Tudo errado

Tudo errado

Não dá para esperar mais nada de uma equipe econômica formada por um ministro zumbi e um ministro do rebaixamento. Leia-se: Joaquim Levy e Nelson Barbosa

por Vicente Nunes / vicentenunes.df@dabr.com.br
postado em 17/12/2015 00:00

Um país que tem como chefe da equipe econômica um ministro zumbi não poderia ter outro destino senão a perda do grau de investimento pela segunda das três maiores agências de classificação de risco do mundo, a Fitch. Joaquim Levy, que chegou todo poderoso ao Ministério da Fazenda, só permanece no cargo por puro ego. De símbolo do compromisso fiscal do governo ele se transformou, com um acúmulo impressionante de derrotas, num personagem de fim de festa, que os donos da casa fazem de tudo para expulsar ; no caso, a dona da casa é a presidente Dilma Rousseff.


Ainda que cumpra à risca o compromisso fechado com a chefe de ficar no cargo até que o seu sucessor seja escolhido,
Levy nada mais poderá fazer para reverter o estrago na credibilidade do país, agora considerado lixo entre os investidores. Cheio de boa vontade e inebriado pelo poder, ele acreditou no canto da sereia de que Dilma havia finalmente mudado e estava disposta a fazer um ajuste fiscal consistente que, em apenas seis meses, colocaria o Brasil de novo na rota do crescimento. A petista, infelizmente, nunca foi chegada à responsabilidade fiscal.


Mesmo sendo o traído no jogo encenado pelo governo, o ministro da Fazenda tem boa parcela de culpa pela situação que o país chegou. Ele criou falsas expectativas, alimentou promessas que não seriam cumpridas. Essa postura de Levy ganhou relevância diante da necessidade dos agentes econômicos de encontrarem uma tábua de salvação em meio ao derretimento da economia e à eclosão de uma crise política sem precedentes desde a redemocratização do Brasil. Levy achou que o comando da economia estava com ele, mas o poder de ditar as regras nunca saiu das mãos de Dilma.

Disputa por poder

Por mais que o ministro da Fazenda mostrasse estar no domínio da situação, era o colega do Planejamento, Nelson Barbosa, que estava dando das cartas com Dilma. Aos fatos. Levy se posicionou contra, mas o governo reduziu a meta de superavit primário (economia para o pagamento de juros da dívida) deste ano de 1,13% para 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem se dar ao trabalho de consultar Levy, o Planejamento encaminhou ao Congresso uma proposta de Orçamento para 2016 com previsão de deficit de R$ 30,5 bilhões.


O ministro da Fazenda bateu o pé, e Dilma prometeu que o rombo no Orçamento seria coberto e o governo entregaria meta de superavit de 0,7% do PIB no ano que vem. Apesar de todas as ameaças de Levy, de que deixaria a Fazenda caso a presidente mudasse de ideia, ele foi surpreendido pelo envio de uma mensagem da chefe ao Legislativo de que a meta seria reduzida para 0,5%, com possibilidade de ser zerada pelo abatimento de uma série de despesas. Era a tal meta flexível tanto alardeada por Barbosa.


Nesse processo de constante destruição da reputação de Levy, Dilma, mais uma, vez optou pelo erro. Deu ouvidos ao ministro do Planejamento, que se tornou o símbolo máximo do rebaixamento do país. Não custa lembrar: assim que Barbosa encaminhou o Orçamento de 2016 deficitário ao Congresso, o Brasil perdeu o selo de bom pagador pela Standard & Poor;s (S). Um dia depois de prevalecer a proposta do Planejamento de meta fiscal flexível, a Fitch empurrou o país para o grupo de países não confiáveis.


Em menos de três meses, Barbosa, na disputa enlouquecida por poder, conseguiu a façanha de destruir conquistas que levaram anos, como o respeito do país no contexto internacional. O grau de investimento dado pelas agências de risco era a comprovação de que o Brasil havia enterrado seu passado inglório de caloteiro contumaz. Agora, sem o selo de bom pagador, começa a surgir no horizonte o risco de insolvência do país, tamanha a velocidade do crescimento da dívida pública, já roçando os 70% do PIB.

Fatura cara

Impotentes, resta aos brasileiros esperar pela cara fatura do rebaixamento, a mais dolorosa delas, o aumento do desemprego. Não há escapatória. Com o agravamento da recessão, as empresas tenderão a demitir. As contas mais otimistas indicam que, apenas entre dezembro e março, pelo menos 1 milhão de vagas com carteira assinada devem ser fechadas. Mesmo com a economia derretendo, a inflação continuará próxima de 10% no acumulado de 12 meses até março, forçando o Banco Central a elevar os juros.


A lista das consequências elaborada pela economista Tatiana Pinheiro, do Banco Santander, vai muito além. Ela prevê dificuldades para o Tesouro Nacional se financiar no mercado. Para rolar a dívida pública, o órgão terá que pagar juros mais altos e encurtar os prazos de vencimentos dos papéis. Voltaremos, segundo ela, ao quadro observado em 2005, quando mais de 60% dos papéis estavam indexados à taxa básica (Selic) e, a cada dois anos, o Tesouro era obrigado a renovar todo o endividamento.


Tatiana destaca que, na melhor das hipóteses, o Brasil país perderá US$ 18 bilhões em investimentos estrangeiros que estão no país. O rebaixamento do Brasil levará junto uma série de empresas, que terão grande dificuldade para captar recursos no exterior. O resultado disso será o adiamento de projetos importantes que poderiam dar um alento ao quadro desesperador do qual não vemos saída.


Levy tenta passar otimismo quando tudo mostra que o governo perdeu a capacidade de gerenciar o país. Fala em união quando está explícito o racha na equipe econômica. De discurso bonito, fala suave, todos estão cheios. O que precisa é ação. Mas, por tudo o que se viu até agora, é difícil esperar uma reversão tão cedo. Estamos ao Deus-dará.







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