Entre Chico e Kim

Entre Chico e Kim

Warner Bento Filho warnerbento.df@dabr.com
postado em 21/01/2016 00:00

Em entrevista ao jornalista Marcelo Leite, da Folha de S. Paulo, publicada na segunda-feira, a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva perde, mais uma vez, por falta de discurso consistente, a oportunidade de se tornar, efetivamente, a porta-voz da necessária renovação política do país.

Marina pede tempo para que se compreenda a verdadeira identidade de seu partido, o Rede. ;Há pressa em querer rotular tudo o que está surgindo como algo novo, antes que isso possa se estabilizar. No cenário político nacional, a Rede talvez seja um desses experimentos que de fato buscam fazer atualização política;, diz. O Rede, como partido legalizado em busca de votos, já deveria, no entanto, dizer claramente a que veio e como pretende construir a ;nova política;.

Em lugar disso, porém, o partido de Marina, pelo menos em certos aspectos, continua repetindo a velha prática. Exemplo é a política de alianças da legenda, que admite parcerias com o PSDB de Alckmin, com o PSB de Márcio França e com o PPS de Ricardo Young. De nenhum deles poderia se dizer que representa algo de novo na política brasileira. Ao contrário.

Ter um banqueiro ou uma banqueira entre seus principais financiadores e conselheiros tampouco combina com quem busca o novo. Bancos pouco têm a ver com a sustentabilidade econômica da qual Marina fala. Eles representam, na verdade, o revés disso.

A ex-ministra ainda herda da velha política a ideia do ;desenvolvimento sustentável;, algo contraditório em si mesmo. O crescimento infinito da economia não é algo que se sustente ambientalmente. Além disso, ao defender a expansão econômica, Marina deverá apontar os caminhos para isso. Contaremos com a indústria da mineração? Com produção de carne para exportação? Com mais lavouras de soja no lugar das florestas? Com mais indústrias poluidoras?

Marina Silva sustenta que um dos problemas da política brasileira é que as pessoas dizem o que dá votos e não o que precisa ser dito. Ela mesma, no entanto, se afasta do discurso que lhe deu visibilidade e representatividade. Autodeclarada nem esquerda nem direita, a ;sustentabilista; Marina Silva, hoje, está mais para Kim Kataguiri do que para Chico Mendes.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação