Massacre no câmpus

Massacre no câmpus

Extremistas invadem universidade no Paquistão, executam 21 pessoas e ferem 30, antes de serem mortos por forças de segurança. Talibãs reivindicam a autoria do atentado e citam "lição ao governo". Sobrevivente e morador relatam horror ao Correio

GABRIELA WALKER
postado em 21/01/2016 00:00
 (foto: Aamir Qureshi/AFP )
(foto: Aamir Qureshi/AFP )



Homens armados com fuzis atacaram a Universidade Bacha Khan, em Charsadda (norte do Paquistão), deixando 21 mortos e cerca de 30 feridos. De acordo com o porta-voz do Exército, tenente-general Asim Bajwa, quatro agressores foram eliminados por forças de segurança deslocadas desde a capital da província, Peshawar, a cerca de 50 km do câmpus. A maior parte das vítimas era de estudantes, mas pelo menos dois professores estão entre os mortos. O atentado ocorre pouco mais de um ano depois do massacre de 134 estudantes em uma escola de Peshawar ; o incidente pressionou o governo de Islamabad a organizar um plano de ação contra o terrorismo.

Um líder talibã reivindicou a autoria do ataque, ao afirmar que quatro militantes abriram fogo na universidade. Em entrevista ao jornal The New York Times, Khalifa Omar Mansoor, mentor da ação em Peshawar, confirmou ter ordenado o atentado de ontem. Ele classificou a operação terrorista de uma ;lição à liderança militar do Paquistão; e uma resposta à repressão do governo.

Horas depois, no entanto, Muhammad Khorasani, porta-voz oficial do Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP), representante das principais facções do Talibã no país, divulgou comunicado em que negava o envolvimento do grupo no incidente. ;O Tehrik-i-Taliban Pakistan condena duramente esse ato não-islâmico e se desassocia completamente dele;, disse Khorasani, que ameaçou julgar os organizadores de acordo com a sharia (lei islâmica).

O analista político Hasan-Askari Rizvi, estrategista militar da Universidade do Punjab (em Lahore), explica ao Correio que a morte do antigo líder mulá Mohammed Omar, em abril de 2013, deflagrou um conflito pelo comando dos grupos que compõem o Talibã. ;O Paquistão está tentando arranjar um diálogo entre o governo de Cabul e grupos talibãs. Os mais radicais, no entanto, não querem negociações. O ataque tem o objetivo de subverter esse esforço e comprometer as relações entre os países;, observa.

Em sessão no Senado paquistanês, políticos de oposição criticaram os governos federal e regional e acusaram as agências de inteligência como responsáveis pela falha de segurança que permitiu o ataque. Segundo os críticos, as autoridades demoram muito para implementar o Plano Nacional de Ação, estabelecido em janeiro do ano passado para reprimir os extremistas, depois do ataque à escola de Peshawar. O primeiro-ministro Muhammad Nawaz Sharif, que estava em Zurique para o Fórum Econômico Mundial, prometeu uma ;resposta implacável; e declarou um dia de luto nacional.

Tiroteio
Os disparos começaram a ser ouvidos no começo da manhã, por volta das 9h (2h em Brasília), pouco antes do horário marcado para um recital de poesia em homenagem a Bacha Khan, líder histórico da região. Segundo testemunhas, os atiradores focaram a ação no dormitório masculino, onde várias pessoas foram executadas. Por telefone, o aluno de ciência da computação Mohamed Basit Khan, 21 anos, contou ao Correio ter visto três agressores no bloco onde ele estuda. ;Estou com muito medo; quatro amigos meus foram mortos e vários estão feridos;, disse.

O cineasta Rizwaan Ahmed Khan, 39, mora a cerca de 1km da universidade e relatou que helicópteros do Exército sobrevoaram a cidade enquanto forças de segurança tentavam controlar a situação em solo. ;Eu ouvi duas explosões de granadas de mão, e as janelas de minha casa vibraram. Foi assustador. Depois, escutei o som de disparos intermitentes por pelo menos quatro horas;, relatou, por meio da internet.

Outras testemunhas afirmaram ter ouvido os extremistas gritarem ;Allahu akbar; (;Deus é grande;), enquanto disparavam. Imagens transmitidas por uma rede televisão local mostraram pessoas se atirando pelas janelas para tentar fugir. De acordo com sobreviventes, um dos docentes mortos na ação, Syed Hamid Husain, 32, disparou contra os terroristas, e salvou a vida de diversos alunos. Professor de química, Husain carregava uma pistola 9mm no momento do ataque e acabou ganhando o apelido de ;o protetor;. Por meio das redes sociais, dezenas de paquistaneses prestaram homenagens ao ;mártir da educação;.

A ativista e Nobel da Paz Malala Yousafzai, 18, lamentou a ação e defendeu que as ;autoridades devem agir para garantir que todas as escolas e universidades sejam seguras;. Em 9 de outubro de 2012, Malala foi baleada na cabeça por talibãs, dentro de um ônibus escolar. Em nota, o governo brasileiro condenou ;com veemência o ataque; e repudiou ;toda e qualquer forma de terrorismo;.
Colaborou Rodrigo Craveiro


Eu acho...

;Esses extremistas acham que o nosso sistema de educação é baseado em valores ocidentais e, por isso, o veem como um mal. Eles desencorajam as pessoas a estudarem e as amedrontam, por meio de ataques a escolas e a universidades. A raiz de tudo isso é a versão wahhabita do islã.;



Rizwaan Ahmed Khan, 9 anos, cineasta e fotógrafo, orador de Charsadda






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