade, um ser acima de tudo e de todos, em um país que caminhava na contramão do modelo econômico mundial ; apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo do planeta.

Sufocada pelo ego chavista e pela utopia de um regime socialista que se julga imune às contaminações do capitalismo, a Venezuela está na contramão do crescimento econômico e à beira da convulsão social. O desabastecimento nos mercados (falta até mesmo papel higiênico) é apontado pelo governo como manobra da oposição. A violência atinge índices alarmantes: em 2014, foram 25 mil assassinatos ; média de 68 mortes a cada dia, quase três a cada hora. A inflação deve fechar o ano oscilando entre 200% e 210%, a mais alta do mundo. Quem grita contra o caos econômico corre o risco de ser silenciado a golpes de cassetete, spray de pimenta, gás lacrimogêneo ou mesmo à bala.

Nos últimos meses, o presidente Nicolás Maduro tem ameaçado defender a revolução nas ruas, em caso de derrota no domingo. Para muitos, o discurso busca legitimar o uso da violência para garantir a sobrevivência do regime e do projeto bolivariano criado por Chávez. A morte do opositor Luis Manuel Díaz, do Partido Acción Democrática, agregou drama ao contexto pré-eleitoral. Governos democráticos condenaram o assassinato, exigiram investigação imparcial e cobraram de Miraflores eleição transparente e justa.

O governo Dilma Rousseff divulgou comunicado em que condena ;com firmeza o lamentável incidente; e insta as autoridades venezuelanas ;a zelar para que o processo eleitoral transcorra de forma limpa e pacífica;. Chegou a enviar carta a Maduro na qual lembra a importância da garantia da democracia para a América Latina. Anteontem, a presidente descartou expulsar a Venezuela do Mercosul por entender não existirem motivos para tanto. Como se não bastassem a repressão; os discursos de incentivo à violência por um governante aferrado ao poder; a suspeita condenação a 13 anos e 9 meses de prisão a um líder da oposição; a submissão dos Poderes Legislativo e Judiciário ao Executivo. O alinhamento ideológico entre o Planalto e Miraflores ainda é mais importante do que os direitos humanos.

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