Desumanizados

Desumanizados

rodrigo craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 17/02/2016 00:00
O menino de 4 anos nem de longe parece ter consciência da gravidade do ato que vai cometer. Ao lado de um militante do Estado Islâmico, é a própria dissonância do mal. Em seu rosto de criança, nada existe além da inocência. Até que aperta o detonador, grita Allahu Akbar (;Deus é grande;, em árabe) e se torna um assassino. Assim como ele, centenas ; ou milhares ; de garotos e garotas são programados para matar em nome de uma causa que nunca lhes pertencerá. Arrancados do seio da família, roubados da infância, são a face mais perversa e vil do jihadismo. Quando se tornarem adultos, terão visto e realizado tantas monstruosidades que, ou mergulharão no fanatismo, ou serão condenados ao aprisionamento em suas próprias consciências.

A guerra no país de Bashar Al-Assad ganhou fronteiras e desprezou o direito internacional. Bombardeios a cinco hospitais e duas escolas mataram anteontem mais de 50 pessoas nas províncias sírias de Idlib e de Aleppo. A ilação de que os civis são parte do efeito colateral em um conflito esbanja covardia. Famílias inteiras têm sido expulsas diariamente de seus lares e lançadas na incerteza. Em nome de um conflito de interesses múltiplos, muitos dos quais legitimadospela luta antiterrorismo.

Mas nem é preciso buscar na Síria exemplos da distorção do ser humano. Em Goiânia, um morador de rua de 38 anos foi surpreendido na tarde de segunda-feira por um grupo de pessoas que lhe ateou fogo, enquanto ele se abrigava sob um viaduto de região nobre. O erro foi o mesmo do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, imolado em um ponto de ônibus da 704 Sul, em 1997. O mendigo da capital goiana teve um pouco mais de ;sorte;, mas perdeu parte da pele dos braços e das pernas. Em São Paulo, um desempregado de 36 anos esquartejou o próprio pai, de 57, depois de cumprir 11 anos pelo assassinato da avó. O recente latrocínio a sangue-frio contra um senhor que buscava os filhos na escola, no Guará, expõe a irracionalidade, a maldade e a avareza a que estamos sujeitos.

Os exemplos acima indicam a degradação moral e a perda de valores por que passa a humanidade. O respeito pelo próximo tornou-se comportamento raro. A vida, espezinhada diariamente, se transformou em moeda de troca ou em material de descarte. Ou o mundo desperta para si com urgência, ou seremos tragados pela nossa própria insensatez.




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