Derretimento acelerado

Derretimento acelerado

Estudo mostra que, entre 2003 e 2010, a Groenlândia perdeu mais gelo do que durante todo o século 20. O fenômeno preocupa porque tem relação direta com a elevação do nível do mar, que ameaça países ilhas e regiões litorâneas

» Paloma Oliveto
postado em 17/12/2015 00:00
 (foto: Nicolaj Krog Larsen, Aarhus University, Denmark/Divulgação)
(foto: Nicolaj Krog Larsen, Aarhus University, Denmark/Divulgação)



Em sete anos, a Groenlândia perdeu mais gelo do que durante todo o século 20. Principal fenômeno ligado ao aumento do nível do mar, uma ameaça à sobrevivência de países insulares e de comunidades litorâneas, o derretimento de até 9 mil gigatoneladas da camada gelada do continente entre 2003 e 2010 foi verificado por uma equipe internacional de pesquisadores, liderada pelo Museu de História Natural da Dinamarca. Pela primeira vez, os cientistas apresentaram dados provenientes de observação direta, que datam dos últimos 110 anos ; os trabalhos anteriores se baseavam em modelos computacionais. Com fotografias aéreas, sensoriamento remoto e evidências geológicas, eles reconstruíram a perda real de gelo dessa região do planeta desde 1900, revelando um cenário grave e preocupante.

;Nós provamos que o derretimento das calotas polares contribuiu para um aumento médio do nível do mar de 25mm entre 1900 e 2010. Esse é um número importante, que precisa entrar para o próximo relatório do IPCC se quisermos ter um cenário real sobre o aumento do nível do mar no século 20;, observa Kristian K. Kjeldsne, pesquisador do Centro de Geogenética da instituição dinamarquesa e principal autor do estudo. O cientista climático refere-se ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, que publica documentos periódicos sobre os impactos do aquecimento global no planeta.

O relatório 2013 do IPCC, avaliado pelos pesquisadores, cita mudanças no nível do mar observadas ao longo do século 20, mas não inclui a contribuição do derretimento de gelo da Groenlândia e da Antártida no fenômeno. ;Se convertermos a quantidade de gelo perdido para água, podemos dizer que, de 1990 a 2010, elas contribuíram para o aumento global do nível do mar entre 10% e 18%. Nós acreditamos que nosso trabalho poderá aumentar muito a compreensão sobre esse problema e esperamos subsidiar o próximo painel do IPCC;, diz Kurt H. Kjaer, professor do Museu de História Natural e coautor do artigo, publicado na revista Nature. ;Estamos a um passo de conseguir mapear as contribuições individuais para o aumento global do nível do mar. Para projetar mudanças futuras e termos confiança nessas projeções, é essencial sabermos rigorosamente o que houve no passado;, justifica.

Marcas
Os métodos de observação dos pesquisadores dinamarqueses também revelaram que, se os padrões de aquecimento não sofrerem alteração, o século 21 tem tudo para colocar em risco as massas geladas dos extremos da Terra. De 2003 a 2010, a taxa de derretimento foi duas vezes mais alta que a observada nos 100 anos anteriores. De acordo com Kjeldsne, desde o fim da chamada Pequena Era do Gelo, jamais houve um período tão ameaçador para as geleiras.

Os pesquisadores contam que estavam particularmente interessados em observar as mudanças ocorridas na Groenlândia no fim dessa era, quando as calotas atingiram a espessura máxima do último milênio. Eles explicam que é possível retroceder no tempo graças a uma técnica de observação que leva em conta as marcas deixadas na paisagem pelo avanço e a retração das camadas geladas. Quando o gelo se acumula, a vegetação é removida; quando ele começa a derreter, a parte erodida fica mais clara que a área onde crescem as árvores. Chama-se de ;trimline; a fronteira entre as partes mais clara e mais escura das montanhas, e é ela quem indica a extensão máxima da camada gelada. Outro sinal das alterações nas placas congeladas pode ser obtido de rochas e sedimentos.

A observação de períodos mais modernos ocorreu diretamente, por meio de fotografias aéreas. Entre 1978 e 1987, milhares de fotos foram feitas na Groenlândia, revelando trimlines e outras alterações na paisagem. Para reconstruir o volume da antiga extensão de gelo, os pesquisadores compararam essas fotografias às imagens atuais, registradas por satélite. Os cientistas, então, verificaram que algumas áreas da cobertura congelada da Groenlândia perderam quantidades consideráveis de gelo no século passado.

Em algumas regiões, a redução ultrapassou 80%. Para Kurt H. Kjaer, o resultado serve de alerta. ;Nos últimos 100 anos, com um aumento de temperatura entre 0,8;C e 1;C, já foi alta a contribuição do derretimento das geleiras do Ártico na elevação do nível do mar. Os modelos climáticos indicam que o Ártico poderá ficar entre 2;C e 7;C mais quente em 2100;, observa.

Séculos frios
Foi um período de resfriamento que se estendeu do século 16 ao 19. Pode ter ocorrido por queda no índice de radiação solar, redução da atividade vulcânica, diminuição da população humana e mudanças na circulação oceânica, entre outros fatores. Os mínimos de temperatura ocorreram em 1650, 1770 e 1850, quando a Terra voltou a aquecer.

"Estamos a um passo de conseguir mapear as contribuições individuais para o aumento global do nível do mar. Para projetar mudanças futuras e termos confiança nessas projeções, é essencial sabermos rigorosamente o que houve no passado;
Kurt H. Kjaer, professor do Museu de História Natural da Dinamarca

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