Do analógico ao digital

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Guerra nas estrelas revolucionou a tecnologia de produção de efeitos visuais em filmes de ficção científica, mas técnica evoluiu a ponto de banalizar os personagens

» Nahima Maciel
postado em 17/12/2015 00:00
 (foto: BB-8, o novo personagem da trama dirigida por J.J. Abrams)
(foto: BB-8, o novo personagem da trama dirigida por J.J. Abrams)

Exatos 38 anos separam Guerra nas estrelas e O despertar da força. Em tempo intergaláctico, as quase quatro décadas podem significar um simples espirro, mas, se contabilizados em tempo humano, esses anos trouxeram uma verdadeira reviravolta para o cinema de ficção científica. George Lucas e sua equipe revolucionaram o cinema de ficção científica quando criaram a primeira trilogia da série. Graças às experiências que permitiam a interação entre a computação gráfica e os efeitos visuais construídos em estúdio com miniaturas e maquetes, o filme de 1977 deu início a uma corrida do ouro na cinematografia de efeitos especiais, com a Industrial Light and Magic, a empresa de Lucas responsável pelos efeitos especiais do filme, à frente da maratona. Se Deloreans voltaram no tempo e Falcons puderam viajar à velocidade da luz (quando funcionavam), foi porque um Geogre Lucas de 33 anos acreditou (e conseguiu convencer produtores) que era possível criar batalhas estrelares, sabres de luz e estrelas da morte com muito mais precisão e credibilidade.

O que veio depois, com a trilogia A ameaça fantasma, O ataque dos clones e A vingança dos Sith, foi uma consequência. A computação gráfica deu saltos consideráveis e as produções passaram a dispensar atores. Cenários e pessoas tornaram-se desnecessários e Jabas e Chewbacas perderam o encanto. Agora, eles podiam ser multiplicados aos milhares com um único clique. Veio então a era dos Jar-Jar e da distância entre personagens e público. A tecnologia banalizou os personagens, mas não fez isso sozinha. Os roteiros ajudaram bastante ao não investir em construções mais consistentes para a personalidade desses novos coadjuvantes.

Mike Sanders, diretor de produção virtual de O despertar da força, decidiu seguir carreira na área de efeitos especiais quando assistiu a Guerra nas estrelas pela primeira vez. Ele trabalhou para a Industrial Magic and Light, de Geogre Lucas, assim como para a Disney, que comprou a empresa de Lucas, e tem experiência em mais de 80 filmes, incluindo uma lista gorda de blockbusters como Guerra mundial Z, G.I. Joe,Titanic, Atividade Paranormal, Battleship, e todos os Harry Potter, além da trilogia Star wars dos anos 2000. Hoje, funcionário da empresa de games Activision, Sanders tem experiência com computação gráfica na cinematografia do século 21.

Sobre O despertar da força, o técnico em efeitos especiais é vago e não adianta detalhes da história. ;Honestamente, você vai descobrir mais sobre o filme na internet do que com qualquer pessoa que tenha estado próximo às filmagens;, garante. Mas sobre a tecnologia, ele é enfático: ;A fidelidade visual e a complexidade da história aumentaram, mas o principal sempre foi a vontade de escapar para um mundo alternativo e experimentar algo diferente. Filmes são uma extensão visual de outras artes mais antigas, como livros e quadrinhos;.

Em entrevista ao Correio, Sanders lembra que, nos anos 1970 e 1980, quando George Lucas deu início à saga, os efeitos visuais eram construídos analogicamente. Hoje, a tecnologia está banalizada.

>> entrevista Mike Sanders
Qual o papel da tecnologia nos filmes de ficção científica e o quanto esse papel cresceu nos últimos 30 anos?
Desde o início do cinema houve o desejo de empurrar o limite visual para completar a experiência da história. A ficção científica existia através do uso de efeitos técnicos como figurinos, perspectivas forçadas e composição. Essas práticas ajudaram a construir o caminho para a abordagem da computação gráfica. Eu acredito que nossa afinidade com a tecnologia é paralela à nossa aceitação da acuidade visual: quanto mais avançamos, mais desejamos estimulações sensoriais. O enorme orçamento dos filmes hoje em dia pode gerar benefícios e marketing suficientes para pretender um risco criativo e forçar a tecnologia para contar uma história. Nós sempre engavetamos histórias até que a tecnologia fosse capaz de sustentá-las e arquivamos tecnologias de acordo com a necessidade da história ou para que o orçamento se adequasse a um desenvolvimento avançado.

Os filmes mudaram muito desde as técnicas rudimentares usadas para construir ficção científica nos anos 1970 e 1980?
A fidelidade visual e a complexidade da história aumentaram, mas o principal sempre foi o mesmo: escapar para um mundo alternativo e experimentar algo diferente. Filmes são uma extensão visual das artes anteriores dos livros e quadrinhos. Nos anos 1970 e 1980, nós estávamos no analógico, assim como os efeitos. Agora, estamos no digital, temos intervalos de atenção mais curtos e isso requer mais estimulação sensorial e pode suspender a crença na fantasia.

A tecnologia, por ser algo trivial hoje, pode banalizar um personagem?
Há um gênero considerado ;popcorn flick; que alavanca o sensacionalismo dos efeitos especiais. Essa categoria pode ser uma forma efetiva de escapismo e não precisa estar ligada a uma história com moral e ética. No entanto, há muitos filmes de sucesso que alavancam os efeitos visuais hoje, como fizeram os filmes do passado mais relacionados ao local, à cinematografia, ao desenvolvimento de personagens ou ao diálogo. Esses filmes requerem muito planejamento, fonte, dinheiro e colaboração para serem executados ; é muito difícil convergir nessa visão ; não há garantia de sucesso.

Qual o equilíbrio certo entre o uso da tecnologia e a habilidade de contar a história?
Trabalhei em mais de 80 filmes, a maioria relacionada com pesados efeitos especiais, então acredito que a história vem primeiro. Star Wars e Blade Runner foram filmes que me inspiraram, muito jovem, a seguir uma carreira no cinema. Eles me influenciaram no sentido de alavancar a arte e a tecnologia, os lados direito e esquerdo do cérebro, de contribuir com uma influência positiva para o máximo de pessoas possível. Esses filmes utilizaram efeitos especiais para falar de uma história maior, a história do bem contra o mal, do herói, da luta pelo que é certo, especialmente em um nível individual que tenha alguma repercussão. O equilíbrio certo é ter um propósito para a história e ficar colado a ele mais que aos efeitos visuais.

Sobre Star wars, quais foram suas diretrizes para os filmes?
Depois de inovar com atores sintéticos para Titanic, fui recrutado para fazer o mesmo nos episódios das sequências de Star wars. Eu não só trabalhei nos personagens digitais e nas cenas de batalha como antecipei a tecnologia que fundiu a fotografia em miniatura com a computação gráfica de games, o que também resultou no desenvolvimento da visualização em tempo real para o processo criativo. George Lucas foi muito progressista com a visualização da animação em tempo real e esteve diretamente envolvido no processo.

Alguns fãs de Star wars criticam o excesso de personagens n

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