A travessia

A travessia

CARLOS ALEXANDRE carlosalexandre.df@dabr.com.br
postado em 22/12/2015 00:00


Tornou-se frequente, entre governistas, o uso da expressão de que ;o país está passando por uma travessia; para justificar as dificuldades decorrentes da grave crise política e econômica. A metáfora de esperança sugere que, apesar dos solavancos e marés contrárias, a nação brasileira conhecerá dias melhores. Joaquim Levy, que deixou o Ministério da Fazenda na última sexta-feira após ter o trabalho aniquilado pelas forças predominantes no governo de Dilma Rousseff, gostava de usar outra analogia. Enquanto tentava vender alguma credibilidade deste governo atolado em baixa popularidade há meses, ele dizia que o Brasil precisava construir ;pontes;. A CPMF seria uma ponte para garantir o equilíbrio fiscal, o ajuste fiscal seria a ponte para a economia reencontrar o prumo e sair das águas traiçoeiras da recessão.
A ponte de Joaquim Levy ruiu. Caiu por terra o discurso de que o governo promoverá um tratamento substancioso nas contas públicas, condição sine qua non para reduzir a inflação galopante. As medidas defendidas pelo ex-ministro foram consideradas excessivamente amargas, sobretudo aos ditames petistas de manter um Estado hiperinflado, de conceder crédito a fim de estimular o consumo, de tratar meta fiscal como mera formalidade a ser dispensada em acordo com o Congresso. O novo titular da Fazenda, vencedor da queda de braço com o antecessor, afirmou que o compromisso fiscal está firme, mas não criará dificuldades para acomodar as demandas da ala petista, especialmente aquela preocupada com as eleições do próximo ano. No momento, para os governistas, há um operador confiável na casa de máquinas. Resta saber se ele terá habilidade para superar o cenário econômico que o aguarda.
Enquanto isso, a comandante Dilma Rousseff utiliza todas as armas disponíveis para evitar o naufrágio. O julgamento do Supremo sobre o rito do impeachment estabeleceu os parâmetros a serem adotados pelos deputados e a conduta do Senado no processo. Em um ambiente no qual se observa o notório fracasso da política, reduzida à refrega partidária e aos desdobramentos da Operação Lava-Jato, a judicialização tornou-se a âncora a sustentar a ordem em Brasília. É possível que, em fevereiro, com Eduardo Cunha em situação delicadíssima, o governo encontre um ambiente mais propício para dissipar as correntes pelo impedimento da presidente. Mas não seria surpresa se os ventos austrais de Curitiba desestabilizassem o clima no Planalto Central. Em suma, entraremos em 2016 com a incerteza no timão.

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