Exame de sangue contra superbactérias

Exame de sangue contra superbactérias

Método de diagnóstico criado por cientistas dos Estados Unidos identifica se uma infeção respiratória é viral ou bacteriana. Com essa informação, os médicos conseguirão prescrever antibióticos aos pacientes só quando necessário: para combater bactérias

» Vilhena Soares
postado em 21/01/2016 00:00
Os antibióticos, principal arma no combate a doenças infecciosas, modernizaram a medicina. Essa solução, porém, se tornou uma preocupação mundial devido ao uso exagerado. A ingestão excessiva da droga, além de provocar a perda do poder curativo, contribui para o surgimento de superbactérias, que não morrem quando entram em contato com o medicamento. Na tentativa de evitar essa complicação, cientistas dos Estados Unidos desenvolveram um teste de sangue que determina o tipo de infecção respiratória, se viral ou bacteriana. O método de classificação, detalhado nesta semana na revista Science Translational Medicine, permite que os antibióticos sejam prescritos apenas para a finalidade deles: exterminar bactérias.

Os criadores do método se basearam no comportamento do organismo humano quando acometido por uma infecção. A reação depende do tipo de invasor. ;O nosso trabalho firma-se na observação, conhecida há muito tempo, de que o sistema imunológico responde de forma diferente a agentes patogênicos distintos. Chamamos isso de ;a resposta do hospedeiro;;, explica ao Correio Geoffrey Ginsburg, um dos autores do estudo e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Duke, nos Estados Unidos.

As respostas do corpo às infecções foram observadas por meio de um sistema avançado, capaz de analisar a composição genética de uma pessoa ; composta por 25 mil genes ; de uma só vez. ;Utilizamos tecnologias genômicas que conseguem ver como os genes reagem e desenvolvem padrões específicos, as assinaturas genéticas. São expressões que ocorrem em resposta a tipos de vírus ou bactérias;, detalha Ginsburg.

Os cientistas analisaram amostras de sangue de mais de 300 pacientes infectados por esses micro-organismos. Conseguiram confirmar a ocorrência das infecções e determinar o tipo de cada uma com 87% de precisão. Os autores destacam que a eficácia dos resultados é o maior ganho do método. A nova técnica, garantem, é mais precisa que outros testes em desenvolvimento e que buscam apenas a presença de micro-organismos específicos no paciente.

;A infecção respiratória é um dos problemas que mais leva as pessoas ao médico. Nós usamos muitas informações para fazer um diagnóstico, mas ainda não existe uma maneira eficiente ou altamente precisa de determinar se a infecção é bacteriana ou viral;, destaca Efraim Tsalik, professor-assistente da Faculdade de Medicina da Universidade de Duke e também autor da pesquisa.

Cristina Alvim, pneumologista e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que o novo método de diagnóstico utiliza uma estratégia inovadora para um antigo problema científico. ;Temos vários estudos que tentam mostrar a diferenciação da causa de infecções respiratórias, mas eu nunca tinha visto nenhuma pesquisa que estudasse o perfil da expressão genética, que é a resposta do hospedeiro à infecção, uma interação entre o organismo e o agente infeccioso;, explica. A taxa de eficácia também chamou a atenção da especialista. ;Esse foco da detecção feita por esses pesquisadores se mostrou eficaz, já que os dados de acerto foram bem altos.;

Tratamento às cegas
Um dos principais desafios no manejo de pacientes com infecção respiratória é saber quando prescrever antibióticos. De acordo com os autores do estudo norte-americano, a falta de informações precisas sobre a causa da infecção faz com que muitos médicos prescrevam antibióticos às cegas para tratar a causa com potencial mais perigoso de complicação. No entanto, a maioria das infecções respiratórias é gerada por vírus, que não devem ser tratados com antibióticos.

;Nossa tecnologia tem como objetivo fornecer as informações que ajudarão os médicos a tomar melhores decisões sobre quem precisa de antibiótico e quem não. Se pudermos reduzir a utilização excessiva desse medicamento, a resistência a ele vai cair. Isso ocorrerá porque bactérias que ocorrem naturalmente não vão ser expostas a essa droga, e é a exposição ao fármaco que faz com que elas desenvolvam a resistência;, destaca Ginsburg.

O pesquisador cogita, inclusive, que o método contribua também para a melhora do tratamento de infecções virais. ;Neste momento, podemos receitar o Tamiflu (que tem o oseltamivir como princípio ativo) para ajudar pacientes a se recuperarem de uma infecção por influenza, por exemplo, mas, para a maioria das infecções virais, o tratamento é tomar fluidos e descansar até que passe. Nos próximos cinco a 10 anos, veremos, provavelmente, novos medicamentos antivirais, contra o vírus sincicial respiratório (VSR) e até mesmo contra o rinovírus, a causa predominante do resfriado comum. Dessa forma, orientar as escolhas de tratamento será ainda mais importante;, justifica o pesquisador.

Um das próximas etapas do estudo é refinar o teste em busca de resultados mais rápidos, já que os experimentos iniciais demoram cerca de 10 horas para ter um resultado. ;Agora, vamos colocar o ensaio em uma plataforma de teste que possa ser usada em consultórios médicos, por exemplo, e continuar o trabalho para mostrar que esse paradigma ; a resposta do hospedeiro ; pode ser usada em todas as populações: crianças, idosos e outros grupos étnicos;, complementa Ginsburg.


100 mil mortes no Brasil

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera as superbactérias uma das maiores ameaças à saúde pública. Em um relatório divulgado em 2014, com dados de 114 países, a entidade ressaltou o risco de pequenos ferimentos e infecções voltarem a ser fatais justamente pela queda da eficiência dos antibióticos. No Brasil, as infecções hospitalares atingem 14% dos pacientes internados e, segundo a OMS, podem matar até 100 mil pessoas por ano. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, 23 mil pessoas morrem anualmente vítimas das superbactérias nos Estados Unidos. Na Europa, são 20 mil.


"Se pudermos reduzir a utilização excessiva desse medicamento (o antibiótico), a resistência a ele vai cair. Isso ocorrerá porque bactérias que ocorrem naturalmente não vão ser expostas a essa droga;
Geoffrey Ginsburg, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Duke e um dos autores da pesquisa




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