Cena de horror em hospital do DF

Cena de horror em hospital do DF

No Hospital Regional de Ceilândia, gestante é liberada e, pouco tempo depois, perde a criança. Segundo diretora da unidade, médica agiu corretamente, mas não será poupada de investigações

» CAMILA COSTA » MARIANNA NASCIMENTO Especial para o Correio
postado em 01/02/2016 00:00
 (foto: YouTube/Reprodução)
(foto: YouTube/Reprodução)



Uma moradora de Águas Lindas (GO), aos cinco meses de gestação, perdeu o filho após ser liberada pelo Hospital Regional de Ceilândia (HRC). Ela sentiu dores, foi examinada pela médica de plantão, medicada e dispensada. Quando retornou à unidade de saúde, levou o bebê morto, enrolado em um pano, após um parto prematuro.

Além do bebê, as maiores vítimas do infortúnio foram a mãe e a avó, Edna Maria Farias de Brito, 36 anos, que levou o neto falecido ao hospital. ;Minha filha estava trabalhando, teve uma discussão com um cliente, ficou nervosa e, quando cheguei, ela estava com dor. Fomos ao hospital;, relatou Edna ao Correio. ;A médica não pediu ecografia, não encostou na minha filha, apenas conversou.;

De acordo com Edna, as duas, que moram em Águas Lindas (GO), retornaram ao hospital cerca de uma hora depois da liberação na unidade de saúde. Lueny continua internada, em observação, e passou pelo procedimento de curetagem. Ela não tem histórico no sistema de saúde no DF por ser moradora do Entorno. A avó disse que, ontem, a médica conversou com a filha dela e pediu desculpas pelo ocorrido. O corpo do bebê foi para o Instituto Médico Legal (IML) e deve ser sepultado nos próximos dias.

Outras pacientes que estavam no hospital no momento ficaram indignadas com a situação. ;Precisam tomar alguma providência, pois a gente vê cada coisa desesperadora;, afirma Ivanilda de Carvalho Viana, 36 anos. Ela estava na unidade de saúde com a filha de 16 anos, grávida de nove meses, há mais de 15 horas quando presenciou a paciente e a mãe dela chegarem com o feto. ;Havia muitas mulheres lá, a médica ia atendendo e despachando todo mundo. Só depois dessa tragédia começaram a trabalhar direito, até acenderam as luzes do hospital;, relata.

A empresária Ana Karolina Souza, 21, estava no HRC com a mãe, grávida de nove meses. ;Chegamos no sábado, e minha mãe foi liberada às 6h só no dia seguinte. Essa moça tinha ido lá, falado que estava passando mal, mas deixaram ir embora. É um absurdo, várias pacientes ficaram aos prantos;, observa Ana Karolina.

A versão do hospital

A diretora do HRC, Talita Andrade, concedeu entrevista coletiva sobre o caso na tarde de ontem. Segundo Talita, a paciente chegou à ala da ginecologia às 0h45, queixando-se de dor, e foi atendida pela equipe de plantão à 1h08. A mãe não soube precisar a idade gestacional do bebê e não fazia acompanhamento pré-natal. Para a diretora, era impossível prever o nascimento prematuro. ;Apesar da dor, não havia sangramento, contrações ou qualquer sintoma de abortamento ou trabalho de parto. Os sinais vitais dela estavam em perfeito estado;, declara.

A paciente foi submetida a
anamnese (entrevista que serve de ponto inicial para diagnósticos), exame físico e medicação antes de ser dispensada pela ginecologista. ;Foram cumpridos todos os protocolos necessários.; Segundo a diretora, ultrassom não faz parte do procedimento padrão nesses casos. Durante a entrevista, a médica não informou a medicação administrada à paciente, apenas disse que era a ;adequada;.

A diretora destaca que, somente após a investigação, será possível dizer se o filho de Lueny estava morto no momento do exame. ;Não posso precipitar se houve ou não erro médico. A ginecologista responsável vai continuar trabalhando, é uma profissional competente, mas não será poupada de investigação;, garante.

;Todas as clínicas estão trabalhando com uma equipe aquém do necessário. O fato é de conhecimento da secretaria, que está trabalhando para solucionar o deficit de profissionais. É interessante não maquiar isso, a população tem que estar informada;, comentou Talita Andrade sobre a crise do sistema público no Distrito Federal. A Secretaria de Saúde desponta como o órgão da capital federal que mais recebe reclamações. No ano passado, a pasta alcançou 26.125 manifestações ; 7,85% menos que em 2014 (quando foram registradas 28.351).


Saiba mais

Procedimento com gestantes


Etelvino Trindade (CRM 1319), ex-presidente e membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), avalia que a equipe médica do Hospital Regional de Ceilândia não tinha como prever que a paciente entraria em trabalho de parto. ;Só há erro se ela não tiver sido examinada. Caso o profissional não detecte nada, sugere repouso e observação dos sintomas.; Trindade acrescenta que o procedimento padrão inclui examinar, clínica e fisicamente. ;Como a paciente não sabia dizer a idade gestacional, o médico tenta datar a gravidez. Geralmente, isso é feito com a data da última menstruação. O padrão não é radiografia, ultrassom, ecografia, mas a anamnese, ausculta dos batimentos, medicação e observação.;

Já o ginecologista pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Rido de Assis Araújo (CRM 1301) observa que, quando uma gestante relata dor, ;é preciso verificar se há perda de líquidos ou sangramento, além de ser necessário realizar o exame do toque e uma ecografia;. Caso não haja nenhuma alteração na paciente, ela deverá, então, ser medicada e pode ir para casa, onde deve ficar em observação.

Colaborou Renata Rios

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