Temer, o conselheiro

Temer, o conselheiro

Na primeira reunião a sós com a presidente, o vice sugere a Dilma "ouvir mais do que falar" e a aconselha a dar uma atenção especial às demandas do empresariado

Naira Trindade
postado em 21/01/2016 00:00
 (foto: Evaristo Sá/AFP - 9/12/15)
(foto: Evaristo Sá/AFP - 9/12/15)
Escanteado das articulações do governo, o vice-presidente Michel Temer aproveitou a primeira reunião do ano com a presidente Dilma Rousseff, ontem, no Palácio do Planalto para aconselhá-la a mudar a postura adotada até o momento e passar a ;ouvir mais do que falar; nas próximas ações do Executivo. Em mais de uma hora de conversa, os dois tentaram transparecer uma imagem de que a relação está melhor que ;institucional e profícua;, falaram sobre a atual crise, planos econômicos, viagens e até sugestões de literatura.

O relógio do terceiro andar do Planalto marcava 10h14, quando Dilma recebeu Temer, pela primeira vez este ano, no gabinete dela. Desde a carta-desabafo escrita por ele, em dezembro, alegando estar isolado das ações do governo, a relação dos dois ; que já se limitava ao institucional ; ficou estremecida. A última vez que se falaram por telefone foi 14 dias atrás, no nascimento de Guilherme, o neto caçula da presidente, quando Temer ligou para cumprimentá-la. Antes disso, haviam se encontrado em 9 de dezembro, dois dias após o vazamento da carta, quando vieram a público afirmar que a relação seria ;profícua;.

Dilma e Temer dialogaram a sós nos primeiros 16 minutos da reunião. Em seguida, juntou-se a eles o ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini. Dois minutos depois, chegou o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner. Enquanto estavam sozinhos, Dilma falou sobre a reativação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, formado por empresários, advogados e sociedade civil. Temer se colocou à disposição para ajudá-la ouvindo o empresariado. Ele a aconselhou a escutar mais as demandas dos setores.

A orientação do vice no Conselhão lembra a atitude adotada no passado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Interlocutores contam que ele ouvia e anotava as reivindicações. Depois, chamava cada setor para tentar atender aos pedidos. Temer também sugeriu a presidente a ser uma ;servidora da nação;. E, apesar de ter se colocado à disposição dela para atuar no Conselhão, Temer não estará presente no discurso de inauguração na quinta-feira da semana que vem.

Candidato à reeleição à presidência do PMDB, Temer vai percorrer os estados do Paraná, de Santa Catarina e da Paraíba. As viagens estão confirmadas há uma semana e ainda não há manifestação de alteração delas. Na conversa, ontem, Temer aproveitou para informar Dilma de um convite que recebera do vice-presidente americano, Joe Biden, para ir aos Estados Unidos. Na carta à petista, o peemedebista reclamou de não ter sido convidado para uma conversa entre Dilma e Biden, no dia da posse no ano passado, alegando ter ;significado absoluta falta de confiança;.

Literatura
Na reunião, o vice também mencionou a Dilma o uso de algumas ideias do documento Ponte para o futuro, com propostas do PMDB para o país. Esse também era um ponto criticado pelo vice na carta enviada à petista em dezembro. ;Até o programa Uma Ponte para o Futuro, aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal;, desabafou Temer, na carta. À cobrança, ele teria ouvido de Dilma que o texto será usado pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

O relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado na terça-feira e que prevê uma intensificação na recessão no Brasil, também foi um dos temas discutidos. Eles reiteraram que a crise é global, e os problemas se repetem no mundo inteiro. Segundo interlocutores, Dilma vê a situação comum com outras nações como um ponto positivo para recuperar a economia do país.

Numa conversa classificada como tranquila e afável, os mandatários se descontraíram com sugestões de literatura. O peemedebista sugeriu à presidente a leitura do novo romance de Umberto Eco, Número zero. O livro traz discussões sobre o futuro do jornalismo. Outras duas obras também foram elogiadas pelo vice: A capital da solidão e A capital da vertigem, ambas de Roberto Pompeu de Toledo. Apesar de constar na agenda da presidente o encontro com o vice, o teor da reunião não foi informado pela assessoria de imprensa da Presidência da República.

16 MINUTOS
Tempo que Temer e Dilma conversaram sozinhos no gabinete presidencial. Depois, participaram do encontro os ministros Ricardo Berzoini e Jacques Wagner



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