Alta do dólar e tarifaço implodem a meta

Alta do dólar e tarifaço implodem a meta

Alexandre Tombini já tem pronta a carta pública em que vai explicar por que o BC fracassou no controle da inflação. Segundo ele, o IPCA só deverá convergir para o objetivo, de 4,5%, em 2017

» ANTONIO TEMÓTEO » ROSANA HESSEL
postado em 18/12/2015 00:00
 (foto: Eric Piermont/AFP - 24/1/14)
(foto: Eric Piermont/AFP - 24/1/14)



O aumento de 18% no conjunto dos preços administrados, como energia elétrica e combustíveis, e o encarecimento de 30% do dólar serão apontados pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, em carta pública que enviará ao ministro da Fazenda, como os principais motivos que levaram a inflação de 2015 a estourar o teto na meta, de 6,5%. A mediana das projeções do mercado aponta que a carestia terminará o ano em 10,61%, conforme o Boletim Focus. ;Já adiantamos que o grande ajuste de preços relativos fez isso, e não há política monetária que compense choques dessa magnitude;, disse Tombini. Segundo ele, um aumento expressivo da taxa básica de juros (Selic) seria incapaz de conter os efeitos dos reajustes, implicando apenas mais recessão.
Sempre que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ultrapassa o limite de tolerância, o chefe do BC é obrigado a explicar à Fazenda por que não conseguiu cumprir o objetivo, que medidas serão tomadas e quando a inflação vai convergir para a meta, de 4,5%. Na avaliação de Tombini, o aperto da política monetária será importante para desacelerar o custo de vida. Ele prevê uma desinflação significativa no próximo ano, destacando que, pela mediana das expectativas do mercado, o IPCA deve recuar de 3,81 pontos percentuais, caindo para 6,8%.
O presidente do BC estabeleceu 2017 como prazo para que a inflação seja levada para a meta. Para ele, é um horizonte viável, uma vez que as estimativas do mercado para a carestia estão em um nível considerado razoável. ;As expectativas (para inflação entre 2017 e 2019) estão bem comportadas, mas já estiveram melhores;, admitiu.
Desde agosto, quando o governo enviou ao Congresso uma proposta orçamentária com previsão de deficit, as projeções do mercado para a inflação dispararam. Apesar disso, Tombini está confiante de que o BC poderá reverter o processo, o que será importante para proteger a renda real dos trabalhadores e facilitar o planejamento dos gastos das famílias e dos investimentos das empresas.

Rebaixamento


O chefe da autoridade monetária relembrou que 2015 termina com um cenário político conturbado. ;Não é minha praia, mas certamente a complicação política impactou as correções macroeconômicas;, disse. Segundo ele, o país passa por três ajustes: fiscal, monetário e do setor externo, que apresenta os melhores resultados até o momento. O balanço de pagamentos deve terminar o ano com um deficit abaixo de US$ 40 bilhões, refletindo o encarecimento do dólar, que tem aumentado a competitividade dos produtos brasileiros. Pela primeira vez em 10 anos, o setor externo apresentará contribuição líquida positiva para o Produto Interno Bruto (PIB).
Para Tombini, a decisão da agência Fitch de retirar do Brasil o selo de bom pagador, após a Standard & Poor;s ter tomado medida semelhante, em setembro, não foi surpresa e não terá grande impacto sobre os fluxos de capitais que ingressam no país. O BC mantém a previsão de que o Brasil receberá US$ 65 bilhões em investimentos estrangeiros diretos em 2016. Ele disse que o mercado já percebia o país como ;subgrau; de investimento, mas alertou que o governo tem desafios importantes pela frente. ;As coisas não acontecem da noite para o dia. Temos que fazer o nosso dever de casa, completar o ajuste macroeconômico e retomar o crescimento;, disse.
O mercado também reagiu bem ao aumento dos juros pelo Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano avaliou Tombini. Nos últimos meses, observou, o Fed sinalizava que seria cauteloso. ;Os investidores entenderam a mensagem de que o ajuste será gradual, o que ajuda na absorção da mudança;, disse.

Fitch rebaixa Petrobras

A agência de classificação de riscos Fitch retirou ontem o grau de investimento da Petrobras. A nota de crédito da estatal foi rebaixada de BBB- para BB+, com perspectiva negativa, o que indica a possibilidade de um novo corte. A Fitch era a última entre as três grandes casas pela qual a estatal ainda mantinha o selo de bom pagador. A estatal perdeu o grau de investimento pela Standard and Poor;s em setembro, na esteira do rebaixamento do país pela agência. Em fevereiro, por conta dos prejuízos causado pela corrupção revelada pela Operação Lava-Jato, a Moody;s já havia colocado a nota da petroleira no terreno especulativo.

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