O reencontro após 39 anos de angústia

O reencontro após 39 anos de angústia

Roubado pela ditadura militar argentina em 1976, Mario Bravo abraçou ontem a mãe biológica, localizada pela organização Avós da Praça de Maio. Conhecido como o 119º neto, ele não escondeu a emoção e a certeza de que decifraria a própria história

postado em 02/12/2015 00:00
 (foto: Renacer Regional FM/Divulgação

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(foto: Renacer Regional FM/Divulgação )


Pela primeira vez desde o nascimento, Mario Bravo ; o 119; neto identificado com a ajuda da organização de direitos humanos Abuelas de Plaza de Mayo (Avós da Praça de Maio) ; se reencontrou ontem com a mãe biológica, Sara. ;Foi muito lindo e emotivo;, resumiu ele, durante entrevista coletiva concedida na sede da ONG, em Buenos Aires. Morador de Las Rosas, pequena cidade na província de Santa Fé, Mario, 39 anos, viajou de carro com a mulher e os filhos, acompanhado por uma caravana de amigos que fizeram questão de apoiá-lo. A mãe, que completa 60 anos em janeiro, mora na província de Tucumán e viajou para a capital no dia anterior, na companhia da filha mais velha. Por meio de um comunicado lido pela presidente das avós, Estela de Carlotto, a organização esclareceu parte do passado da família.

De acordo com a entidade, em 1975, Sara, que não teve o sobrenome divulgado, trabalhava em um hotel de San Miguel de Tucumán e viva com as duas filhas, que tinham 1 e 3 anos de idade. ;Em julho de 1975, ao regressar do trabalho de madrugada, ela foi interceptada por um carro na porta de casa;, disse Carlotto. Mantida ilegalmente na prisão, Sara deu à luz no cárcere, cativeiro entre maio e junho de 1976. ;O bebê foi imediatamente levado por um enfermeiro, e Sara nunca mais o viu;, completou. A mulher somente acabou libertada em novembro de 1976, abandonada em um canavial, e precisou ser hospitalizada.

Em 2004, ela procurou a Secretaria de Direitos Humanos de Tucumán, em busca de ajuda para encontrar o filho. Dois anos depois, foi encaminhada à secretaria nacional e, três anos depois, colheu sangue para o banco de dados genéticos de parentes e de vítimas da ditadura. Ao mesmo tempo, Mario, que suspeitava de sua origem, buscava mecanismos para confirmar a sua história. Em fevereiro deste ano, ele procurou a filial das avós, em Rosário. Em agosto, também doou sangue para exames de DNA. A confirmação veio em 19 de novembro.

;Parece que estou vivendo em um filme. Sempre vemos ocorrer com os outros, mas, de repente, você se encontra em todos os meios de comunicação. Vê passar o filme de sua vida em preto e branco. Se recorda de tudo que viveu. Pensa também que te buscavam e pensa que fez falta a essa família por todos esses anos. Mas, agora, temos que ser positivos e pensar adiante;, disse Mario. Ele contou que aguarda, ansioso, pelo encontro com o restante da família. E revelou que os sobrinhos criaram um grupo de conversas no WhatsApp chamado ;Bem-vindo, tio Mario; para que fiquem em contato. ;Agora, tenho outros seis irmãos e muito mais gastos para o Natal;, brincou.

Esperança
Em relação ao reencontro privado, ocorrido por volta do meio-dia (13h em Brasília), Mario disse que a mãe ficou emocionada e chorou ao vê-lo. ;Ela escutou meu choro (quando nasci) e, agora, minha voz, depois de 38 anos;, disse. ;Minha mãe me disse que falava muito comigo em sua barriga. Eu disse que ela havia feito muito. Faltou um pouquinho, mas fez o mais importante: buscar por mim;, contou, também tomado pelas lágrimas. Mario foi registrado como se tivesse nascido em 1977, em Santa Fé, e nunca teve dúvidas sobre a origem, confirmada pela família adotiva. Ao evitar detalhes sobre a sua vida privada, ele disse apenas que a mãe de criação morreu há poucos anos e que considera os irmãos e os sogros como sua segunda família.

Estela de Carlotto destacou que reencontros como o de ontem dão força para o movimento e cobrou mais investigações em vez de esforços para uma conciliação com os repressores ; como defenderam, recentemente, grupos políticos, midiáticos e judiciários. Segundo ela, Sara lhe confessou que jamais vai se separar do filho.

O secretário de Direitos Humanos, Martín Fresneda, que deixa o cargo com o fim do governo de Cristina Kirchner, participou da entrevista coletiva. ;Recuperar um irmão é recuperar parte da pátria perdida;, declarou. De acordo com ele, o resultado do exame de DNA de Mario foi preservado até o fim das eleições para que a divulgação não influenciasse a decisão do eleitorado.


Menem é condenado à prisão por peculato
O ex-presidente Carlos Menem (foto), 85 anos, foi condenado a 4 anos e meio de prisão por desviar dinheiro para pagamentos extras a ministros e secretários de sua gestão (1989-99). Menem, que ocupa uma cadeira no Senado do país, possui foro privilegiado e não deve ser preso. O caso de peculato é conhecido como ;Sobresalários;. Além de Menem, dois ex-ministros foram condenados: Domingo Cavallo, ex-titular de Economia, recebeu pena de 3 anos e meio; e Raúl Granillo Campo, da Justiça, 3 anos e 3 meses.


;Minha mãe me disse que falava muito comigo em sua barriga. Eu disse que ela havia feito muito. Faltou um pouquinho, mas fez o mais importante: buscar por mim;

Mario Bravo

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