Uma legião de vítimas da Bancoop

Uma legião de vítimas da Bancoop

HÉDIO FERREIRA JÚNIOR ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 01/02/2016 00:00
 (foto: Evaristo Sa/AFP - 9/4/15)
(foto: Evaristo Sa/AFP - 9/4/15)



A proposta parecia tentadora: jogar futebol na praia das Astúrias com o vizinho Lula e contar com segurança oficial na porta do prédio enquanto o presidente da República estivesse no apartamento de frente para o mar no Guarujá (SP). Heleno Miranda de Oliveira estava animado com a ideia de ter uma residência de veraneio para a família depois que o imóvel comprado meses antes por meio da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) não saiu do papel.

A migração de um imóvel na zona oeste de São Paulo ainda na planta por um em adiantada fase de construção no litoral acenava como uma grande vantagem, mas se tornou uma das maiores dores de cabeça para ele e outras 3 mil famílias que investiram dinheiro e tentam há anos receber a casa própria ou a escritura de um apartamento que, apesar de quitado, ainda gera cobranças de taxas extras e perrengues judiciais.

A unidade 31 do bloco A que Heleno começou a pagar, e pela qual desembolsou R$ 80 mil, estava situada no Condomínio Solaris, o mesmo com que o ex-presidente e a mulher, Marisa Letícia, são suspeitos de serem os donos de uma cobertura tríplex em nome da construtora OAS. Enquanto isso, milhares de pessoas não conseguem ter acesso aos seus bens por sofrerem cobranças adicionais e fora do contrato para que as obras sejam concluídas. ;Lembro que o fato de o ex-presidente Lula ter adquirido um imóvel no edifício era apresentado como um atrativo, tanto pelo bom negócio quanto pela idoneidade da Bancoop;, lembra Heleno.

Em São Paulo, são milhares as vítimas da cooperativa que aguardam a decisão da Justiça que se arrasta desde 2006 por medidas protelatórias. A demora causa prejuízos milionários para quem paga aluguel, mesmo já tendo quitado a casa própria. Em algumas obras, A OAS entrou no negócio depois que a Bancoop, sem recursos para dar continuidade às obras, a apresentou aos cooperados como uma alternativa para que as unidades fossem construídas. Os valores acabaram reajustados e novos custos foram assumidos.

Waldir Ramos da Silva é responsável pela defesa de pelo menos 2 mil compradores de imóveis da Bancoop lesados pela cooperativa. Ele conta que 99% dos casos de seus clientes foram considerados procedentes pela Justiça. Os últimos imóveis entregues pela Bancoop foram em 2005. Os que conseguiram o direito de morar lutam para garantir as escrituras. A entidade cobra uma taxa extra para que elas sejam liberadas.

Líderes do PT
Fundada em 1997 pelo atual ministro-chefe da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, a cooperativa do Sindicato dos Bancários foi comandada
por nomes filiados ao PT e chegou a ser uma das mais importantes construtoras de imóveis residenciais do estado de São Paulo. Depois de receber uma injeção de R$ 43 milhões arrecadados com a venda de Fundos de Investimentos em Direitos Creditários (Fdic) no mercado financeiro ; além de investimentos de fundos de pensão da Petrobras, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil ;, a Bancoop transformou-se numa empresa com deficit orçamentário de mais de R$ 100 milhões. A empresa era presidida pelo ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, preso pela Polícia Federal na Operação Lava-Jato e investigado sob a suspeita de operar um esquema de desvio de recursos da Petrobras.

O promotor do Patrimônio Público de São Paulo, José Carlos Blat, afirmou esta semana que o processo movido contra a Bancoop iniciado em 2006 e que deveria ter sido concluído em 2012, deve se arrastar até o fim deste ano. Para ele, o ex-presidente da Cooperativa, João Vaccari Neto e os dirigentes ;transformaram o sonho da casa própria em pesadelo e fizeram da Bancoop um balcão de negócios criminosos;.



Rombo
Confira os números da herança deixada pela Bancoop

Empreendimentos em São Paulo 15
Obras paradas 6
Unidades concluídas pela OAS 5
Vítimas afetadas 3,4 mil
Prejuízo estimado R$ 250 milhões

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