Longa jornada noite adentro

Longa jornada noite adentro

PAULO DE TARSO LYRA paulodetarso.df@dabr.com.br
postado em 18/12/2015 00:00

Escrita em 1942, exatos 73 anos atrás, a peça Longa jornada noite adentro, do dramaturgo norte-americano Eugene O;Neill, guarda paralelismo com o momento atual vivido pelo Brasil. Ambientada no ano de 1912, o texto mostra um dia na vida de quatro pessoas da mesma família: um pai (sovina), uma mãe (viciada em heroína), um primogênito, que só quer aproveitar a vida, e um mais novo, que se perde nessa balbúrdia. A angústia que oprime os personagens lembra a estupefação dos brasileiros, misto de anestesia e indignação com os fatos que se amontoam.

Como um país disfuncional, o Brasil passou 2015 arrastando correntes, sem enxergar claridade no breu em que afundou. O ajuste fiscal que deveria ser feito saiu pela metade, o superministro da Fazenda escalado para consertar as contas públicas ficará apenas um ano no cargo e o país perdeu o investiment grade após duas agências de investimento rebaixarem nossa nota de crédito: Standard & Poor;s e Fitch.

Mas foi na política que o fundo do poço se tornou inalcançável e constantemente expandido. Terminamos o ano com a presidente da República sofrendo processo de impeachment por desrespeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal e o presidente da Câmara com o mandato ameaçado pelo Supremo Tribunal Federal e pela Procuradoria-Geral da República por obstruir as investigações da Lava-Jato.

Além disso, temos uma mancheia de empreiteiros presos, um banqueiro que conseguiu, nos acréscimos do ano, livrar-se das grades e um ex-líder do governo que permanecerá ainda um tempo sem poder exercitar o livre direito de ir e vir ; justamente por planejar e propor a fuga para um dos delatores da operação que assusta a nata do poder brasileiro.

Cunha perderá o mandato pelas mãos do STF, algo que não se viu na história recente de nossa democracia? Dilma escapará do impeachment com margem suficiente de votos, mas incapaz de aprovar grandes projetos de governo? Ou sucumbirá e o país vai parar nas mãos do PMDB e seus caciques atolados nas investigações conduzidas por Teori Zavascki, Sérgio Moro e Rodrigo Janot? Mais do que nunca, 2016 será uma longa noite herdada de 2015.

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