Nova esperança contra a psoríase

Nova esperança contra a psoríase

Implantada em ratos, a estrutura sintética identificou quando começaria a crise da doença e liberou a quantidade certa de medicamento para evitá-la. A solução criada na Suíça poderá ser usada em pacientes em até 10 anos

» Vilhena Soares
postado em 17/12/2015 00:00

A psoríase é uma doença de pele que ocorre devido a problemas relacionados ao sistema imunológico. Em casos graves, é tratada com imunossupressores ; substâncias, injetadas ou ingeridas, que reduzem a atividade da defesa humana. A terapia, apesar de eficaz, pode trazer complicações, como o risco de infecções, já que atacar a imunidade deixa o corpo mais suscetível a agentes infecciosos. Para resolver esse problema, pesquisadores da Suíça desenvolveram uma célula que, ao ser implantada no corpo, detecta a ativação de substâncias ligadas à enfermidade autoimune e desencadeia a produção de proteínas que podem contê-la diretamente, sem alterar o equilíbrio do sistema de defesa. Detalhada na edição desta semana da revista Science Translational Medicine, a técnica foi testada em ratos, com sucesso, e há a expectativa de que também possa combater outras doenças inflamatórias.


Os cientistas haviam realizados trabalhos anteriores com foco em estratégias para conter doenças como o diabetes, a obesidade e a artrite gotosa. Mas resolveram estudar complicações mais complexas, como as autoimunes. ;As enfermidades do sistema imunitário, por exemplo, a psoríase, são caracterizadas por múltiplas moléculas que só podem ser corrigidas usando diferentes proteínas terapêuticas. Precisamos, portanto, de redes que atuem por meio de sistemas mais eficientes, como os computadores;, destacou ao Correio Martin Fussenegger, um dos autores do estudo e professor de bioengenharia e biotecnologia no Departamento de Biossistemas do Instituto Federal Suíço de Tecnologia (ETH Zurique).
A alternativa criada, dizem os estudiosos, tem a intenção de ser mais eficiente que os medicamentos usados atualmente. São minúsculas células sintéticas, criadas por tecnologia biológica, que combatem a crise de psoríase. Testado em ratos com a forma aguda da doença, o novo recurso, inicialmente, conseguiu identificar o crescimento de células imunitárias ativadas de forma anormal em decorrência do mal autoimune. Essas células produzem duas proteínas de sinalização pró-inflamatórias, o fator de necrose tumoral (NTF, pela sigla em inglês) e a interleucina ; 22 (IL-22), que dão origem à enfermidade.


Após detectado o descontrole de produção de NTF e IL-22, as células sintéticas provocaram a produção de doses terapêuticas de inibidores anti-inflamatórios. ;Elas detectaram as duas citocinas pró-inflamatórias responsáveis pela psoríase e calcularam a quantidade de proteína necessária para a produção de citocinas anti-inflamatórias que precisava ser liberada na corrente sanguínea;, detalha Fussenegger. A liberação das substâncias curativas evitou a crise nas cobaias e amenizou feridas já provocadas pela enfermidade.

Biocomputador
Os cientistas também realizaram testes em amostras de sangue de pacientes com psoríase, que reagiram bem à terapia das células inteligentes. Os resultados positivos deixam o grupo otimista quanto ao uso da tecnologia para o tratamento em humanos. ;Isso, certamente, vai levar 10 anos, mas acreditamos que vai funcionar. As nossas células já são projetadas para humanos e todos os componentes do circuito são de origem humana, de modo que o sistema é sensível o suficiente para operar em um paciente e tratar a psoríase de forma eficiente;, destaca o autor.


Há também a possibilidade de a intervenção tecnológica tratar outras doenças inflamatórias, como o lúpus. Nesse caso, a tecnologia adaptaria o seu sistema de detecção para identificar a ativação anormal de outras proteínas inflamatórias. ;Vamos aumentar a complexidade de nossas redes de genes para que, um dia, ela possa operar de forma semelhante a computadores. Usaremos esses biocomputadores para processar a informação metabólica do corpo em tempo real e prevenir essas doenças, equilibrando perturbações patológicas;, aposta o autor.
Gilvan Ferreira Alves, dermatologista e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), acredita que enfermidades, ainda mais graves que a psoríase, como a colite ulcerativa (doença inflamatória do cólon e do intestino grosso) poderiam ser o foco da nova tecnologia. ;Já sabemos quais substâncias aumentam e causam essas doenças, um conhecimento que pode ser utilizado como uma possibilidade de personalizar tratamentos. Isso reduziria principalmente os efeitos colaterais. A preocupação maior seria o custo, que pode ser alto, mas, claro que, ainda assim, seria uma opção;, avalia.

Mais comum em mulheres
Também autoimune, afeta principalmente as articulações, a pele, o cérebro e os rins. Existem três tipos de lúpus: o discoide, com inflamações somente na pele; o sistêmico, que ocorre em todo o organismo e pode comprometer vários órgãos; e o induzido por drogas, no qual as inflamações ocorrem pela ingestão de medicamentos. Acomete mais as mulheres, e grande parte dos diagnósticos ocorre entre os 15 e os 40 anos.

" Vamos aumentar a complexidade de nossas redes de genes para que, um dia, ela possa operar de forma semelhante a computadores. Usaremos esses biocomputadores para processar a informação metabólica do corpo em tempo real
e prevenir essas doenças;

Martin Fussenegger, professor de bioengenharia e biotecnologia no Departamento de Biossistemas do Instituto Federal Suíço de Tecnologia

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