Cidades contra o fluxo

Cidades contra o fluxo

A falta de infraestrutura urbana nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, compromete um dos pilares da velhice sadia: a interação social

ISABELA DE OLIVEIRA
postado em 22/12/2015 00:00
 (foto: Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press)

Nações idosas enriqueceram antes de envelhecer. Puderam, com folga, preparar o terreno a fim de receber a população mais longeva. A França demorou 115 anos para atingir 14% de indivíduos com mais de 60 anos, enquanto Suécia e Estados Unidos tiveram 85 e 69 anos, respectivamente. Países em desenvolvimento, contudo, passarão pela mesma transformação em menos tempo, muito antes de alcançarem a riqueza econômica que facilitaria as adaptações estruturais. Para se ter uma ideia da velocidade com que os emergentes envelhecerão, a China alcançará a mesma quantidade de idosos em apenas 26 anos, ao passo que o Brasil em 21 ; hoje, os idosos representam 12,5% dos brasileiros. O descompasso representa um golpe na coluna vertebral das cidades em ascensão, que, deficientes em infraestrutura urbana adaptada, colocam em xeque a qualidade de vida oferecida aos moradores mais velhos.


A infraestrutura urbana tem papel central no envelhecimento ativo. De tão relevante para a saúde física e mental dos indivíduos, a questão foi abordada no Guia global: cidade amiga do idoso, publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2007. O espaço ideal, prega o texto, estimula o envelhecimento ativo oferecendo oportunidades para que pessoas de idades e capacidades variadas participem da vida social com saúde e segurança. O que se busca, basicamente, é a inclusão. Não havia urgência em discutir esse aspecto do envelhecimento no início do último século, tempo em que cidades não reuniam tantos moradores, especialmente idosos.


Antes de o século 21 completar uma década, metade da população global já habitava áreas urbanas. A quantidade de megacidades ; aquelas com pelo menos 10 milhões de habitantes ; aumentou 10 vezes, saindo de duas para 20 no decorrer dos anos de 1900. Em 2005, esses centros urbanos respondiam por 9% de toda a população urbana do mundo. Segundo a OMS, 80% das megalópoles têm proporção de idosos semelhante à de residentes jovens. E as projeções são de que, nos países desenvolvidos, os mais vividos tenham representatividade maior. A incidência deve aumentar 16 vezes, saindo de 56 milhões em 1998 para 908 milhões em 2050. Nesse cenário, os indivíduos com pelo menos 60 anos representariam um quarto da população urbana das economias emergentes.

Ajustes primordiais
A OMS destaca oito domínios que devem ser continuamente ajustados para que o crescimento urbano acompanhe a transição etária da população: espaços e prédios abertos, transporte, moradia, participação social, respeito e inclusão social, participação cívica e emprego, comunicação e informação, além de apoio comunitário e serviços de saúde. Somente uma cidade brasileira, Porto Alegre, tem o certificado de Amiga do Idoso. Ela é a terceira da América Latina a conquistar o título emitido pela agência das Nações Unidas, depois de La Plata, na Argentina, e Victoria, no Chile.


Os domínios foram elaborados após a OMS investigar o que 1,5 mil idosos de 22 países indicavam como aspectos positivos e negativos das cidades em que residem. Ao pensar no guia, a agência levou em consideração a heterogeneidade desse grupo etário, formado por idosos em excelente forma física e outros que acabaram sucumbindo à senilidade. Geriatra do Hospital Santa Lúcia, Tatiana Cristina Peron, 33 anos, diz que essa população pode ser dividida em dois grupos.


;O primeiro é o dos que são autônomos cognitivamente e independentes fisicamente. Essas pessoas que tiveram um envelhecimento saudável são dignas de nota, pois mantêm ativo o seu papel na sociedade. Muitas trabalham e são engajadas, inclusive em atividades de chefia, pela vasta experiência adquirida;, detalha. ;E existe um outro grupo que evoluiu para a senilidade com doenças. A maior longevidade faz com que eles sobrevivam, mas também que acumulem doenças;, complementa a também membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.


Luiz Henrique Cardone, arquiteto e urbanista, está no grupo dos ;aprovados;. Aos 63 anos, em forma e saudável, ele não necessita de adaptações urbanas para transitar pela cidade. O que não significa que seja indiferente às falhas na infraestrutura que dificultam a convivência e a locomoção de quem tem necessidades especiais. Ele aponta árvores e postes no meio das calçadas, impedindo a locomoção de pessoas em cadeiras de rodas, e atribui o descaso à cultura do brasileiro. ;A educação do próprio povo, das pessoas, tem influência grande nessa questão. Cada um pensa em si, só no seu. Não sou desrespeitado diretamente por ter mais idade, até porque não tenho nenhuma necessidade especial, mas a gente sabe que existem problemas, sim;, diz.


Cardone acrescenta que o transporte coletivo na capital federal é um problema, especialmente para quem vive em regiões mais afastadas do Plano Piloto. ;O jeito é sair de carro. Quando completei 60 anos, fui ao Detran pegar meu papel de estacionamento, mas não é tão bom quanto imaginei. Existem poucas vagas exclusivas. Ou estão ocupadas por outros idosos ou por pessoas jovens que pegam a autorização do pai. Ainda há os que se acham mais espertos e estacionam lá;, reclama.


O arquiteto acredita que, no futuro, será preciso rever a norma ; hoje, a cada 100 vagas, cinco precisam ser reservadas para idosos e duas para deficientes. ;A população está envelhecendo com saúde e, por isso, existirão muitos motoristas com mais de 60 anos. E aí, como vai ficar?;, questiona.

Medo de caminhar
A geriatra Tatiana Peron concorda que as cidades não são acolhedoras. ;Não há como transitar com andador, o que tira a coragem e o estímulo para um idoso com limitação física, mesmo que leve, de sair de casa. Com a cadeira de rodas também: a guia rebaixada para a pessoas subir não é respeitada pelos carros, que estacionam a bloqueando;, ilustra, acrescentando a dificuldade de andar de ônibus devido ao desequilíbrio e à fraqueza muscular. O balançar dos veículos, as calçadas malcuidadas e as residências sem adaptação, acrescenta a especialista, favorecem às quedas.
;Essas situações geram gastos, além do medo de caminhar, chamado de ptofobia, limitando a vida do idoso. As implicações vão de perda de confiança, passando pelo retraimento social e pela mudança para casas de repouso até as fraturas. Além disso, as complicações das quedas são a principal causa de morte por trauma nos idosos;, alerta. Segundo a geriatra, um ano após um idoso sofrer uma fratura de fêmur, a mortalidade varia entre 20% e 30%. O Sistema Único de Saúde gasta mais de R$ 50 milhões com vítimas de queda e R$ 24,77 milhões com medicamentos para t

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