Choque cultural e medo de abusos

Choque cultural e medo de abusos

postado em 01/02/2016 00:00

Em busca de respostas sobre como integrar homens acostumados a situações de grande iniquidade de gênero aos costumes ocidentais, a Noruega adotou uma iniciativa pioneira, porém controversa. Desde 2013, os centros de recepção de migrantes do país oferecem cursos de adaptação cultural, ideia que surgiu depois de uma série de estupros praticados entre 2009 e 2011 na cidade de Stavanger.


As aulas orientam estrangeiros sobre como interpretar comportamentos femininos e colaborar para evitar abusos. ;Queremos que o refugiado tenha um papel ativo contra a violência;, destaca Andreas Capjon, diretor do Departamento de Competência da Hero, empresa privada que administra os cursos. ;Em grupos de diálogo perguntamos sobre as experiências dos migrantes. Nossos colaboradores inserem na conversa ideias para ajudá-los a compreender, por exemplo, que uma menina norueguesa não tem intenção de convidá-lo para sexo com um simples beijo;, explica Capjon.


Abordar diferenças culturais sem estimular a xenofobia, no entanto, parece um desafio, e há acusações de que alguns governos preferem esconder crimes cometidos por estrangeiros. Na Suécia, país que proporcionalmente mais recebeu refugiados no continente, um jornal denunciou que ataques contra meninas em um festival de música cometido por uma ;gangue de jovens migrantes; havia sido mantido em sigilo pela polícia. A acusação causou embaraço e levou à abertura de uma investigação interna. O primeiro-ministro do país, Setfan Lofven, disse que o incidente foi uma ;traição dupla; às vítimas e defendeu que a Suécia ;não deve fechar os olhos;.


Na última década, o número total de ofensas sexuais registradas no país aumentou mais de 70%. Autoridades locais alertam que a mudança ocorreu, principalmente, devido a alterações na legislação, que expandiu o entendimento sobre o que é um crime sexual, mas críticos ressaltam a participação de refugiados em diversos casos e pressionam contra políticas de acolhimento.

Desequilíbrio


Segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), dos mais de 1 milhão de imigrantes forçados que chegaram à Europa no ano passado, 66% são homens, e apenas 13% são mulheres, sendo o restante formado por crianças. O desequilíbrio de gênero faz com que especialistas chamem a atenção para as possíveis consequências. ;Pode soar sexista na superfície, mas anos de pesquisa mostram que sociedades dominadas por homens são menos estáveis, porque são mais susceptíveis a altos níveis de violência, insurgência e maus-tratos a mulheres;, defende, em um artigo publicado recentemente, Valerie Hudson, pesquisadora e professora de ciência política da Texas A University .


Segundo a OIM, mais de 20% dos migrantes têm menos de 18 anos, e, entre os que viajam desacompanhados, 90% são do sexo masculino. Na Suécia, cerca de 71% dos requerentes de asilo são homens, o que fez a proporção de gênero para adolescentes entre 16 e 17 anos ser de 123 meninos para cada grupo de 100 meninas ; iniquidade maior do que a registrada na China. Hudson defende que uma taxa balanceada deve ser protegida pelas autoridades. ;Muitos estudos empíricos mostram que quanto maior o desequilíbrio de gênero, pior a taxa de criminalidade;, diz. ;Há também efeitos negativos claros para mulheres em populações dominadas por homens. Crimes como estupro e assédio sexual se tornam mais comuns.; (GW)

Vulneráveis
Crianças e mulheres que fogem para a Europa são alvo de violência sexual durante todo o percurso, apontam autoridades, ONGs e agências ligadas às Nações Unidas. Ontem, a Europol divulgou relatório segundo o qual 10 mil crianças refugiadas foram dadas como desaparecidas no continente nos últimos dois anos. Suspeita-se de que muitas delas estejam sendo exploradas, inclusive sexualmente, por organizações criminosas.

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