Um autor de língua brasileira

Um autor de língua brasileira

Obra de Mario de Andrade entra em domínio público a partir deste mês e pesquisador da USP prepara antologia de contos que será lançada em fevereiro

» Vanessa Aquino
postado em 14/01/2016 00:00







Ano começa com uma novidade especial na literatura brasileira. A obra do modernista Mario de Andrade entrou em domínio público no primeiro dia de janeiro. O autor de Macunaíma e Paulicéia desvairada, conhecido pelas pesquisas sobre linguagem e cultura popular, terá parte de seus contos publicados na antologia Briga das pastoras e Outras histórias ; Mario de Andrade e a busca do popular, assinada pelo professor e pesquisador Ivan Marques.

Segundo ele, a ideia de fazer a antologia surgiu com a necessidade de apresentar a questão central da obra de Mario de Andrade e do modernismo brasileiro, que é a relação com o povo e com a cultura popular. O autor viveu 52 anos e foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, além de um grande apaixonado pelo estudo da linguagem. No ano passado, Mario de Andrade foi o homenageado na Festa Literária de Paraty e diversos livros foram lançados na ocasião pela editora Nova Fronteira, entre eles o romance inédito Café.

Durante o evento, que ocorre, anualmente, no litoral do Rio de Janeiro, o intelectual nascido na Rua Aurora, na capital paulista, foi tema de debates que discutiram especialmente o papel dele no modernismo. ;Na Flip, a crítica argentina Beatriz Sarlo esteve na mesa de abertura em homenagem ao Mario, e eu me recordo de ela ter dito que uma diferença importante entre o modernismo brasileiro e o modernismo argentino, por exemplo, tem a ver com essa pesquisa da cultura popular feita pelos modernistas, sobretudo pelo Mario de Andrade;, lembra Ivan Marques.

Língua do Brasil
Antes de ser um nome importante da pesquisa do folclore brasileiro, Mario de Andrade se interessava pela cultura popular desde o começo do movimento modernista. Na época, o que ele dizia é que a pesquisa da cultura popular levantaria material para os artistas fazerem uma arte brasileira.

;Para ele, foi muito importante a criação de uma língua literária, que ele queria também basear na pesquisa da fala rústica, não simplesmente para reproduzir um modo como o povo fala, mas tentar estilizar, criar uma língua literária a partir dessas referências. Então, não é que seja um coloquial, puro e simplesmente. Ele dizia que a linguagem dele era muito pessoal, baseada na minha pesquisa da língua brasileira. É a língua do Mário, não é a língua que o povo falava;, explica Marques.

A antologia organizada pelo pesquisador traça, então, um ponto que liga as narrativas de Mario de Andrade às questões que envolvem o modernismo com o povo. ;Reli todos os livros de contos do Mario de Andrade, também O turista aprendiz, no qual ele relata as viagens que fez para o Norte e para o Nordeste. O que acabei vendo é que esse material é muito importante mesmo na obra do Mario e ele tem duas vertentes. Tem o lado do folclorista, que pesquisa o folclore e a cultura popular brasileira, especialmente no Norte e no Nordeste. E tem o lado do escritor, que está querendo fazer uma literatura brasileira, moderna, e sabe que o povo não pode ser excluído. Então, a ideia da antologia é apresentar essas pesquisas do Mario, essas narrativas que giram em torno da cultura popular e do povo e mostrar como essa questão foi importante para ele.;

O recorte temático do livro de Ivan é baseado na junção de duas pontas da cultura popular que Mario de Andrade pesquisou e que também foi parar na literatura. ;Há também a questão que não tem nada a ver com folclore, mas que traz o povo como assunto ou, se a gente quiser, até como personagem. Essa é uma grande questão da literatura brasileira, especialmente a partir do modernismo: como levar essa outra classe diferente culturalmente dos escritores, como levar o povo para a literatura. O Mario tratou essa questão quase como uma questão de vida ou morte;, explica o pesquisador.

Mario de Andrade tinha um projeto inacabado, conhecido como Gramatiquinha da fala ; pesquisa importante que realizou sobre fontes folclóricas enquanto escrevia Macunaíma.Do acordo com Ivan, o modernista cultivava quase uma utopia de que a nossa fala, nossa língua brasileira, seria diferenciada em relação à língua portuguesa de Portugal e poderia ter uma gramática, mas ele acabou desistindo do projeto.

;O modernismo é muito conhecido pela relação com a vanguarda. Os artistas pensavam em termos de cosmopolitismo. A arte brasileira, para ser atualizada, tinha que dialogar com outros centros produtores de arte no mundo. Para Mario de Andrade, especificamente, o cosmopolitismo parecia descaracterizar a cultura brasileira e o modernismo brasileiro também. Então, era preciso buscar fontes que estivessem na própria cultura brasileira, na brasilidade etc.;, diz Ivan.

Mario de Andrade tinha parentes em Araraquara e passava temporadas na fazenda. Foi lá, inclusive, onde ele escreveu a primeira versão de Macunaíma. Em várias histórias do modernista, o universo caipira é abordado. Ele acreditava que a influência externa na cidade era muito grande, mas no interior a alma nacional estaria mais preservada, mais pura.

O poeta e o teórico
Muitos críticos dizem que o papel de Mario de Andrade era de líder teórico do modernismo e ele não teria sido um bom poeta. Há quem diga que Carlos Drummond de Andrade era muito melhor poeta que Mario, mas é conhecida a influência dele em relação a Drummond. No livro A lição do amigo, por exemplo, cartas revelam amizade entre os dois autores e apresentam conversas sobre a natureza da poesia e sobre o que representava ser artista no Brasil.

;Então, existe essa ideia de que ele foi muito mais um intelectual que coordenou um movimento artístico-cultural, do que propriamente um criador importante de poesia e de ficção. Nunca concordei com isso, acho que a obra literária do Mario é um dos tesouros que a gente tem na literatura brasileira. Acho que Macunaíma é um dos maiores romances que a gente tem. A poesia dele também é uma poesia muito interessante;, conclui Ivan Marques.

www.correiobraziliense.com.br
Leia entrevista completa com Ivan Marques
Confira galeria com fotos da expedição
de Mario de Andrade pelo Brasil

Livros lançados e relançados em 2015
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter
De Mario de Andrade. Nova Fronteira, 240 páginas. R$ 49,90

O melhor de Mario de Andrade: contos e crônicas
De Mario de Andrade. Nova Fronteira, 278 páginas. R$ 29,90

Café
De Mario de Andrade.
Nova Fronteira, 264 páginas. R$ 34,90

A lição do amigo: cartas de Mario de Andrade a Carlos Drummond de Andrade
De Carlos Drummond de Andrade; 437 páginas, Companhia das letras. R$ 49,90

O turista aprendiz
De Mario de Andrade.
Ieb-Usp e Iphan. R$ 50.


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