A generosidade suspeita das empreiteiras

A generosidade suspeita das empreiteiras

Palestras, voos em jatinho, doações, telegramas e e-mails sobre lobby mostram a ligação estreita de Lula com as empreiteiras. Enquanto seus aliados veem perseguição, oposição pressiona por investigação

EDUARDO MILITÃO
postado em 01/02/2016 00:00
 (foto: Eduardo Knapp/Folhapress - 31/8/10)
(foto: Eduardo Knapp/Folhapress - 31/8/10)


As relações entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e as empreiteiras brasileiras se tornaram a dor de cabeça do petista desde o ano passado. Ele passou a ser alvo direto de duas investigações do Ministério Público e ainda viu chegar próximo de si e de seus familiares outras apurações da Polícia Federal. Por um lado, o relacionamento de um presidente com grandes empresas é considerado normal, por ampliar o diálogo com o setor produtivo, como sustentou um de seus principais aliados na semana passada perante a Justiça, o ex-chefe de gabinete Gilberto Carvalho. Por outro lado, suspeitam procuradores e delegados, o relacionamento não pode incluir privilégios em contratos, o que indicaria a prática de tráfico de influência. O Instituto Lula afirma que o petista nunca defendeu interesses de empresas e apenas atuou como Estadista, privilegiando os interesses nacionais. O comportamento já vinha da época em que ele ocupava o Palácio do Planalto e se manteve quando deixou o posto para fazer palestras pelo mundo, parte delas bancada por empresas que têm negócios com o governo federal e países estrangeiros.

A suspeita é que uma série de ;mimos;, como reformas em imóveis e palestras ao custo de mais de R$ 200 mil, sejam o subterfúgio para se conseguir apoio em projetos no Brasil e no exterior. As maiores empreiteiras ; principais alvos da Operação Lava-Jato ; passaram a contratar o ex-presidente para proferir palestras mundo afora, em geral nos países em que elas têm obras ou interesses em concorrências públicas. As ocasiões serviriam para que Lula se encontre com outras lideranças empresariais e políticas. Telegramas do Itamaraty e até um email de um então ministro do governo Lula indicam que o petista ;fez o lobby; para construtoras, como a Odebrecht, no exterior (veja quadro acima).

Fato é que, até o momento, a família do ex-presidente se vê às voltas com quatro investigações da Polícia Federal e do Ministério Público. Além da lupa da Operação Lava-Jato e da Zelotes, inquéritos sobre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) e um tríplex feito pela OAS no Guarujá trazem o petista às manchetes de forma negativa. O Instituto Lula negou reiteradas vezes que ele faça qualquer tipo de lobby. O próprio Lula chegou a se declarar o homem mais honesto do Brasil em entrevista a jornalistas e ativistas simpáticos a seu governo. ;Se tem uma coisa que eu me orgulho neste país é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu;, afirmou. ;Pode ter igual, mas eu duvido.;

Eletricista
Desde que deixou o governo, Lula passou a fazer palestras pagas pelas construtoras mundo afora. Para isso, voa em jatinhos e aviões cedidos pelas empreiteiras. Telegramas diplomáticos mostram a presença do ex-presidente em favor de construtoras (veja quadro). Há relatos de lobby feito por Lula em Portugal, Namíbia, Venezuela e República Dominicana. Em contrapartida, testemunhas relacionam reformas tocadas pelas mesmas empreiteiras em imóveis ligados ao ex-presidente: o tríplex do condomínio Solaris e o sítio em Atibaia (SP). O petista admite que comprou cotas do edifício, mas nega ter sido dono efetivo de algum imóvel no local. Em relação à propriedade no interior paulista, ela está registrada em nome de dois sócios de um dos filhos de Lula.

Diante das suspeitas, a oposição se armou para cobrar investigações sobre os imóveis. Líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), anunciou que apresentará requerimento de instalação de uma CPI para investigar o uso da Bancoop no esquema de lavagem de recursos públicos desviados da Petrobras. ;Há indícios muito fortes de que a Bancoop foi utilizada com uma das lavanderias de recursos drenados da Petrobras. E a Câmara, que já investigou o Mensalão e o Petrolão, tem o dever de contribuir com as apurações deste caso;, afirmou Sampaio. O líder do DEM na casa, Pauderney Avelino (AM), disse que o partido reforçaria as investigações do Ministério Público e Polícia Federal. ;Com todo o respeito à biografia do ex-presidente Lula, mas se ele não fosse o dono, ele teria de dizer que a cota era cota, não um apartamento. Ele teria condições de dizer que a matéria é ficção e que o contrato é uma mentira;, afirma.

Os aliados do ex-presidente Lula sustentam que ele é vítima de uma campanha para abater sua imagem. Uma estratégia de defesa está sendo montada pelo PT a fim de não atrapalhar os planos de uma eventual eleição em 2018. O presidente do partido, Rui Falcão, declarou à agência Bloomberg que Lula é ;o plano A; da sigla para 2018 e que não existe outra alternativa. Esse eventual retorno de Lula seria o mote para uma suposta ;perseguição; , de acordo com seu ex-chefe de gabinete Gilberto Carvalho. ;Há um medo de que o presidente Lula volte em 2018;, disse ele aos jornalistas.

O amigo, presidente do instituto do petista e sócio dele em uma empresa de palestras, Paulo Okamotto, sustenta que acusações e suspeitas de lobby não têm base. ;Em todas as agendas do ex-presidente predomina o empenho em consolidar a imagem e os interesses da nação brasileira;, afirmou no início do ano passado. ;Em suas viagens, o ex-presidente participa como convidado de grandes eventos públicos e realiza encontros com lideranças de diversos setores.;



Explicações e ataques

Os principais argumentos usados por Lula e aliados para defender sua relação com empreiteiras e a reação da oposição

;Se tem uma coisa que eu me orgulho, neste país, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu. Pode ter igual, mas eu duvido;
Lula, em entrevista para jornalistas

;O ex-presidente não atuou em favor da Odebrecht, nem fez gestão a favor da empresa;.
assessoria de imprensa de lula

;Em todas as agendas do ex-presidente predomina o empenho em consolidar a imagem e os interesses da nação brasileira.;
Paulo Okamotto, sócio de Lula

;O presidente Lula tinha uma obsessão pela questão do desenvolvimento. Ele prezava muito o encontro sobretudo com CEOs de empresas que vêm de fora para cá;
Gilberto Carvalho, ex-ministro

;Há indícios muito fortes de que a Bancoop foi utilizada com uma das lavanderias de recursos drenados da Petrobras. E a Câmara, que já investigou o Mensalão e o Petrolão, tem o dever de contribuir com as apurações deste caso;
Carlos Sampaio (PSDB-SP), deputado federal

;Com todo o respeito à biografia do ex-presidente Lula, mas, se ele não fosse o dono (do tríplex no Guarujá (S

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