O circo de Nero

O circo de Nero

Presidente licenciado da CBF, Marco Polo del Nero lança mão de sarcasmo e de respostas evasivas em depoimento. Sem ser, de fato, confrontado pelos parlamentares, nada acrescenta às apurações da comissão

Gabriela Ribeiro Especial para o Correio
postado em 17/12/2015 00:00
 (foto: Andressa Anholete/AFP)
(foto: Andressa Anholete/AFP)


Compra de um apartamento de quase R$ 3 milhões, processos de separação milionários e viagem não identificada a paraíso fiscal. Tudo isso nos registros de um cartola que se diz injustiçado pelas acusações de órgãos nacionais e internacionais ; foi indiciado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sob suspeita de corrupção e é alvo de investigação do Comitê de Ética da Fifa. No depoimento que prestou à CPI do Futebol, ontem, o presidente licenciado da CBF, Marco Polo del Nero, se colocou como vítima de perseguição. ;Vim aqui por livre e espontânea vontade e vou provar que há um equívoco muito grande nesses indiciamentos;, declarou.

Foram três horas de ironias e respostas disfarçadas do convidado mais aguardado da comissão que investiga irregularidades na CBF e na Copa do Mundo de 2014. Mas as declarações evasivas não revelaram nada além do que os senadores já sabiam. Meticuloso, Del Nero assumiu postura advocatória para defender sua gestão.

Em vez do silêncio, direito do depoente, Del Nero preferiu o enfrentamento. Quando afirmava não saber algo, rebatia questionando a veracidade das denúncias. Sobre movimentações financeiras da ordem de R$ 27 milhões, informação que chegou à CPI pelo Ministério da Fazenda, o dirigente disse que nunca chegou a ter tanto dinheiro. Segundo ele, a visita à ilha de Barbados, cujos dados foram repassados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), foi um equívoco da entidade que fiscaliza os voos que partem e chegam ao Brasil. ;Nunca estive em Barbados e nunca viajei no jato particular, no executivo da CBF;, afirmou.

Além de dizer que não é corrupto, Del Nero lançou mão da presunção de inocência que os parlamentares deveriam ceder aos depoentes. ;Eu não tenho conta no exterior, 100% das minhas contas são declaradas;, disse o cartola, que costuma fazer transações por meio de dinheiro em espécie. ;O real é a moeda circulante, não é?;, ironizou. Pelo trabalho no Comitê Organizador Local da Copa do Mundo, o presidente licenciado não lembra quanto recebeu. ;Eu não tenho os valores exatos, mas a comissão tem a minha quebra de sigilo, então é fácil ver;, disparou.

Juridicamente bem embasado, assessorado pelo advogado e ex-deputado federal José Roberto Batochio, Del Nero pouco se comprometeu. Nas horas críticas, resguardava-se ao sarcasmo de desconhecer o que estava sendo dito. ;Os fatos relevantes sobre as minhas movimentações financeiras eu costumo lembrar;, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). ;E eu invejo a memória de vossa excelência;, rebateu Del Nero, em uma das inúmeras vezes que deu de ombros para os parlamentares.

Prazo maior para Marin pagar fiança


O ex-presidente da CBF José Maria Marin conseguiu prorrogar em mais um mês o prazo para pagar US$ 2 milhões referentes à carta-fiança que faz parte do acordo feito com a Justiça norte-americana.
A nova data estabelecida pelo juiz Raymond Dearie é 15 de janeiro de 2016. O brasileiro cumpre prisão domiciliar em seu apartamento com vista para a Quinta Avenida, em Manhattan, desde que foi extraditado da Suíça para os Estados Unidos, em 3 de novembro. Ele compareceu à audiência usando por baixo da meia do pé esquerdo a tornozeleira eletrônica que monitora seus passos. Para cumprir o acordo, o
ex-cartola precisa garantir US$ 15 milhões, mas até hoje só pagou US$ 1 milhão à Justiça norte-americana. Marin já teria gastado
US$ 70 mil com seu aparato de segurança em Nova York.

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