Preparados para a vida

Preparados para a vida

Programa adotado em escolas públicas de Sobradinho contribui para que estudantes das séries iniciais do ensino fundamental desenvolvam habilidades emocionais e aprendam a lidar com dificuldades no dia a dia

» MARIANA NIEDERAUER ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 21/01/2016 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Todo mundo enfrenta situações desagradáveis e resolvê-las costuma ser complicado. Quando se é criança, então, um simples problema, como um desentendimento com um colega de turma, pode gerar um estresse exagerado e desnecessário e motivar até mesmo reações agressivas. Para ajudar as crianças das séries inicias do ensino fundamental a agirem da melhor maneira nesses momentos, seis escolas públicas de Sobradinho adotaram um programa que oferece uma alfabetização emocional às crianças, ajudando a desenvolver o senso crítico, a autonomia e a autoestima delas.

Por meio das histórias do Amigos do Zippy, personagem representado por um inseto bicho-pau, o programa, desenvolvido pela Associação pela Saúde Emocional das Crianças (Asec), ensina os pequenos a conversarem sobre o problema e possíveis maneiras de encará-lo. Cinquenta e três professores participaram da formação, que teve início em agosto do ano passado, e 1.029 alunos foram contemplados. As escolas da região foram escolhidas para participar a partir de critérios de vulnerabilidade social e econômica. ;Conseguimos perceber que o programa promove melhorias qualitativas nas relações ensino-aprendizagem;, afirma Ana Cristina de Castro, chefe da Unidade de Educação Básica da Regional de Ensino de Sobradinho.

A professora Cleide Araújo, 37 anos, do Caic Júlia Kubitschek de Oliveira, foi uma das que participou da formação. Segundo ela, foi possível notar o amadurecimento dos alunos, que se identificaram com as histórias contadas e se sentiram mais à vontade para falar sobre situações mais difíceis que vivem no dia a dia. ;Nós trabalhamos as habilidades no sentido de conhecer o aluno e a melhor forma de tratá-lo. Além disso, o próprio estudante acaba aprendendo a agir em algumas circunstâncias da vida;, detalha.

Muitos, de acordo com a professora, não aceitavam ficar com medo, por exemplo, mas aprenderam que esse é um sentimento comum a qualquer pessoa e, portanto, passaram a se perceber como parte da sociedade. ;Melhorou muito a autoestima deles;, avalia. Cleide diz que levará os ensinamentos do programa não só para prática docentes, mas também para a vida pessoal, e acredita que todos os professores, tanto da rede pública quanto da privada, deveriam ter acesso a esse tipo de programa. ;Para mim foi fantástico e com certeza eu poderei utilizar os conhecimentos com meus próximos alunos. Esse foi um marco, porque foi útil para mim como pessoa e como profissional.;

Aprendizado
Durante a capacitação, os professores participam de um bloco inicial sobre educação emocional, em que aprendem os princípios e as técnicas propostas pelo programa e, depois, têm mais quatro encontros com a equipe para a formação continuada. ;O preparo inicial é de criar um ambiente emocionalmente seguro, onde a criança possa se expressar. Isso muda tudo, não só na aula do Amigos do Zippy;, destaca a presidente da Asec, Tania Paris.

São ministradas 24 aulas, com duração de uma hora, uma vez por semana. Nesse período, os estudantes têm contato com seis histórias que compõem os diferentes módulos do programa. Os dois primeiros são os de Sentimentos e de Comunicação, em que a criança aprende a identificar e a validar o que ela está sentindo e como os amigos dela estão se sentindo, detalhando ainda quais são as formas de comunicação do sentimento e como treiná-las. Já os módulos de Relacionamento e de Resolução de conflito explicam como fazer amizades duradouras, lidar com a rejeição e com o bullying, além de esclarecem que não adianta tentar resolver os problemas quando se está com raiva.

Para concluir o programa, os últimos módulos são os de Mudanças e perdas e Como lidar com dificuldades. É o momento de consolidar o aprendizado e de a criança entender que existem mudanças na vida que são definitivas. ;Junto com tudo isso, os alunos estão sendo estimulados a pedir ajuda ou a ajudar quando são solicitados;, afirma Tania. O programa começou a ser implementado no Brasil em 2004, com foco em crianças de 6 a 8 anos, e é aberto a escolas públicas, privadas ou entidades beneficentes.

A expectativa da Secretaria de Educação do DF (SEDF) é de que esse tipo de programa ajude no desenvolvimento dos estudantes para que eles cheguem mais bem preparados ao ensino fundamental e ao médio, conforme afirma o subsecretário de Educação Básica, Daniel Crepaldi. ;Nossa intenção é que esse programa funcione como combate à violência dentro da escola, pois tende a criar uma geração que respeite mais as diferenças dos outros;, observa. Crepaldi lembra que essa pode ser uma maneira de garantir o cumprimento da lei de combate ao bullying, sancionada no ano passado (leia O que diz a lei). ;É forma de harmonizar a vida na escola, e isso tem sido levado para dentro de casa. Os meninos começam a respeitar mais a família, os pais, os avós, e enxergam de outra forma os contratempos que surgem;, complementa o subsecretário.

A continuidade do programa ainda depende de definição da SEDF. Crepaldi afirma que o governo ainda avaliará uma possível expansão para outras escolas da rede. No último semestre, o programa foi implantado por meio de parceira firmada pela Asec com o HSBC. Os custos são para cobrir a remuneração dos profissionais que promovem a capacitação.;O governo terá que criar mecanismos para ampliar a oferta, ou por meio de parceria com a iniciativa privada ou com recursos próprios. Mas a dificuldade financeira do DF não será empecilho para que a gente implemente bons programas;, afirma.


O que diz a lei

A Lei n; 13.185, de 2015, institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, o que a norma denomina bullying. De acordo com o texto, essa prática constitui todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas. Entre os objetivos do programa está a capacitação de professores e equipes pedagógicas para a implementação das ações de discussão, prevenção, orientação e solução do problema. A Lei Distrital n; 4.837, de 2012, também determina o combate ao bullying nas escolas das redes pública e privada do DF.





Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação