Difícil inserção dos estrangeiros

Difícil inserção dos estrangeiros

Denúncias de crimes cometidos por refugiados aumentam a rejeição aos povos acolhidos recentemente pela Europa. Especialistas temem que marginalização desses grupos favoreça a radicalização

» Gabriela Walker
postado em 01/02/2016 00:00
 (foto: Jerry Lampen/AFP )
(foto: Jerry Lampen/AFP )


A resposta europeia às denúncias de agressões sexuais supostamente cometidas por refugiados que buscam asilo no continente aumenta a pressão para que os governos da região reduzam o número de migrantes forçados acolhidos. Na Alemanha, país com mais denúncias do gênero, 40% da população quer a renúncia de Angela Merkel devido à insatisfação com as políticas migratórias, mostrou pesquisa recente da revista Focus. Ontem, outro levantamento, divulgado pelo jornal Bild am Sonntag, apontou que a popularidade da aliança CDU-CSU, que dá sustentação à chanceler, nunca foi tão baixa, com 34% de opiniões favoráveis. A tensão política fez com que o governo aprovasse uma série de restrições na última semana, enquanto outras nações do continente anunciam a intenção de expulsar estrangeiros e aumentar o controle de fronteiras.


Segundo o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, a União Europeia tem até meados de março para evitar um colapso, e o maior desafio está na inserção de milhares de pessoas que precisarão se adaptar aos costumes do Ocidente. Para a coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Santa Marcelina (Fasm) e consultora do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Rita do Val, os governos precisam concentrar esforços nas políticas públicas. ;A verdade é que a Europa não estava preparada para receber todas essas pessoas, e ainda não está;, observa.


Segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), quase 56 mil migrantes e refugiados cruzaram o Mediterrâneo no primeiro mês deste ano. A média diária corresponde a quase o total registrado em janeiro de 2014. O fenômeno reforça a necessidade de os novos moradores serem inseridos como cidadãos e terem garantidos direitos e deveres, argumenta Do Val. ;Propostas de cotas não contemplam a situação dos que já estão nesses países. Os ataques de Paris nos dão uma boa dimensão sobre como medidas excludentes funcionam como instrumentalização do terrorismo;, acrescenta. Relatório divulgado pela Europol revela não haver ;evidência concreta; de que terroristas viajem entre os refugiados, como advertiram alguns líderes europeus, mas destaca que migrantes sírios podem ser ;vulneráveis à radicalização;. O documento indica que elementos sociais, como a marginalização, influenciam no recrutamento.

Crimes

Levantamento conduzido pelo Escritório Federal de Investigação Criminal da Alemanha (BKA) em outubro passado mostrou que, ao contrário do que muitos pregam, a chegada de refugiados não aumentou as taxas de crime no país. ;Há um número absoluto maior de casos criminais apenas porque há mais pessoas morando aqui com a chegada dos refugiados;, disse, à época, o ministro do Interior, Thomas de Maizi;re. Críticos à política de Berlim, no entanto, denunciam tentativas de mascarar os números.


Em artigo recente, representantes da Human Rights Watch (HRW) na Europa pediram calma. ;Seria ingênuo imaginar que nenhum criminoso está entre os 1,1 milhão de requerentes de asilo;, argumentam Wenzel Michalski e Benjamin Ward. É o que defende a pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do Comitê de Migrações e Deslocamentos da Associação Brasileira de Antropologia (APA), Bela Feldman Bianco. ;Em todas as sociedades existem criminosos, e é importante reconhecer que a maioria dos migrantes não concorda com esse comportamento;, destaca.


Bianco reforça a necessidade de a segurança dos refugiados também ser garantida para evitar que ;pessoas já expostas a situações de vulnerabilidade sejam ainda mais fragilizadas;. Apenas na Alemanha, ofensas e crimes contra migrantes dobraram no último ano. Estimativas indicam que ao menos um crime de ódio contra imigrantes acontece todos os dias no país. ;É inegável que, em um primeiro momento, diferenças em padrões culturais podem ser um choque, mas há a possibilidade de adaptação, e essa mistura de culturas pode ser muito rica para todos os lados;, defende.

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