Governo recorre às ruas

Governo recorre às ruas

Dilma participa de evento com Mujica e faz defesa enfática do mandato, afirmando que usará todos os mecanismos para manter poder

JULIA CHAIB PAULO DE TARSO LYRA
postado em 17/12/2015 00:00
 (foto: Jorge William/Ag. O Globo)
(foto: Jorge William/Ag. O Globo)
Ovacionada ao subir no palco, ao som de ;não vai ter golpe, vai ter luta;, a presidente Dilma Rousseff fez um enfático discurso na defesa do próprio mandato no início da tarde de ontem. A presidente participou, ao lado do ex-presidente do Uruguai Jose Pepe Mujica, da abertura da 3; Conferência Nacional da Juventude. Dilma disse que usam de ;invenções ; e de ;atalhos; para tirá-la do governo. A petista disse ainda que o movimento se configura como golpe. Mais cedo, Dilma participou de um almoço com o vice-presidente Michel Temer, em sua primeira aparição púbica juntos depois da divulgação da carta do vice a ela.

A presidente disse que está em curso uma ;batalha; e que ela usará de todos os mecanismos previstos para se manter no poder. ;Neste momento, usando todos os instrumentos que o estado de direito faculta, lutarei contra a interrupção ilegítima do meu mandato;, afirmou.
;Temos de garantir o respeito ao voto popular direto e respeitar o resultado de eleições. Hoje, nós sabemos que defender a democracia é mudar o Brasil para melhor. Eu falo em democracia porque está em curso uma batalha, uma luta que ditará os rumos do nosso país por muito tempo. Em minha juventude, eu vivi e lutei contra o pesadelo decorrente do desrespeito à democracia;, disse.

A presidente classificou como um atentado contra a democracia a tentativa de tirá-la do poder. ;A constituição prevê sim esse processo (de impeachment). O que ela não prevê é a invenção de motivos. Isso não está previsto em nenhuma constituição. Por isso, aqueles que tentam chegar ao poder de forma a saltar a eleição direta oscilam entre invenções, falácias, porque não há como justificar o atentado que querem cometer contra a democracia;, afirmou.

A petista reafirmou que não houve desvios na forma como o governo pagou o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida na prática das chamadas pedaladas fiscais. ;Eu assinei decretos de mudanças na alocação de recursos quando eles sobravam e, portanto, poderiam ser deslocados para outras atividades, pela lei orçamentaria deste país;, defendeu-se. A presidente ainda alegou que tentam tirá-la do poder por causa de uma ;crise política; e que isso só poderia ocorrer caso o regime fosse o parlamentarismo. ;No parlamentarismo, o governo não é eleito no voto majoritário. No presidencialismo, o voto é direto, é majoritário, foi dado nas urnas;, disse.

Dilma adirmou que quem quer derrubá-la pretende acabar com um projeto de 13 anos de inclusão social e que não há nada contra ela. ;Sou uma mulher que lutou, amo meu país e sou honesta. Além disso, não compartilho com algumas praticas da velha política que alguns deles professam. O mais irônico é que alguns que querem interromper o meu mandato têm biografias que não resistem a uma rápida pesquisa no google;, ironizou a presidente, seguida por uma série de gritos de ;Dilma fica, Cunha sai;. Dilma ainda defendeu a Petrobras e afirmou que a estatal segue como a maior empresa do país.

A presidente ainda afirmou ser contra a redução da maioridade penal, contra a PEC 215, que transfere para o parlamento a prerrogativa de demarcar terras indígenas, e anunciou que será criado o Disque Racismo, serviço de denúncias gratuitas do crime. Dilma aproveitou também para cutucar o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pela atitude que teve frente aos manifestantes que o impediram de promover uma reforma e fechar escolas no estado. ;Não mudaremos o Brasil fechando escolas, isso é certo. E não vamos mudar o Brasil reprimindo movimentos pacíficos com forcas policiais;, disse.

Mais cedo, Dilma teve de ficar lado a lado com o vice-presidente, Michel Temer, cuja relação está estremecida. Em almoço no Clube do Exército, ambos cumprimentaram os oficiais generais das Forças Armadas ao som da música ;Amigos para Sempre;, tocada pela banda do órgão. Foi a primeira vez que os dois apareceram juntos após a divulgação da carta enviada por Temer a Dilma, em que ele diz fazer um ;desabafo;, afirma que a presidente sempre desconfiou dele e que passou os primeiros quatro anos de governo como ;um vice decorativo;. Após os cumprimentos, Dilma e Temer se saudaram com beijos e sentaram-se lado a lado durante o almoço.

PSB
Dividido quanto aos rumos do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o PSB resolveu adiar a reunião da Executiva Nacional marcada para hoje, em Brasília. O partido, que está rachado desde as eleições do ano passado, quando perdeu o candidato ao Planalto, Eduardo Campos, deixou para o ano que vem a decisão sobre a posição da legenda em relação a um possível afastamento da presidente Dilma.

;Tem tantas correntes com opiniões distintas que, neste momento, se fôssemos colocar o assunto em debate, o risco é que a votação terminasse empatada;, explicou o deputado Júlio Delgado (MG). ;Como não havia chances de o julgamento do Supremo sobre o rito do impeachment terminar antes da reunião da Executiva, achamos melhor debater esse tema após o recesso parlamentar;, completou o líder do PSB na Câmara, Fernando Bezerra Coelho Filho.

Lula depõe ao MP
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou depoimento ontem, em Brasília. A oitiva, de cerca de duas horas, ocorreu durante a manhã, no prédio da Procuradoria-Geral de Justiça Militar, no Setor de Embaixadas Norte. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki autorizou o depoimento de Lula na condição de testemunha em inquérito da Operação Lava-Jato que apura formação de quadrilha por políticos. Contudo, a Procuradoria-Geral não informou se a oitiva está relacionada a esse caso. A Polícia Federal expediu intimação para que o petista deponha hoje, na sede da PF, em Brasília, sobre suposto esquema de compra de medidas provisórias em seu governo. O caso é investigado na Operação Zelotes.



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