O livro resiste e dá uma ajudinha

O livro resiste e dá uma ajudinha

Mesmo no contexto de uma grave crise econômica, o segmento editorial brasileiro se desenvolve e fatura mais

» VANESSA AQUINO
postado em 02/12/2015 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press - 13/4/14)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press - 13/4/14)


Poucos diriam que a crise financeira, que ainda preocupa vários setores da economia brasileira neste ano, contribuiria para o desenvolvimento do mercado editorial no país. Os dados divulgados pelo Sindicato Nacional dos Escritores apontou aumento no faturamento em 3,9%. A crise econômica fez com que algumas categorias de livros se destacassem mais que outras. O desgaste que causou desempregos e instabilidade impulsionou a procura por publicações de autoajuda, especialmente os que orientam a como agir diante de um mercado de trabalho ainda mais inacessível. Títulos voltados para o entretenimento rápido e mais interativos ; livros para colorir, recortar, anotar ; também estão em alta e garantem as cifras nos caixas das livrarias.

De acordo com Ismael Borges, coordenador do setor editorial da Nielsen ; empresa responsável por pesquisas de consumo ;, o mercado de livros responde de uma maneira diferente às crises, quando comparado a outras indústrias tradicionais, como a automobilística. ;Na crise, o livro se torna uma alternativa de entretenimento e lazer economicamente alcançável e altamente viável. Ao mesmo tempo, ele é instrumento de desenvolvimento pessoal;, acredita. Para ele, é possível colocar na avaliação dois aspectos do desenvolvimento pessoal. ;Um tem teor acadêmico e profissional; e a outro é voltada mais para autoajuda mesmo. São conteúdos que as pessoas vão atrás para lidar com sistemas de crise. Então, diferente das outras indústrias, o livro tem essa dinâmica.;

Mercado internacional

Os autores brasileiros continuam participando em peso das principais feiras internacionais, que impulsionam a economia do livro. Ismael Borges destaca que o mercado brasileiro é berço de oportunidades. ;Sabe-se muito bem que a infiltração do livro no Brasil ainda é muito pequena, quando comparado aos países desenvolvidos. E por isso mesmo é um berço de oportunidades porque tem muito espaço para crescer. Para mim, esse é principal elemento relevante quando a gente para fazer essa comparação. Existe muito potencial de crescimento, mais que outros locais do mundo.;



Há uma situação de desvantagem cambial. Assim, como explica Ismael, o mercado editorial vê menos vantagem em investir em obras internacionais, já que os direitos de publicações são pagos em dólar. ;Estamos em desvantagem em relação à moeda americana e isso faz com que a melhor moeda a se desenvolver seja o autor nacional, especialmente o novo autor nacional, com quem negocia-se com mais facilidade em reais;, explica o coordenador que acrescenta que o escritor brasileiro, em termos de criatividade, não deixa nada a desejar a autores internacionais e isso tem sido apresentado todos os anos nas feiras importantes como a de Frankfurt, Guadalajara, de Londres e a de Bolonha, que tem cunho infantil.

Livro digital

O livro impresso não morreu, como alguns previram assim que as publicações digitais ganharam o mercado. No entanto, a disputa entre as plataformas é tema recorrente de discussão em eventos literários. Ismael acredita que o livro de papel tem público cativo e sempre vai ter espaço no mercado.

;Estou lendo muito sobre essa velocidade da penetração do livro digital no mundo e ela tem caído, no que diz respeito à velocidade em que ela tem ganhado importância, analisando questões numéricas, observa-se que quem gosta de livro de papel, gosta de livro de papel. Na verdade haverá, por muito tempo, uma tendência de convivência pacífica das duas modalidades. Hoje tem muito mais a questão do cross-media, do conteúdo enquanto elemento principal do que propriamente o digital.;

O desempenho no mercado das publicações tem sido assunto na imprensa internacional. O The New York Times publicou recentemente uma reportagem falando do ;declínio; do livro digital, a qual foi respondida por outra matéria na revista Fortune que dizia mais ou menos o contrário. O fechamento da plataforma de livros por assinatura Oyster, em setembro, foi interpretado como outro sinal de decadência do que já foi considerado o futuro. Entretanto, tanto o Kindle Unlimited, da Amazon, como o 24Symbols estão crescendo significativamente.


Fim da Cosac Naif
Depois de quase 20 anos de existência, a editora Cosac Naify anunciou, no início da semana, que fecharia as portas. O motivo alegado pelo editor Charles Cosac não foi a crise econômica, mas essencialmente as dificuldades em seguir a proposta da empresa, quando foi criada, em 1996. O alto investimento das edições, conhecidas pela sofisticação gráfica, não produzia retorno financeiro, segundo Charles Cosac. A editora tentou criar fórmulas que cobrissem os prejuízos dessas edições
especiais, mas a situação do mercado não ajudou.


3,9%
aumento do faturamento das livrarias de setembro a outubro de 2015


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