Uma sessão muito especial

Uma sessão muito especial

Cerca de 70 crianças autistas assistiram ao filme Hotel Transilvânia 2. Para muitas delas, foi a primeira vez numa sala escura

» LAURA TIZZO Especial para o Correio
postado em 21/01/2016 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

Ir ao cinema pode ser um passeio comum para uma parcela da população ; afinal, no primeiro semestre de 2015, o público da arte visual aumentou em 12% no Brasil, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine). Mas, para os familiares de autistas, essa não é uma tarefa fácil. Os portadores do transtorno requerem especificidades ; como som baixo, iluminação e possibilidade de circular pelo ambiente ; que não encontram nos cinemas convencionais. Uma iniciativa do Movimento Orgulho Autista Brasil (Moab), em parceria com a rede Kinoplex, possibilitou que 68 jovens autistas pudessem assistir a uma projeção na manhã de ontem. Muitos deles, pela primeira vez.

O longa-metragem de animação Hotel Transilvânia 2 começou com 20 minutos de atraso, por volta das 10h20, devido à chuva. Além do som e da iluminação próprios para os autistas, uma equipe de dez terapeutas prestava apoio, conduzindo-os a passeios quando se assustavam com algo. Brinquedos, objetos sensoriais e massagens também estavam à disposição dos meninos, para acalmá-los, se necessário.


Enquanto as crianças assistiam às cenas de seres fantásticos em enrascadas, outro filme com final feliz se passava na plateia. Os espectadores apontavam para a tela, se levantavam, aplaudiam e comentavam com os colegas o que lhes chamava a atenção. Alguns ficaram inquietos e precisaram do suporte dos profissionais, mas a maioria se divertiu. A reação positiva emocionou os familiares e, segundo a idealizadora da iniciativa e diretora do Moab, Tatiana Lima, superou expectativas.

;As crianças se comportaram, se concentraram, foi lindo. Sabendo a realidade, eu esperava que alguns tivessem dificuldades, mas não houve nada grave. O principal é ver a emoção das famílias, agradecendo, isso é muito gratificante;, conta. De fato, Tatiana conhece de perto o autismo. Além de diretora de uma entidade que lida com o tema, o filho dela, Guilherme, de 6 anos, é portador do transtorno.


Essa foi a primeira vez que o Guilherme assistiu a um longa no cinema. Antes, havia passado pela experiência de ver curtas no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Apesar de dizer que preferia assistir ao filme Snoopy, Guilherme adorou o Hotel Transilvânia. ;Ele participou, ficou uma hora sentadinho, assistindo, rindo, comentando o filme. Ele se envolveu muito com a trama;, afirma.

Inclusão
Helena Daher, 4 anos, fez sua estreia na plateia de cinema quando era bebê. Após a experiência inicial, no entanto, a menina passou a se incomodar com a escuridão das salas. Ela não tem autismo, mas possui um distúrbio sensorial, que a impede de frequentar locais muito escuros ou até mesmo muito claros. A mãe, Yasmine Daher, elogia a iniciativa, mas critica o comportamento da imprensa, que não poupou luzes e flashes, incomodando as crianças.


Para ela, a divulgação é necessária, mas deveria ter um limite. Fotos, por exemplo, a seu ver só deveriam ser feitas antes de começar o filme ou fora da sala. ;Lá dentro e durante a sessão, de jeito nenhum;, reclama. Apesar de apresentar ressalvas quanto ao comportamento da mídia, Yasmine diz que, quando a cobertura cessou, a filha conseguiu assistir ao longa. ;Gostaria que houvesse outras oportunidades, porque a Helena é louca por filmes. Sempre vemos algum em casa;, conta. A pequena apreciadora da sétima arte é fã dos monstrengos, e gostar de brincar de carrinhos e de passar maquiagem.

A administradora Rosane Mércia de Souza, 40 anos, também integrante do Moab, levou o Pedro Henrique, 10 anos, para o cinema. De acordo com ela, o principal legado da iniciativa é a socialização das crianças e também das famílias. ;A importância é mostrar que, para os pais de uma criança com autismo, faz muita diferença que a sociedade seja inclusiva, sem diferenciação. Compartilhar experiências com outras pessoas na mesma situação é fundamental;, avalia.


Próximas edições
De acordo com Tatiana Lima, os ingressos para a sessão desta quarta-feira foram distribuídos gratuitamente. Contudo, a procura foi maior do que a disponibilidade e, com isso, há uma lista de espera de aproximadamente 200 pessoas. A intenção de Tatiana é continuar realizando outras edições ainda neste ano. ;Pretendemos conseguir novas sessões, de preferência uma por mês aqui em Brasília e expandir para outros estados também;, anuncia.








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