Baluartes do samba

Baluartes do samba

Projeto na Caixa Cultural mostra grandes compositores cantando e contando histórias. Noca da Portela, Zé Katimba e Tiãozinho da Mocidade se apresentam de hoje a domingo

» Irlam Rocha Lima
postado em 21/01/2016 00:00






Noca da Portela divide com Davi Correia a primazia de ser autor do maior número de sambas-enredos de sua escola ; sete, ao todo. Zé Katimba virou personagem, vivido por Grande Otelo, na novela Bandeira dois, de Dias Gomes, por conta de Martim Cererê, o samba-enredo que compôs pra a Imperatriz Leopoldinense em 1972. São de Tiãozinho da Mocidade, Ziriguidum 2001 ; Um carnaval nas estrelas e Chuê, chuá; As águas vão rolar, sambas-enredos que levaram a escola de Padre Miguel ao título em 1981 e 1991.

Esses três baluartes das agremiações carnavalescas cariocas são protagonistas de Conversa de sambista é samba, projeto que ocupa o palco do Teatro da Caixa de hoje a sábado, às 20h, e domingo, às 19h. Idealizado e produzido por Pituka Nirobe, integrante do Conselho Nacional de Política Cultural, o evento propõe valorizar os sambistas da velha guarda.

;Temos verificado nos últimos tempos que tem diminuído sensivelmente o espaço para compositores que são responsáveis diretos pelo tombamento do samba como Patrimônio Imaterial Brasileiro. Isso nos levou a criar esse projeto que estreia em Brasília e depois vai ser levado a outras capitais brasileiras;, justifica Pituka.

Conversa de sambista, que tem direção musical de Josimar Monteiro dos Santos, é uma série de bate-papos, entremeados por sambas compostos por Noca, Zé Katimba e Tiãozinho ; alguns inéditos, mas a maioria, clássicos que fazem parte da memória afetiva de apreciadores do mais importante gênero musical brasileiro. Os três têm a companhia dos músicos Alex Oliveira, Danilo Peixoto, Edmilson Costa, Nelson Machado, Ubiranei Oliveira e Idalina Bastos,

O mais novo dos três, Tiãozinho, 65 anos, vai ser uma espécie de âncora desse bate- papo. ;Vou conduzir os trabalhos, mas sempre deixando espaço para que Noca e Zé Katimba entrem na conversa, no decorrer das apresentações. Vamos falar de nossas trajetórias, dos sambas que compusemos e da nossa ligação com as escolas que estamos representando no projeto;, explica. ;O encerramento será com um pout- pourri de sambas-enredo;, acrescenta.

Pesquisador e atual diretor cultural da Mocidade Independente de Padre Miguel, Tiãozinho é autor de cinco dos mais conhecidos sambas-enredo da escola, que surgiu na Vila Vintém. Fundador de escolas de samba em Londres, Paris e Helsinque, em 2012, ele lançou o CD Moleque Tião. Músicas de sua autoria foram gravadas por Emílio Santiago, Vander Pires, Paulinho da Mocidade, Dominguinhos do Estácio e Mestre Marçal.

Antologia
Aos 73 anos, Zé Katimba faz parte da antologia do samba. O apelido, que o fez conhecido no universo da MPB, lhe foi dado na infância por um amigo, no Morro do Adeus, em Bonsucesso, subúrbio do Rio de Janeiro. Aquele foi o local onde a família se instalou, vinda de Guarabira (PB), na década de 1950. ;Como no jogo de gude, eu sempre me metia em briga com os colegas, um deles passou a me chamar de Zé Catimba;.

Tido como um dos criadores do samba-enredo moderno, alegórico, bem-humorado, pontuado de imagens e muitas descrições, Zé Katimba é ligado à Imperatriz Leopoldinense há 50 anos. Neste ano, ele emplacou mais um samba-enredo, que a escola vai levar para a Marquês de Sapucaí: É o amor ; Do sonho de um caipira nascem os filhos do Brasil, que homenageia Zezé Di Camargo & Luciano. Com mais de 800 composições gravadas, tem entre seus parceiros João Nogueira, Martinho da Vila, João Donato, Roque Ferreira, Jorge Aragão e Toninho Geraes.

Presença frequente nos palcos da cidade, Noca da Portela, 83 anos, lança em breve um CD intitulado Homenagens. ;Uma das músicas desse disco é Exaltação a Brasília, samba-enredo que fiz com Sérgio Fonseca, há muito tempo. Ela foi apresentada pela primeira vez no Programa de Flávio Cavalcante, quando a capital do país comemorava 20 anos;, lembra.

Em 2015, Noca, mineiro criado na Zona Norte do Rio de Janeiro, é um apaixonado por Madureira, bairro que abriga a Portela. Entre os sambas-enredos que compôs para sua escola do coração está Sou carioca, sou de Madureira, com o qual, em 2015, conquistou nove prêmios. ;Só perdi o Estandarte de Ouro, que ficou com Zé Katimba;, diz.

Gravado por Maria Bethânia, Alcione, Beth Carvalho, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Paulinho da Viola, Jamelão, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e Fundo de Quintal, entre outros, Noca tem como maiores sucessos, Caciqueando, É preciso muito amor, Mil reis, Portela querida e Virada ; considerado um dos hinos do movimento Diretas Já!

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Ouça o samba enredo da Imperatiz Leopodinense deste ano.

Conversa de sambista é samba

Bate-papo entremeado por música com Tiãozinho da Mocidade, Zé Katimba e Noca da Portela, de hoje a sábado, às 20h, e domingo, às 19h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Não recomendado para menores de 16 anos. Informações: 3206-9448.


Sucesso dos sambistas

Noca da Portela
Caciqueando, É preciso muito amor, Mil reis, Portela querida, É preciso muito amor, Virada

Tiãozinho da Mocidade
Como era verde meu Xingu, Ziriguidum 2001 ; Carnaval nas estrelas, Vira virou ; A Mocidade chegou

Zé Katimba
Do jeito que o rei mandou, Disritmia, Martim Cererê, Me beija, me beija

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