Dilma não é Collor

Dilma não é Collor

Warner Bento Filho, warnerbento.df@dabr.com
postado em 17/12/2015 00:00
Começou mal a série de protestos planejados para pressionar pelo impeachment de Dilma. Com número de manifestantes bem abaixo do registrado em ocasiões anteriores, a jornada de domingo frustrou os organizadores, que culparam, pela ausência das massas, a correria do fim de ano e a previsão do tempo. Os dois fatores podem ter contribuído, mas as principais razões para a falta de público são outras. Há descasamento mortal entre os motivos que movem, ou moveriam, as pessoas a irem às ruas e os que permitem as instituições de Estado buscarem o afastamento da presidente.

Ao ar livre, os manifestantes se mobilizam para dizer que Dilma está envolvida em corrupção e, por isso, deve cair, da mesma forma como aconteceu com Fernando Collor de Mello em 1992. Institucionalmente, no entanto, a acusação não se sustenta. Contra a presidente, não há qualquer suspeita de envolvimento em desvios. Para fazer tramitar constitucionalmente o processo de impeachment, a justificativa encontrada pela oposição se baseia no frágil argumento das pedaladas fiscais, absorvida pelo Tribunal de Contas, mas ainda longe de aceitação jurídica e política necessária.

O discurso dos líderes pró-impeachment nas ruas e nas instituições tampouco colabora para inflamar as massas. De alcance limitado, esse speech tem chegado apenas à classe média raivosa que aceita ir às ruas na companhia de golpistas declarados. No último domingo, os manifestantes faziam eco ao aniversário de uma das passagens mais sombrias da história do país, a edição do Ato Institucional número 5, de 13 de dezembro de 1968, que apagou as luzes do pouco que restava de democracia e de liberdades individuais depois do golpe militar de 1964.

Os protagonistas desse movimento tampouco transmitem a legitimidade necessária. No tapetão, tentam virar a mesa um presidente da Câmara dos Deputados que esconde contas bancárias na Suíça, um vice-presidente da República magoado e ávido por tomar o poder e um ex-candidato a presidente que nunca precisou arrumar a própria cama. Na rua, os protagonistas, revelados pelo Instituto Datafolha, são basicamente eleitores que não elegeram seu candidato em 2014 ; apenas 3% dos manifestantes votaram em Dilma.





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