Mercosul pressiona o governo Maduro

Mercosul pressiona o governo Maduro

Chefes de Estado e representantes reunidos durante a cúpula do bloco, em Assunção, instaram a Venezuela a assinar protocolo sobre direitos humanos. Líder argentino pediu libertação de presos políticos e bateu boca com a chanceler de Caracas

postado em 22/12/2015 00:00
 (foto: Norberto Duarte/AFP)
(foto: Norberto Duarte/AFP)






Os representantes dos países-membros do Mercosul encerraram ontem a última cúpula do ano, em Assunção, marcada pela tensão que envolve a situação dos direitos humanos na Venezuela. A reunião terminou com a divulgação de um comunicado que pressiona os Estados a aderirem, ;o mais rápido possível;, ao Protocolo de Assunção sobre o Compromisso com a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos. Incorporada ao bloco em 2012, a Venezuela é o único membro cuja adesão ao documento ainda está pendente. O país foi representado pela chanceler Delcy Rodríguez ; o presidente Nicolás Maduro anunciou, de última hora, que não viajaria à capital do Paraguai. Rodríguez e o recém-empossado presidente da Argentina, Mauricio Macri, travaram um bate-boca durante a cúpula e evitaram o tradicional aperto de mãos antes da fotografia oficial do evento.


Em seu primeiro discurso no bloco, Macri pediu ;a libertação imediata de presos políticos; venezuelanos. ;Nos Estados-membros do Mercosul não pode haver lugar para a perseguição política por razões ideológicas nem a privação ilegítima da liberdade por pensar diferente;, declarou o argentino. A ministra venezuelana acusou o líder argentino de ingerência em assuntos internos de seu país. Ela também acusou Macri de defender ;terroristas; que ;incendiaram institutos públicos; e ;atentaram contra o acesso de venezuelanos à alimentação e à educação;.


;Eu entendo que o presidente Macri queira pedir a libertação desses violentos (em referência aos presos políticos). Entendo porque sei que uma de suas primeiras medidas de governo foi libertar os responsáveis por torturas, desaparições e assassinatos durante a ditadura argentina;, declarou a chanceler. A acusação, no entanto, não é correta.


Ao todo, 75 dirigentes políticos da oposição e estudantes estão detidos na Venezuela. Entre eles, o líder da ala radical anti-chavismo, Leopoldo López, condenado a 14 anos de reclusão em um julgamento amplamente questionado por organizações de direitos humanos. Nas eleições do começo deste mês, a oposição conquistou ampla maioria no Legislativo e prometeu aprovar anistia aos considerados presos políticos.


O comunicado da cúpula excluiu uma proposta do Paraguai ; que entregou ontem a presidência temporária ao Uruguai ; de criar uma comissão especial para monitorar a situação venezuelana. A Argentina apoiou a iniciativa, mas ela acabou sendo retirada do texto final por falta de consenso. As delegações que participaram da cúpula especularam sobre o motivo que fez o presidente Maduro desistir do evento, destacando a impressão de que ele teria enviado a chanceler para evitar críticas diretas dos sócios.

Impeachment

A presidente brasileira, Dilma Rousseff, que fez uma rápida viagem a Assunção, evitou pressionar o governo da Venezuela diretamente e elogiou o processo eleitoral na vizinhança. ;Dois exemplos recentes mostram a nossa maturidade democrática, as eleições na Argentina e na Venezuela;, disse a presidente. Após dar as boas-vindas a Macri, ela felicitou ;o presidente Maduro e o povo venezuelano pelo espírito democrático que marcou as eleições;, deixando clara a posição contrária àquela defendida pelo argentino.


O processo de impeachment contra Dilma, apoiado por alguns setores da política de Brasília, também foi abordado durante o encontro. Os sócios do bloco aproveitaram o momento para prestar solidariedade à brasileira. O presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, do partido de esquerda Frente Ampla, disse que Dilma governa com ;integridade; e completou afirmando: ;Estamos com você, companheira;. Delcy Rodríguez destacou que os venezuelanos estão ;solidários pelo assédio sofrido por Dilma; e repassou ;saudações carinhosas do presidente Maduro;. No último sábado, o boliviano Evo Morales comparou a situação da presidente com a enfrentada pelo paraguaio Fernando Lugo, deposto em 2012. Segundo Morales, ;um golpe de Estado parlamentar; está sendo preparado no Brasil.


Macri, o primeiro presidente a discursar, disse que sua visão sobre democracia ;vai muito além de ir às urnas a cada certa quantidade de tempo;. Ele completou sua declaração defendendo que ;a democracia é uma forma de vida e um pacto de convivência entre pessoas que pensam diferente;.






Os pontos da declaração

Os principais assuntos abordados pelos países-membros do Mercosul, durante a cúpula na capital do Paraguai


Direitos humanos
; A integração, o desenvolvimento, a consolidação da democracia, o respeito às liberdades fundamentais e aos direitos humanos foram destacados na resolução final. Os membros comemoraram 10 anos da adoção do Protocolo de Assunção sobre o Compromisso com a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos e pediram a aceleração da adesão a esse e a outros instrumentos jurídicos do bloco ;o mais breve possível;.

Argentina e Venezuela
; O bloco parabenizou a Argentina pela conclusão do processo eleitoral e saudou o presidente Mauricio Macri, ao mesmo tempo em que comemorou ;a jornada eleitoral com alto índice de participação; na Venezuela, que no começo do mês realizou eleições regionais.

Síria
; Os membros expressaram preocupação com o ;prolongado sofrimento do povo sírio;, devido à guerra civil de quase cinco anos. Eles destacaram a necessidade de um ;processo político inclusivo; e ;comandado; pela Síria, a fim de que a crise seja contida.

Refúgio
; Os representantes também reconheceram a importância de se implementar mecanismos que facilitem o apoio e o reconhecimento de refugiados que buscam ajuda na região.

Jogos Olímpicos
; Segundo o Mercosul, as Olimpíadas de 2016 são ;um importante fator de inclusão social, de desenvolvimento e de combate a todo tipo de discriminação;.







Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação