Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 14/01/2016 00:00
Amores do Braga

;As belas mulheres são desgraças que humildemente abençoo;, escreveu Rubem Braga. Em depoimento para os cadernos de literatura brasileira do Instituto Moreira Salles, Danuza Leão, uma das musas de Braga nos tempos de esplendor físico, conta que, para ele, talvez a beleza fosse mais fundamental do que para o amigo Vinicius de Moraes. Mas se Vinicius armava-se de um rico, múltiplo e imaginoso repertório de cantadas, como conquistar uma mulher se você é um bicho do mato chamado Rubem Braga?

Com uma estratégia de bicho do mato, deixa entrever Danuza no já referido depoimento: ;Nunca vi Rubem namorando ;firme;, como se dizia, ou saindo com uma moça, só os dois, para ;paquerar;. Ele ficava quieto, olhando fixamente para aquela por quem no momento estava apaixonado, perdido em seus pensamentos. Se alguém falasse com ele, levava quase um susto, como se tivesse sido acordado, saindo de um sonho. Acho que era isso: ele estava sonhando;.

Em suma, o que Braga fazia era só olhar. E precisava mais?, indaga Danuza: ;Imagino que seus amores tenham sido sempre assim, e que as mulheres caíam em seus braços devido apenas a esse olhar que não fazia nenhuma cerimônia, estivesse em grupo, estivesse a dama em questão com o marido ao lado;.

Braga escreveu lindas crônicas sobre as iluminações, os êxtases, a memória, os encontros, os desencontros, as aflições do amor. O seu olhar para o corpo das amadas é de extrema e talvez inatual delicadeza viril: ;Ao crepúsculo a mulher bela estava quieta, e me detive a examinar sua cabeça com a atenção e o extremado carinho de quem fixa uma flor. (;) Era tão linda assim, entardecendo, que me perguntei se estávamos preparados, nós, os rudes homens destes tempos, para testemunhar a sua fugaz presença sobre a terra;.

Sempre fez menção a uma misteriosa Pierina e, certa vez, jurou que ela existia, habitava o andar debaixo de um prédio onde morou e ele teria acertado um aviaozinho de papel com uma mensagem de amor precisamente nos seios da beldade como se fosse um cupido de muita sorte: ;Sou, na verdade, um precursor sentimental dos mísseis teleguiados; e os seios de Pierina eram para mim remotos e divinos como a Lua;.

Em outro texto, ele evoca a experiência de dois amantes que se trancam em casa e se recusam a atender qualquer chamado dos inimigos, quer dizer, do restante do mundo: ;Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro; inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento, lento bailado;.

Ao saber que Zora Seljan, sua única esposa, havia se casado novamente com o escritor Antônio Olinto, Braga comentou: ;Melhorou de marido, mas piorou de estilo;. Em contrapartida, a cantada mais cínica de Braga foi a que passou na musa Tônia Carrero, à época, casada e ostentando o fulgor da condição de deusa em carne e osso: ;Tenho muita amizade pelo seu joelho esquerdo;.





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