Como tirar proveito da crise econômica

Como tirar proveito da crise econômica

Especialistas no setor explicam que proprietários e inquilinos podem se dar bem na hora de fechar uma venda ou locação, apesar do atual momento do país. Dados do Sindicato da Habitação do DF mostram que os preços caíram

» ALESSANDRA AZEVEDO Especial para o Correio
postado em 01/02/2016 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)



É comprovado que, durante a crise, as pessoas ficam mais receosas com as despesas. Em queda livre, o nível de confiança da população assusta todos os segmentos do mercado. Embora o ramo imobiliário não seja exceção, ele tem provado que bons negócios podem ser feitos mesmo em tempos de cautela. A necessidade dos proprietários de atender às condições de quem procura favorece o cenário. ;Os donos de imóveis estão dispostos a melhorar as condições de pagamento e o preço. Atualmente, eles estão muito mais abertos a negociar do que em anos anteriores;, afirma o presidente do Sindicato da Habitação do Distrito Federal (Secovi-DF), Carlos Hiram Bentes David.

A explicação, segundo ele, é a redução na demanda dos últimos meses. ;Todas as áreas foram afetadas pela crise. Não foi diferente para o setor de imóveis. Inflação, taxa de juros alta, restrição ao crédito e renda corroída, isso tudo acaba gerando impacto no setor;, explica o presidente do Secovi. ;No momento atual do mercado imobiliário, a palavra-chave é negociação;, completa o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Distrito Federal (Creci-DF), Hermes Alcântara. ;Compradores e inquilinos têm o poder em mãos.;

Prova disso é que os preços de certos tipos de imóveis, para locação e compra, caíram nos últimos meses no DF, segundo o Secovi. Embora os preços de quitinetes e apartamentos de três quartos tenham ficado estáveis durante o ano passado ; por volta de R$ 230 mil e R$ 600 mil, respectivamente ;, os de um dormitório despencaram quase 6%. De R$ 250 mil, em janeiro, a média foi para R$ 235,5 mil, em dezembro. Os imóveis de dois quartos também ficaram mais em conta. Começaram o ano custando, em média, R$ 331 mil, e terminaram 3,3% mais baratos, a R$ 320 mil. De outubro para dezembro, as opções de quatro quartos saíram do maior preço do ano (R$ 1,4 milhão, em outubro) para R$ 1,28 milhão. Com a queda de quase 8%, quem deixou de comprar em outubro para adquirir o imóvel em dezembro economizou mais de R$ 100 mil.

Oportunidade

A economia para os inquilinos também não fica para trás. Enquanto o aluguel de apartamentos de um quarto permaneceu na mesma faixa ao longo do ano ; por volta de R$ 1 mil ;, quitinetes e imóveis de dois quartos tiveram redução expressiva no valor mensal. A locação média de uma quitinete caiu de R$ 1 mil para R$ 930, em dezembro ; recuo de 7% ; enquanto o preço para apartamento de dois quartos caiu quase 12%, entre janeiro e novembro. O aluguel de três quartos, que custava por volta de R$ 2,4 mil em janeiro, terminou o ano em R$ 2,1 mil. Os R$ 300 de economia representam queda de quase 13%.

Quem percebeu a oportunidade conseguiu fazer bons negócios. Para a assistente de marketing Letícia Arraes, 24 anos, pelo menos nesse aspecto, a crise teve um lado positivo. Desde maio do ano passado, ela procurava um imóvel para alugar, em Águas Claras ou no Guará, onde trabalha. O orçamento estava apertado. Disposta a pagar até R$ 1 mil por um apartamento de dois quartos, incluindo condomínio, todas as opções estavam aquém do que ela procurava.

A partir do meio do ano, no entanto, os cartazes de ;alugo; e ;vendo; começaram a pipocar pelo Guará. ;Comecei a andar nas ruas e percebi muitas ofertas, toda rua tinha alguma. Foi, então, que eu percebi que dava para conseguir um preço ainda melhor do que eu estava disposta a pagar;, explica Letícia. Apesar de ter se interessado por uma oferta dentro do orçamento, de R$ 1 mil, ela desistiu quando viu uma opção semelhante, na mesma região, R$ 150 mais barata. ;Disse para a proprietária do primeiro apartamento que tinha gostado muito (do imóvel), mas passaria porque havia encontrado outros mais em conta. Depois disso, ela me ligou várias vezes para perguntar quanto eu estava disposta a pagar;, lembra.

As duas fecharam negócio em agosto do ano passado, por R$ 750. No fim das contas, proprietária e inquilina saíram ganhando. ;Ela estava há quatro meses tentando alugar o apartamento, o meu preferido. Então, fiquei feliz de ter dado certo;, comemora a consultora de marketing. Mesmo assim, ela ainda não está satisfeita. ;Continuo de olho nos imóveis da vizinhança, para ver se aparece alguma opção ainda melhor. No momento, vale a pena ficar atenta;, conta Letícia.

Favorável


Hermes Alcântara, do Creci, afirma que esse tipo de negócio não é exclusividade do Guará. ;Por todo o DF, tem muita gente pagando R$ 3 mil de aluguel, enquanto o vizinho paga R$ 2,5 mil. Quem fica de olho consegue negociar com o proprietário ou até trocar de apartamento.; Os descontos, segundo ele, ultrapassam os 10%, em muitos casos. A barganha vale tanto para locação quanto para compra.

A aposentada Maria Elisa Costa, 56, estava sem retorno das propriedades que colocou para alugar. O inquilino do apartamento sumiu, deixando todas as contas abertas. Já a sala comercial estava há meses sem procura. ;Resolvi me livrar do problema e vender os dois. Estava com muita despesa;, revela. Mas vender o apartamento não foi fácil. Depois de oito meses de anúncio, Maria Elisa aceitou uma proposta não muito vantajosa. Ofertado inicialmente por R$ 450 mil, o imóvel saiu por R$ 380 mil. ;Topei um preço bem abaixo do valor do imóvel porque era à vista, então, teria garantia de que não levaria calote;, justifica. A sala comercial saiu por R$ 250 mil.

Com o dinheiro acumulado, ela comprou um apartamento para alugar. Desta vez, o negócio foi mais simples. ;Consegui um bom desconto na hora da compra. Foi de R$ 415 mil para R$ 380 mil;, detalha. Segundo ela, o fato de ter proposto pagar à vista animou o proprietário. ;Quem evita financiamento consegue preços bons, é só procurar;, ensina.

Alcântara concorda. ;A hora de comprar imóveis é esta. Há muito tempo, não havia um momento tão favorável ao comprador;, garante. Ele reforça que não é preciso ter todo o dinheiro na mão para fazer uma boa compra. ;Mesmo quem quer financiar tem opções interessantes, como consórcio, que não paga juros de financiamento;, exemplifica. O essencial, segundo ele, é pesquisar.

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