Momento de afirmação

Momento de afirmação

Com o quinto disco, cantor e violonista Moyseis Marques pretende extrapolar limites do samba

» Ricardo Daehn
postado em 01/02/2016 00:00
 (foto: Silvana Marques/Divulgação)
(foto: Silvana Marques/Divulgação)


;Sem querer, cruzei com o Chico Buarque pra lá e pra cá;, diz o sambista Moyseis Marques, ciente das comparações com o criador de A banda, que geram ;interesse; do público, mas não lhe produzem maiores deslumbres.

;As pessoas falam da semelhança do timbre da gente. Mas, faço mais do que tirar foto pro Facebook com o Chico ou ostentar uma pseudoconvivência, já que, infelizmente, ele não é meu amigo pessoal. Tenho é a oportunidade de aprender com o Chico, ao ter uma pessoa da estatura dele, ocasionalmente, por perto;, comenta Marques, até há pouco visto nos palcos cariocas como o protagonista de Ópera do malandro.

Pesa, no diálogo corriqueiro de Marques com Chico, a afinidade com o samba. ;Ainda estou, com muito orgulho, na prateleira do samba;, resume. Rumo à natural consagração, o cantor reforça que não está começando agora. Aos 36 anos, ele percebe que serve até mesmo de exemplo para colegas em início de carreira.

Um EP com seis faixas é o mais recente disco gravado ; o quinto, em 15 anos de profissão. Nele, o cantor acumulou funções: quer unificar a obra e revelar espécie de ;piloto; de um futuro DVD. ;Sou um outsider. Então, não adianta ir parar nas grandes lojas; tenho que descobrir ;o foco do mosquito da dengue; e colocar para vender lá;, brinca Marques, que tem a nova obra vendida a US$ 5,99 (na plataforma digital) ou R$ 20 (o disco físico).

Batizado de Made in Brasil, o disco ;bem poderia se chamar Deixa eu cantar o que eu quiser;, diverte-se o artista crescido no subúrbio da Vila da Penha. ;Curto a liberdade artística de ver o samba antropofagicamente, assimilando. Passamos por baião, ijexá, xote, marcando diversidade rítmica brasileira que chega até ao jazz;, pontua.

No atual crescimento, o também produtor, arranjador e regente Marques celebra parcerias com nomes do quilate de Nei Lopes (que abre o novo trabalho, ao lado dele, com Profissional) e Aldir Blanc. Referendando, na letra, a corrente algo mitológica do samba, a segunda faixa, A barca dos corações partidos presta homenagem ao grupo homônimo que encenou, ao lado de Marques, Ópera do malandro.

Toque feminino

Resquícios do musical de Chico Buarque (Ópera do malandro) ainda ecoam nos trechos sugestivos de Juntando cacos (quinta faixa do EP). ;Ali me coloco no papel de uma mulher, a exemplo do que aconteceu com vários atores na montagem da peça do Chico. Estar na peça coincidiu com o processo de criação das músicas do EP. Entrei fundo na alma feminina, e Juntando cacos vem como fruto da leitura de mulheres tão complexas, cheias de sonhos e fantasias;, observa.

A malícia também se aplica a Madeixa, que canta a morena (dona da situação, em versos como ;se percebes a minha loucura/ boles com a cintura e faz de mim cobaia;), na composição em que a dança é vista como ;um cio com sabor de ensaio;. E, para encerrar, em Poeta é outro lance, Moyseis Marques fala da sua arte, da composição, e da ;pequena parte para contribuir;, textualmente, mesmo sem ser Chico ;nem Aldir;.

Gravado por figuras como Roberta Sá, Fabiana Cozza e Pedro Miranda, Moyseis Marques teve projeção, no cinema, com o longa Chico ; Artista brasileiro, onde cantou Mambembe. Mesmo sem ;apadrinhar; o artista (como ressalta), Chico novamente tropeçou no destino de Marques. ;Chico foi me ver cantar no playground intimista dos músicos, que é o bar Semente (Lapa). E até cantou comigo, espontaneamente, num show;, comemora o artista.


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