Um mal a ser combatido

Um mal a ser combatido

Custos crescentes nos serviços privados de saúde representam um desafio para as operadoras, que defendem modelo mais racional para a cobertura nos atendimentos

postado em 02/12/2015 00:00

Nos últimos quatro anos, os gastos do setor de saúde cresce-ram 56%, segundo dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). Entre internações, terapias, exames e consultas, as despesas saltaram de R$ 68 bilhões para R$ 106 bilhões entre 2011 e 2014. No mesmo período, a inflação média anual no setor de saúde foi de 15,75%, três vezes mais expressiva que o custo de vida dos brasileiros, medido pelo Índice de Preços ao Consumidor ; Amplo (IPCA), que chegou a 6,16%. A projeção é que fique ainda mais alta no fechamento deste ano e atinja 18%.

A previsão do IESS é que o Brasil feche o ano com o setor de saúde 18% mais caro. É uma alta superior à de Estados Unidos (9%), Turquia (15%), África do Sul (6,5%) e, inclusive, à de vizinhos latinos, como Colômbia (9%) e Chile (6%). Segundo a instituição, os gastos médios com planos de saúde sobre a folha de pagamentos das empresas, atualmente de 11,4%, devem chegar, caso não haja mudança de cenário, a 25% em menos de 20 anos. Após uma série de estudos, o IESS concluiu que as maiores responsáveis são as internações, que correspondem à metade dos gastos das operadoras. Essa parcela tem crescido cerca de 15% ao ano, alerta o superintendente executivo do IESS, Luiz Augusto Carneiro.
É importante ressaltar que o problema não está na demanda pelo serviço. Por volta de 14% dos beneficiários se internam todo ano, índice que tem se mantido estável e, por isso, não influencia no quadro. O aumento da população idosa também não pode ser usado como justificativa para a alta das despesas com internações, pois o país ainda está em período de bônus demográfico. O fator que tem elevado as despesas é o custo das internações, que dobrou entre 2008 e 2013. A alta tem origem em medicamentos e materiais, responsáveis por metade desses gastos.

Para Luiz Augusto Carneiro, o modelo de remuneração de hospitais adotado no Brasil, chamado de contas abertas, contribui para o encarecimento da atividade no setor. O pagamento é feito ao hospital somente após encerrado o tratamento. Quando uma pessoa é internada ou faz alguma cirurgia, por exemplo, a fatura só é enviada à operadora de plano de saúde quando o paciente recebe alta. ;É um cheque em branco;, define o superintendente executivo do IESS.

Nos países desenvolvidos, o modelo preponderante de pagamento é por tipo de diagnóstico. Nele, cada tratamento tem um preço prefixado, estabelecido antes de o paciente iniciar o procedimento. Ao definir, com antecedência, o problema a ser tratado, fica mais fácil estimar com precisão o tempo de permanência no hospital e quantificar os recursos necessários, entre materiais, medicamentos e honorários, o que dá margem menor para desperdícios.

Esse modelo é adotado há mais de três décadas em outros países e tem mostrado bons resultados. ;A África do Sul aplicou essa metodologia há 10 anos e conseguiu reduzir a inflação médica;, exemplifica Carneiro. Ele acredita que implementar um modelo semelhante no Brasil reduziria os altos custos da saúde no país. ;O problema é que, no Brasil, os hospitais têm incentivo para ganhar com volume;, observa. Trocar o modelo de contas abertas por esse seria uma forma de combater o desperdício de materiais. Como o preço do procedimento fica fechado, não há incentivo para adicionar medicamentos ou procedimentos desnecessários.

"A África do Sul aplicou essa metodologia (por tipo de diagnóstico) há 10 anos e conseguiu reduzir a inflação médica.;

Luiz Augusto Carneiro,uperintendente executivo do IESS

Variação de preços pode chegar a 1.000%

A adição de produtos desnecessários na conta dos tratamentos tem sido uma preocupação da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) há pelo menos 10 anos. Dois são os problemas principais: preços suspeitos e mau uso dos equipamentos.


A depender da região do país onde o dispositivo é comprado ou da operadora contratada, os preços de próteses, órteses e materiais especiais (OPME) podem variar até 1.000%. Um exemplo é a prótese de joelho, que tem custo de produção de pouco mais de R$ 2 mil, mas é vendida a R$ 18,3 mil às operadoras.
A preocupação começa quando há incentivo à indicação desnecessária desses aparelhos. No Brasil, o hospital atua como revendedor ; ou seja, ganha para comercializá-los. Da mesma forma, os médicos chegam a receber até 40% pela indicação, o que faz com que ;muitos acabem se valendo desse estímulo financeiro para utilizar esses materiais, mesmo quando não é necessário;, alerta o presidente da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), Marcio Coriolano.


Essa prática onera o sistema e gera perdas incalculáveis na vida dos pacientes. Os prejuízos ocorrem tanto no âmbito financeiro, por eles terem que custear equipamentos de preços exorbitantes, quanto em relação à saúde. ;Utilizar materiais que não são recomendáveis pela técnica médica e fazer cirurgias desnecessárias pode colocar a pessoa em perigo;, adverte o presidente da FenaSaúde.


Duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), uma na Câmara e outra no Senado, foram criadas este ano para combater fraudes e distorções nesse segmento do mercado segurador. Mas as ações para coibir esse tipo de prática não se restringem ao Legislativo. Os ministérios da Fazenda, da Justiça e da Saúde criaram um Grupo de Trabalho Interinstitucional (GTI) para tratar da questão. Em julho deste ano, após 180 dias de atividade, o GTI publicou um relatório com recomendações. Entre elas, destacam-se a adoção de nomenclaturas únicas para as próteses similares e a equiparação dos preços.

Negociar, antes de ir à Justiça
Das 100 milhões de ações judiciais em trâmite atualmente, 392 mil são relacionadas à saúde, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A grande quantidade de processos judiciais referentes à saúde está relacionada ao maior nível de cobrança dos consumidores, além da desinformação e da facilidade de acesso ao Judiciário, ;muitas vezes sem custo nenhum para o demandante;, lembra Washington Bezerra, presidente da Comissão de Assuntos Jurídicos da CNseg. Ele ressalta que muitos beneficiários apelam à Justiça a fim de resolver casos que poderiam ser solucionados administrativamente, com a própria empresa, de forma mais eficiente.

O problema mais recorrente é a exigência, por parte dos clientes, de coberturas que não fo

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