Nas entrelinhas

Nas entrelinhas

Enquanto Cunha fez bem a Dilma, a petista fez bem ao peemedebista. A fragilidade dos dois alimentou as chances deles de se manterem no poder, a partir de um jogo próprio de chantagens e trocas de acusações

por Leonardo Cavalcanti leonardocavalcanti.df@dabr.com.br
postado em 18/12/2015 00:00
Uma relação
de sobrevivência

Simbiose: Interação entre duas espécies que vivem juntas;
associação entre seres vivos na qual ambos são
beneficiados (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).


A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em impedir as manobras do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é uma vitória mais do que cristalina para o governo federal. Dilma Rousseff ganhou um fôlego no julgamento político do impeachment, um dia depois de o Palácio do Planalto parecer ter perdido o jogo com o voto do ministro Luís Edson Fachin, que havia mantido as decisões já tomadas pelo peemedebista. A análise até aqui é óbvia. Se os governistas começaram o dia de ontem surpresos e derrubados, foram dormir entusiasmados com a possibilidade de ter mais chances no Congresso.

Cunha já havia amargado uma derrota ainda na quarta-feira, quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Supremo o afastamento dele do cargo. De certa forma, o peemedebista ganhou tempo com o adiamento do julgamento para depois do carnaval, mas perdeu muito esta semana. E, a partir daqui, o que parece óbvio na política ganhou complexidade, mas nem por isso deixou de ser percebido por observadores mais atentos, inclusive petistas. Com a saída de Cunha da Presidência da Câmara, por vias tortas, Dilma ficará mais exposta. O peemedebista, como se verá aqui, foi necessário para a petista. Explico.

Com o início das denúncias mais efetivas da operação Lava-Jato, o presidente da Câmara perdeu o respeito dos pares ; tirando os fundamentalistas religiosos e a tropa de choque alucinada e cínica do Conselho de Ética. Hoje, é uma espécie de morto-vivo no Congresso, sem apoio parlamentar. Até agora, entretanto, tinha o poder de decisão do processo de impeachment. E, por mais estranho que possa parecer, conseguia dar força à presidente Dilma, afinal, em todo momento, os movimentos do peemedebista eram criticados, por falta de legitimidade. Cunha conhece o regimento interno da Câmara como poucos ; tal coisa ficou clara mais uma vez na noite de ontem, na entrevista coletiva quando ele questiona de forma enfática pontos da decisão do Supremo ;, mas as ações dele eram ridicularizadas, como se fosse um ato de adversário político.

Perdidos
A futura saída de Cunha é ruim para Dilma porque eles têm, ou pelo menos tinham, uma relação simbiótica às avessas, como se retroalimentassem na fragilidade. Enquanto cumprissem o papel, ajudavam um ao outro. Aqui, não faltam exemplos, dessa relação. É só ver o caso das manifestações favoráveis à presidente na quarta-feira. Parte dos manifestantes estava ali também para pedir a saída do peemedebista do cargo. Uma das justificativas do governo e de alguns deputados independentes era de que enquanto Cunha estivesse no comando da Câmara o processo do impeachment estaria prejudicado.

Por mais inimigos que pudessem ser, Cunha fazia bem a Dilma, e vice-versa. Da parte do peemedebista, a impopularidade da presidente o tornava mais útil à parte da oposição que deseja a todo custo a saída da petista. De maneira efetiva, Cunha jogou com a oposição até o minuto final, mostrando que poderia passar para o lado do Planalto, caso não conseguisse apoio no Conselho de Ética. Ao mesmo tempo, fazia jogo parecido com governistas. Apenas decidiu mirar em Dilma quando ficou impossível para o Partido dos Trabalhadores votar a favor do peemedebista no conselho, anunciando o fim do ;acordo;.

As estratégias, tanto de Cunha quanto de Dilma, a partir de agora, deverão ser revistas. A decisão do Supremo de ontem e o pedido de afastamento feito por Rodrigo Janot tendem a anular a relação simbiótica entre os dois. Cada vez mais, eles tomam caminho próprios, sem precisar do enfraquecimento do outro para ganhar sobrevida. Se, da parte de Dilma, o jogo passa a ser dela com a base de apoio na Câmara e no Senado ; sem maiores interferências do peemedebista no rito do processo de impeachment no Congresso ;, Cunha a partir daqui depende do STF e de maquinações para atrasar o processo no Legislativo. As chantagens entre o governo e o parlamentar inevitavelmente devem cessar, por absoluta falta cartas para eventuais negociações. Pelo menos até o carnaval chegar, e um dos lados voltar a vincular a sobrevivência ao outro no plenário.



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