O fim da blindagem

O fim da blindagem

por Ivan Iunes ivaniunes.df@dabr.com.br
postado em 01/02/2016 00:00




Nenhuma frase representa melhor o atual estado de espírito dos petistas diante da pressão sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto a pronunciada pelo ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, na quarta-feira passada, horas depois da Operação Triplo-X. No mesmo dia em que investigadores chegaram ao condomínio Solaris, o principal auxiliar da presidente Dilma Rousseff disse que o petista ;deveria ter um tratamento mais respeitoso;. Há muito, os aliados de Lula alimentam a percepção que Ministério Público, Polícia Federal e Justiça do Paraná têm como foco atingir a imagem do ex-presidente e inviabilizá-lo para 2018. Até a Triplo-X, ainda restavam interrogações a respeito do disposição dos investigadores em avançar sobre Lula, principalmente diante de sua popularidade junto à opinião pública. Agora, elas não existem mais.

Desde o mensalão, em 2005, a popularidade de Lula junto ao eleitor e à opinião pública consistiu numa armadura contra todos os ataques ou denúncias lançadas contra ele. Nas eleições de 2010 e de 2014, até mesmo os candidatos de oposição evitaram a figura do ex-sindicalista. As pesquisas mostravam que atacar o ex-presidente significava perder mais votos do que ganhar. Sendo assim, os alvos de José Serra (PSDB), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede) foram José Dirceu, Antonio Palocci, Erenice Guerra, o governo federal, o PT. Palavras contra Lulas, foram poucas. Ao passo em que despencou a avaliação de Dilma Rousseff, a aposta da oposição era de que ela carregaria para o mesmo poço a imagem do antecessor e colocaria o debate político em pé de igualdade. A avalanche contra o ex-presidente fez dobrar essa aposta. A expectativa agora é pelo resultado das pesquisas de opinião sobre a imagem do petista.

A missão de recuperar os danos à imagem de Lula é, de longe, a mais difícil encarada pelo PT, desde que ele subiu a rampa do Palácio do Planalto, em 2003. Passa por conseguir um discurso que não se fie unicamente na guerra de classes, mas em desculpas convincentes. Nem familiares de Lula nem dirigentes petistas conseguem explicações para as dúvidas que pairam sobre o nebuloso negócio envolvendo Lula, a construtora OAS e o apartamento 164-A do condomínio Solaris. O ex-presidente e sua família tiveram vencimentos suficientes para adquirir o imóvel nos últimos anos, disso não restam dúvidas. Documentos até mostram que, inicialmente, não teria sido o tríplex a unidade adquirida pela ex-primeira dama Marisa Letícia. Difícil de engolir, no entanto, é o fato de a construtora OAS ter bancado uma reforma de R$ 770 mil no apartamento, supervisionada por ela e pelo filhos, enquanto outros proprietários teriam recebido unidades com acabamento inferior ao contratado. Qual a razão da empreiteira ter despendido tal recurso em um imóvel específico? Não há explicação que não indique uma relação de interesse mútuo, e pouco republicano, entre o ex-presidente e a empreiteira.

Politicamente, o drama se amplia porque o PT não tem qualquer plano B à candidatura de Lula em 2018. Se mesmo com o ex-presidente, seria muito difícil para a legenda renovar a presença no Palácio do Planalto por outros quatro anos, sem ele, a tarefa é impossível. Os possíveis nomes ventilados pelos petistas, como Aloizio Mercadante e Jaques Wagner, já tiveram indícios suficientes para acreditar que enfrentarão um severo bombardeio, caso arrisquem entrar na corrida. O jeito é tentar recuperar a blindagem do ex-presidente. Não será uma tarefa das mais fáceis.

À espera do impeachment
A Câmara dos Deputados volta aos trabalhos nesta terça-feira, mas, provavelmente, os parlamentares só arregaçarão as mangas, na melhor das hipóteses, depois do carnaval, em 15 de fevereiro. As dúvidas fabricadas por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) são apenas mais uma das manobras do deputado federal para manter o governo federal nas cordas. Com ela, o fluminense ameaça travar a Casa e discussões importantes sobre CPMF, reformas e medidas de ajuste. Ainda há a ameaça de o processo que pede a sua cassação voltar à estaca zero no conselho de ética, o que daria a ele uma sobrevida no posto. Não será surpresa se o peemedebista conseguir a proeza de fechar o semestre ainda na Presidência da Câmara.


;O PT não tem qualquer plano B à candidatura de Lula em 2018. Se, mesmo com o ex-presidente, seria muito difícil para a legenda renovar a presença no Palácio do Planalto por outros quatro anos, sem ele, a tarefa é impossível;

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