Fitch

Fitch

Fitch tira selo de bom pagador e deixa o país em situação delicadíssima. Agência alega descompromisso do governo com ajuste fiscal, agravamento da recessão, crise política e corrupção. Economia deve perder pelo menos US$ 18 bilhões

» ANTONIO TEMÓTEO » ROSANA HESSEL
postado em 17/12/2015 00:00

Não foi por falta de aviso. Diante do descompromisso com o ajuste fiscal, o Brasil foi rebaixado ontem pela agência de classificação de risco Fitch. Em menos de três meses, essa foi a segunda vez que o país perdeu o selo de bom pagador ; a primeira a tirar o grau de investimento foi a Standard & Poor;s (S). Com isso, o quadro econômico, que já é ruim, tende a piorar. A inflação não dará trégua, o Banco Central terá que aumentar os juros, o desemprego vai disparar e o Tesouro Nacional enfrentará dificuldades para financiar a dívida pública, que, no próximo ano, pode chegar a 80% do Produto Interno Bruto (PIB). A perspectiva é de que novos rebaixamentos ocorram, pois tanto a Fitch quanto a S colocaram o Brasil em perspectiva negativa.


A Fitch, que informou o governo na terça-feira sobre sua decisão, não economizou nas justificativas para empurrar o país ao grupo de nações não confiáveis. Disse que a recessão da economia tem se mostrado mais forte que o esperado. A perspectiva de especialistas é de que o PIB registre queda de mais de 3% neste ano e de pelo menos 2,7% em 2016. A agência ressaltou a incapacidade do governo de fazer um ajuste fiscal consiste, com constante mudança nas metas prometidas. Anteontem, um dia antes do rebaixamento, a presidente Dilma Rousseff pediu ao Congresso a redução da meta de superavit primário de 2016, de 0,7% para 0,5% do PIB, que poderia ser zerada por meio do abatimento de diversas despesas, como as do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, contrário à medida, colocou o cargo à disposição.

Incertezas

Na avaliação da Fitch, há um quadro devastador hoje no Brasil. Não bastassem os problemas na economia e o descontrole fiscal, o país está mergulhado numa crise política gravíssima, tendo como pano de fundo o esquema de corrupção desvendado pela Operação Lava-Jato, que pode inviabilizar a aprovação de medidas importantíssimas para estabilizar a dívida pública. O que mais assusta, segundo os analistas, é que não há perspectiva de reversão desse cenário tão cedo, uma vez que o governo e o Congresso estão mobilizados pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e a Polícia Federal deve anunciar a prisão de mais políticos nas próximas semanas.


;A deterioração do quadro doméstico está aumentando os desafios para as autoridades tomarem medidas políticas corretivas e oportunas a fim de resgatar a confiança e melhorar as perspectivas de crescimento, a consolidação orçamentária e a estabilização de dívida;, assinalou a Fitch. Em meio a esse quadro de incertezas, é a economia que pagará a conta. Com a perda do selo de bom pagador do país, as empresas terão custos maiores para captar recursos no exterior, reduzindo ainda mais os investimentos produtivos, e os grandes fundos estrangeiros darão início a um movimento de fuga de recursos do país, uma vez que eles só podem aplicar em nações que detêm grau de investimento de pelo menos duas das três maiores agências de classificação de risco do mundo ; S, Fitch e Moddy;s, que ainda não rebaixou o Brasil.

Pessimismo

Nas contas da economista Tatiana Pinheiro, do banco Santander, a perda do selo de bom pagador pela segunda agência de classificação de risco tem potencial para expulsar US$ 18 bilhões do mercado brasileiro. Ela detalhou que o volume de investimento estrangeiro direito, que, na média, tem ficado em US$ 73 bilhões desde 2008, deve desabar para US$ 50 bilhões. Ela destacou ainda que o menor fluxo de recursos externos do Brasil afetará, de forma duradoura, o PIB potencial, que é a capacidade de crescimento da economia sem pressionar a inflação. Esse potencial se limitará a 2% anuais.


Para o economista Samuel Pessoa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), a decisão da Fitch forçará novos aumentos nos preços do dólar ; ontem, a moeda ficou próxima de R$ 4. ;O rebaixamento era totalmente esperado, mas para o primeiro trimestre do ano que vem. A saída de recursos do Brasil ocorrerá, mas ainda não dá para medir qual será o volume.;


Segundo o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, o rebaixamento é muito ruim. ;Vamos demorar uma década para voltar a ter o selo de bom pagador;, afirmou ele, que vê, com ceticismo, uma mudança de rota na condução da política econômica. Ele destacou que a desconfiança em relação ao Brasil é grande e pode ser medida pelos Credit Default Swaps (CDS), uma espécie de seguro contra o calote, que estão em 484 pontos, nível de país em crise.


Apesar do pessimismo do mercado, o Banco Central assegurou que o rebaixamento do Brasil não altera o sentido ou a intensidade do ajuste macroeconômico que está em curso e que já demonstra resultados concretos. ;A consolidação da posição fiscal seguirá avançando e se prevê importante desinflação em 2016. Esses fatores serão essenciais para a recuperação da atividade econômica em bases sustentáveis à frente.;






Medo da dívida
O Ministério do Planejamento informou que a perda de grau de investimento do Brasil não muda a perspectiva de reequilíbrio fiscal e a recuperação da economia a médio prazo, bem como a segurança e a confiabilidade dos títulos públicos brasileiros. A pasta detalhou que todo investidor que adquirir papéis da dívida brasileira estará fazendo um bom negócio. Além disso, sinalizou que, a despeito da atual redução do nível de atividade econômica, o governo continua trabalhando para construir as bases de um novo ciclo de crescimento da renda e do emprego.

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