Mais tempo na escola

Mais tempo na escola

CIDA CHAGAS Especialista em políticas públicas e gestão governamental, é mestre em educação e doutora em sociologia pela Universidade de Brasília
postado em 21/01/2016 00:00

Se os estudos sobre os cenários demográficos para os próximos 15 anos estão nos dizendo que o Brasil será um país com expressiva população idosa e que teremos dificuldade em alcançar níveis internacionais de escolaridade média, devemos, então, enfrentar as projeções com a coragem que o desafio nos impõe. Ainda há tempo de aproveitar o boom demográfico, oferecendo às crianças e adolescentes um modelo de escola para que minimizemos o impacto das mudanças demográficas por que passa o país. Segundo o IBGE, em 2030, a população idosa, de 65 anos ou mais, corresponderá a 13,44%; hoje, é de 7,9%.

Enquanto a população jovem de 10 a 14 anos, que hoje é de 23,19%, será de 17,59% em 2030. Agrava-se a isso a deficiência em prover educação de qualidade aos estudantes. Diante dos números e com uma taxa de natalidade que cai progressivamente ano a ano, as consequências da mudança demográfica são o brutal impacto no sistema previdenciário e a escassez de pessoas para cuidar do futuro do país. O caminho, diriam uns, é aumentar a produtividade. Entretanto, essa solução esbarra no problema educacional. Quando comparamos o desempenho dos nossos estudantes de 15 anos no último exame do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), refletimos o desafio que será ampliar o nosso espaço competitivo no mundo.

O desajuste do sistema de ensino da educação básica precisa ser monitorado, mais bem avaliado e atacado. Dados do Inep de 2014 apontam que a taxa de matrícula do ensino fundamental foi de 83%; do ensino médio, 79%; a taxa de aprovação foi de 89,2% no fundamental e de 80,3% no médio. Enquanto isso, a taxa de reprovação no fundamental foi de 8,6%; no médio, de 12,1%. A taxa de abandono foi de 2,2% no fundamental e 6,6% no médio. Por seu lado, a taxa de distorção idade-série no ensino fundamental é de 20%, chegando no 6; ano a 30,7%; e no ensino médio, 28,2%.

Os indicadores mostram que as crianças e os adolescentes estão na escola, mas não possuem bons rendimentos como demonstram os resultados em leitura e matemática da Avaliação Nacional da Alfabetização de 2014. Algo está acontecendo no processo de ensino que não leva os alunos a aprender. As causas da baixa qualidade de ensino estão atreladas à precária estrutura física das escolas, à formação e ao perfil dos professores e aos fatores sociais externos às salas de aula.

A ausência de pais e mães na vida escolar é alimentada pela necessidade de trabalharem e, algumas vezes, pela deficiente formação educacional. A escola deveria assumir papel para minimizar as desigualdades que se impõem como fatores externos e impactam os processos de aprendizagem. Isso só é possível se pensarmos em um modelo de escola, sobretudo pública, que se ocupe não apenas dos aspectos pedagógicos, mas sociais e psicológicos dos alunos.

A proposta da escola em tempo integral deveria ser o foco da política de educação em contraponto à jornada média de 4 horas. Na jornada ampliada, as disciplinas extracurriculares seriam a oportunidade para o desenvolvimento absoluto dos alunos com artes, literatura, lógica, esportes e até mesmo o aproveitamento do tempo ocioso em ambiente escolar que estimulasse a criatividade. Isso acontece em muitas escolas da rede privada. Trata-se de proposta que pode encorajar a nova geração a ver na escola espaço acolhedor, de socialização, que a prepare para as escolhas de vida. Para isso deve haver equipes multidisciplinares, assistenciais e espaços integrados no ambiente escolar.

Já tivemos experiências semelhantes no Brasil, como os Cieps e as escolas-parque, mas não avançamos. Hoje, voltamos a discutir escola em período integral, mas devemos agir de maneira sustentável, mapeando, remodelando, revitalizando e reformando espaços ociosos. Assim, poderíamos executar políticas a curto prazo e evitar o desperdício de recursos públicos com estruturas físicas que demandariam amplos aportes financeiros para construção e manutenção. A questão é que esse pacto já foi estabelecido no Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação com a participação dos entes federados e da sociedade. Bastaria colocarmos em prática e sepultarmos interesses políticos tacanhos para sublevar o futuro do país.

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