A Primavera Árabe se tornou inverno

A Primavera Árabe se tornou inverno

Cinco anos após a onda de levantes populares que derrubou ditaduras em quatro países, apenas a Tunísia construiu a democracia e a estabilidade política. Caos econômico, terrorismo, guerra e regime militar preencheram vácuo de poder

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 18/12/2015 00:00
 (foto: Mokhtar Kahoulib/AFP)
(foto: Mokhtar Kahoulib/AFP)



Diante de um painel com a imagem do ambulante Mohamed Bouazizi, a bandeira da Tunísia foi hasteada ontem e três soldados dispararam uma salva de tiros, na cidade de Sidi Bouzid, 280km ao sul de Túnis. Foi uma homenagem ao vendedor de frutas que ateou fogo ao próprio corpo, em 17 de dezembro de 2010, e motivou uma onda de levantes populares em nações do norte da África e do Oriente Médio. Exatamente cinco anos depois da autoimolação de Bouazizi e do início da Primavera Árabe, apenas a Tunísia deixou-se levar pelos ventos da mudança até o encontro com a democracia ; graças ao trabalho do Quarteto de Diálogo Nacional, laureado este ano com o Nobel da Paz.

Apesar de terem derrubado ditadores, Líbia, Egito e Iêmen fracassaram em gerenciar a transição e se tornaram presas de terroristas, de milicianos ávidos pelo poder e de um regime militar que abusa da mão de ferro para punir opositores. Por sua vez, a tentativa de revolta para depôr Bashar Al-Assad lançou a Síria em uma guerra civil com múltiplos atores de agendas diversas. Jihadistas do Estado Islâmico e de outras facções, combatentes rebeldes e o Exército de Damasco mataram ao menos 250 mil e motivaram um êxodo migratório que colocou a Europa em alerta.

;A Primavera Árabe não foi árabe, mas tunisiana;, afirma por telefone ao Correio, sem esconder o sorriso, Mohammed Fadhel Mahfoudh, presidente da Ordem Nacional dos Advogados da Tunísia, uma das entidades do Quarteto. ;Ela falhou nas outras nações porque aqui existe uma sociedade civil muito forte e poderosa. Temos personalidades (políticas) que tiveram formação em boas escolas;, comenta. De acordo com ele, é impossível comparar a Tunísia de hoje com aquela governada pelo ditador Zine El Abidine Ben Ali. ;Nós somos livres e os direitos humanos são respeitados. Também temos novas instituições. As pessoas podem votar e conversar sobre política.;

Mahfoudh admite a urgência de uma transição econômica. ;Nós recebemos o Nobel por nosso trabalho, o que é ótimo. O prêmio significa que o povo tunisiano é pacífico e que todos os problemas políticos podem ser solucionados por meio da negociação e da paz;, diz. Abdessattar Ben Moussa, presidente da Liga Tunisiana dos Direitos Humanos e também laureado com o Nobel, concorda com Mahfoudh em relação à solidez da sociedade, mas aposta que a Primavera Árabe somente estará concluída na Tunísia depois da conquista da paz por meio da recuperação econômica. ;Nós atualizamos a Constituição, mas enfrentamos problemas econômicos, como a distribuição de renda. Isso tem sustentado o terrorismo. Falta emprego. Quem não trabalha tem a dignidade ameaçada;, lembra à reportagem, também por telefone, de Túnis.

O cientista social tunisiano Noomane Raboudi, doutor em estudos árabes, considera ;um milagre; a transição democrática na Tunísia. Na opinião dele, o problema foi que os Estados dos outros países não expressaram o desejo simultâneo de se livrar da ditadura e gozam de exércitos fortes e politizados. ;A Primavera Árabe foi, e ainda é, um grito do fundo do coração árabe de que a população merece viver a liberdade em paz e com dignidade.;

Líbia
Se a Tunísia conta com um presidente eleito, Béji Caid Essebsi, e com poderes independentes, a Líbia foi lançada ao limbo após o linchamento de Muamar Kadafi. Moradora de Ras-lanuf, um vilarejo para funcionários de oleodutos, a 600km de Trípoli, Noura A. Eljerbi descreveu ao Correio um cenário de horror. ;Por aqui, você vê pessoas armadas em todos os lugares e não sabe se são milicianos, integrantes do Exército ou terroristas.; Segundo ela, a Líbia carece de serviços básicos para a manutenção da vida. ;A energia costuma ser cortada por horas e o gás é escasso. Escutamos bombardeios o tempo todo. A maior parte dos moradores de Benghazi perdeu suas casas e vive em áreas públicas. Falta dinheiro. É uma catástrofe;, lamenta. Com dois parlamentos e dois governos, o país assinou um acordo para a união nacional. No Egito, a deposição de Hosni Mubarak deu lugar a um golpe militar que derrubou o presidente eleito Mohamed Morsy. O Conselho Supremo das Forças Armadas julgou inimigos e condenou muitos deles à pena de morte e à prisão perpétua.

Grant Rumley, especialista da Foundation for Defense of Democracy (em Nova York), explica que a Primavera Árabe fracassou no instante em que governos e exércitos se recusaram à mínima mudança. ;A resistência encorajou os autocratas árabes e entrincheirou os manifestantes, até que violência explodiu. A Primavera foi uma demonstração do choque de ideologias sobre a governança. O povo pode desejar representação política e democracia robusta, mas os autocratas e comandantes militares é que detêm o poder;, afirma.

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