Máquinas do tempo

Máquinas do tempo

O contato com tecnologias como câmeras fotográficas analógicas e tocadores de vinil produz nos usuários uma experiência emotiva que remete a épocas passadas

postado em 14/01/2016 00:00
 (foto: Jhonatan Vieira/Esp.CB/D.A Press)
(foto: Jhonatan Vieira/Esp.CB/D.A Press)




Na opinião do produtor de discos Severino Santos, o som do vinil não é melhor do que o de um arquivo digital. Mas o bolachão oferece algo especial: ;É o fato de ser analógico, de ter o chiadinho;, enfatiza Santos, que vê no formato a possibilidade de experimentar a música de outra maneira. ;É como sentar para ler um livro com calma. Você desacelera e escuta um álbum na vitrola.; A arquiteta e fotógrafa Isabela Gomes tem uma relação semelhante com o analógico na hora de capturar imagens. ;Quando você tem o número limitado de 36 fotos (quantidade de exposições possíveis em um rolo de filme fotográfico), acaba valorizando isso de um jeito incrível. Você para, pensa no que está fotografando, fotometra e, por fim, clica.;
Em meio à produção cada vez mais acelerada e sedutora de produtos digitais, compactos e com as mais diversas funções, Santos e Isabela compartilham o gosto por tecnologias de outras eras. Sejam toca-discos ou máquinas fotográficas, o que esses equipamentos proporcionam é a experiência de uma época passada, que, muitas vezes, nem chegou a ser vivida pelos atuais apreciadores desses objetos. Trata-se, portanto, de uma relação emotiva com os aparelhos. ;Existe uma área chamada design emoção, que usa o simbólico, o resgate de um produto que nossos avós usavam e que está intimamente ligado ao emocional;, analisa a coordenadora do curso de design da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Gabriela Zubaran de Azevedo Pizzato. ;É o prazer em usar um produto que lembra ou remete ao passado. O diferencial retrô puxa isso, ele dá esse prazer;, completa.
Enquanto puxa da estante discos compactos da sua infância, como um azul com a trilha sonora do primeiro filme de Branca de Neve, da década de 1950, Severino Santos, 40 anos, fica saudoso: ;Escutava na vitrola da casa da minha avó e, às vezes, corria assustado, com medo da história;, conta. Mesmo com as coleções herdadas, o produtor buscou aumentar o acervo para descobrir artistas mais antigos. ;Na transição para o CD, nem todos eram lançados. Era caro. Tinha muita coisa para conhecer e que só estava no vinil;, diz Santos, que não descarta escutar álbuns pela internet quando está entre os amigos. O produtor, no entanto, frisa a predileção: ;Os meus preferidos coloco na vitrola;.

A e B

Os bolachões de resina plástica ; chamada de policloreto de vinila, ou PVC ; foram febre em meados da década de 1970 e 1980, acompanhados pelos toca-discos. As músicas são gravadas nas bolachas por meio de uma prensa contendo um disco de metal, no qual as faixas de música foram riscadas por impulsos elétricos e se encontram em alto-relevo. Essas faixas criam ranhuras no vinil, que, por sua vez, geram na agulha uma vibração que é amplificada nas caixas de som. Também conhecidos por long-plays (LPs), por terem maior tempo de reprodução de áudio do que os discos menores, são gravados dos dois lados, dividindo o álbum em A e B.
A chegada do CD, nos anos 1990, parecia condenar o vinil ao esquecimento. O formato digital prometia mais tempo de música ininterrupta, menos chiados e nenhuma preocupação com a qualidade da agulha, que podia quebrar ou danificar o disco (hoje, o preço de uma varia de R$ 100 a R$ 500). O vinil, porém, nunca deixou de ter seus admiradores, e, a partir dos anos 2000, voltou a ser bastante procurado pelos apreciadores de música. Primeiro, os fãs foram atrás das coleções antigas, vendidas em sebos, mas logo o mercado percebeu o interesse e se mexeu. Hoje, não há um artista grande que não lance os novos trabalhos no formato.

Sem imediatismo

Saindo do mundo dos sons e entrando no das imagens, as máquinas fotográficas analógicas também parecem resistir. O que cativou Isabela Gomes, 25 anos, nesses equipamentos foi a expectativa por descobrir o que seria revelado no filme plástico, embebido numa emulsão de sais de prata sensíveis à luz. ;É outro tempo de fotografia. Você nunca sabe muito bem o que pode sair dali. Depende de muitos fatores: a câmera que você usa, o filme, a lente. São coisas que cortam o imediatismo que nós temos com tudo na vida;, avalia.
Aos 16 anos, a moradora da Asa Norte começou a experimentar o universo das antigas máquinas com uma Lomo, câmera analógica de baixo custo que virou febre após ser relançada em 2010. A paixão pelos instantâneos fez Isabela trancar a graduação em arquitetura e urbanismo na Universidade de Brasília (UnB) e se transferir para o Rio de Janeiro, onde a brasiliense aprimorou a técnica atrás das lentes. ;Tranquei o curso e fui morar no Rio. Lá, fiz um curso de fotografia no Senac e trabalhei com a digital e a analógica. Eles tinham um laboratório incrível, eu passava a maior parte do meu tempo ali, revelando. No Rio, tinha também a única loja da Lomo no Brasil até então, que era em Ipanema. Eu ia direto lá, pois eles faziam muitos workshops;, conta.

Ao voltar para Brasília, Isabela ajudou a criar o grupo Lomo-Rolê, iniciativa que juntava pessoas para fotografar a cidade com câmeras que eram emprestadas a quem se interessasse por fotografia analógica. ;Lomo é muito isso, de você estar em grupo, trocar experiências, experimentar;, diz a fotógrafa, que participou do projeto por três anos. Para quem se interessou por esse olhar das antigas, a lomógrafa, como são chamados os fãs da marca, sugere alguns conselhos: ;Uma dica para quem está começando é: pegue uma câmera simples, como a Lomo. Ela é muito fácil de entender e fácil de se habituar. Fotografia é exercício, é necessário que você pratique. É bom também que você leia bastante, para entender os ISOs das câmeras, como cada luz se comporta com cada filme;.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação