Os ladrões da relação humana

Os ladrões da relação humana

Excesso de contato das crianças com jogos e brinquedos tecnológicos preocupa especialistas. Para os profissionais, esses recursos podem roubar um tempo precioso de interação entre adultos e crianças, prejudicando o desenvolvimento integral dos pequenos

postado em 01/02/2016 00:00
 (foto: Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press)

Recebidos por um mundo em que a tecnologia domina a cena, bebês passam cada vez mais tempo entretidos por brinquedos cheios de recursos como sons e luzes ou vídeos e jogos que eles acessam facilmente ao tocar as telas de tablets e smartphones. Esses últimos objetos, que também enfeitiçam adultos, contam até com adaptações pensadas para os pequenos: capas resistentes e personalizadas com personagens, conteúdos restritos e configurações bastante coloridas. Esse contato intenso com os eletrônicos, no entanto, tem preocupado especialistas em desenvolvimento infantil.


Isso porque, segundo os profissionais, o encantamento provocado pelas novas tecnologias reduz de maneira significativa a interação entre pais e filhos, seja conversando, seja brincando juntos. ;As crianças vão ao restaurante jogando no tablet porque só ficam quietinhas se estiverem na frente de um vídeo;, critica a pediatra Simone Sudbrack, do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Sudbrack e outros estudiosos na área dão o alerta: práticas como essa pode prejudicar algumas fases do desenvolvimento infantil, como o aperfeiçoamento da linguagem, da cognição e das habilidades motoras.


;Os pais devem priorizar a interação a partir de brincadeiras, contação de histórias e contato com brinquedos tradicionais;, reforça Norma Lúcia Neris, educadora e especialista em psicologia do desenvolvimento humano pela Universidade de Brasília (UnB). ;Até os cinco anos, é recomendável que a criança tenha menos contato com os jogos eletrônicos para conseguir desenvolver a linguagem e o relacionamento humano;, orienta.
Para Neris, a questão não é excluir totalmente do universo da criança jogos digitais e brinquedos eletrônicos, mas garantir que eles sejam menos frequentes do que a interação entre pais e filhos, a partir de brincadeiras e situações que garantem mais convivência. ;Com os jogos eletrônicos, observo que os pais conversam menos com os filhos. E essa é uma fase fundamental para o desenvolvimento deles, da afetividade, da relação com o outro e da linguagem;, nota a educadora.

Menos palavras

Com preocupação semelhante à das especialistas brasileiras, a patologista de linguagem e fala Anna Sosa, especialista em desenvolvimento infantil pela Universidade do Nordeste do Arizona, nos Estados Unidos, decidiu comparar o efeito que brinquedos elétricos (que emitem sons e se movimentam, como carrinhos eletrônicos, por exemplo) e tradicionais (blocos de encaixar) geram na interação entre crianças e adultos. Para entender como os pais se comunicam com os filhos a partir desses objetos, a pesquisadora analisou, durante um ano e meio, 26 duplas de pais e filhos, deixando que brincassem por 15 minutos com os elétricos e os clássicos, que incluíam também livros infantis. A idade dos pequenos variava de 10 a 16 meses.


Sosa partiu do pressuposto de que quanto mais os jogos falam e emitem sons, mais pais e filhos se calam. Ela filmou a interação das duplas na casa de cada uma delas, uma forma de garantir que as reações não tivessem tanta influência do ambiente. Em seguida, os vídeos foram processados em um programa específico que possibilitou a contagem de palavras e vocalizações emitidas por minuto durante as brincadeiras. Os resultados, publicados no mês passado na revista Jama Pediatrics, mostraram que, com os eletrônicos, os pais usaram em torno de 40 palavras por minuto, ante 56 palavras trocadas a partir dos jogos tradicionais e 67, a partir dos livros.


Mesmo num estudo com uma amostra pequena, a estudiosa percebe uma pista sobre os efeitos do tipo de jogo escolhido sobre a relação entre pais e filhos. ;O foco do nosso estudo foi sobre o comportamento dos pais. Eu diria que o problema desses brinquedos é como impactam o comportamento deles, o que, por sua vez, afeta o desenvolvimento da criança;, analisa Sosa em entrevista ao Correio.

Acessório


Certos de que os eletrônicos devem ser apenas o complemento das brincadeiras e não o centro da diversão, a técnica de enfermagem Keylla de Sousa Vasconcelos, 38 anos, e o professor de artes plásticas Luciano de Paula, 41, optam sempre por se divertir com o pequeno Pedro, de 1 ano e 5 meses, utilizando bolas, carrinhos, bonecos e blocos de montar. ;O celular é nosso último recurso;, diz a mãe, enquanto Pedro mostra à reportagem como as peças de um de seus brinquedos preferidos se encaixam. Segundo Keylla, ela e o marido recorrem à tecnologia em momentos específicos. ;Às vezes, quando viajamos de carro, o deixo mexer no celular. Mas ele não gosta muito, fica entediado e logo estende a mão para entregar pra gente.;


A técnica de enfermagem observa que, cada vez mais, os pais parecem distantes em relação aos filhos, que passam o tempo diante de tablets, televisão, videogames e smartphones. ;Para alguns pais, é menos trabalhoso ter o filho com o jogo eletrônico do que correndo, jogando bola com ele;, avalia. Para Luciano, o importante é manter a comunicação com Pedro, independentemente do brinquedo utilizado. ;Tudo para ele é uma referência que nós oferecemos. Se a gente não brincasse com ele, deixasse sozinho no sofá com um tablet ou um celular, não teria essa interação comigo e com a mãe. O jogo eletrônico desumaniza, esfria a relação que eu poderia ter com o meu filho;, observa o professor. Keylla complementa: ;A rotina é dura, mas nos esforçamos;.


Com uma postura semelhante, os pais de Vítor, 5 anos, ficam atentos à qualidade dos brinquedos com os quais ele se entretém. Além de participarem das brincadeiras com o pequeno, a analista financeiro Verônica Avelino, 39, e o administrador de empresas Eduardo Henrique de Oliveira, 45, dosam as atividades às quais o garotinho se dedica. ;Ele gosta muito de futebol, e a gente sabe que é bom. Mas ele não deve ficar nem só no videogame nem só no futebol, porque queremos estimular o desenvolvimento dele em tudo. Por isso, compramos também joguinhos de raciocínio e de formar palavras, por exemplo;, conta Verônica.

"Até os cinco anos, recomendável que a criança enha menos contato com os jogos eletrônicos para conseguir desenvolver a linguagem e o relacionamento humano;
Norma Lúcia Neris, educadora e especialista
em psicologia do desenvolvimento humano

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