Do paraíso à cadeia

Do paraíso à cadeia

João Santana e a mulher chegam da República Dominicana e são presos pela PF no Aeroporto de Cumbica, em São Paulo. Os dois devem prestar depoimento até a próxima sexta-feira sobre o recebimento de US$ 7,5 milhões em contas no exterior

» JOÃO VALADARES » EDUARDO MILITÃO
postado em 24/02/2016 00:00
 (foto: AFP)
(foto: AFP)




O marqueteiro do PT nas últimas três eleições presidenciais, João Santana, e a mulher, Mônica Regina Cunha Moura, desembarcaram na manhã de ontem em São Paulo e seguiram, num avião da Polícia Federal, para Curitiba. Eles receberam voz de prisão assim que desceram da aeronave. Os dois, que tiveram as detenções temporárias decretadas para explicar o recebimento no exterior de US$ 7,5 milhões, devem prestar depoimento até sexta-feira no inquérito relativo à 23; fase da Lava-Jato, denominada Acarajé, uma referência à gíria utilizada por alguns envolvidos para tratar de dinheiro vivo. Ao descer da van da Polícia Federal, Mônica disse: ;Não vou abaixar a cabeça, não;.


O casal se apresentou sem celular e computadores portáteis. Os dois estavam trabalhando em campanha política na República Dominicana. No entanto, a defesa do marqueteiro informou que eles vão entregar os equipamentos eletrônicos aos investigadores. O desembarque em Curitiba, acompanhado do delegado Eduardo Mauat, ocorreu às 11h40. Por volta das 15h, os dois foram realizar exames de corpo de delito no Instituto de Medicina Legal (IML) e retornaram à carceragem da PF.


Além deles, o diretor-presidente da Construtora Norberto Odebrecht, Benedicto Barbosa; o administrador de empresas ligado a offshores controladas pela empreiteira, Vinícius Veiga Borin; e o lobista polonês Zwi Skornick realizaram o exame de praxe no IML. Por determinação dos agentes federais, todos os presos desceram com as mãos para trás. Na chegada e na saída do IML, estavam sem algemas. Ninguém falou com a imprensa.


A prisão temporária decretada pelo juiz federal Sérgio Moro, à frente dos processos relativos à Operação Lava-Jato tem prazo de cinco dias, podendo ser prorrogada se a Justiça entender que existe necessidade. Em alguns casos, a exemplo do que já aconteceu na Lava-Jato, os decretos podem ser convertidos em prisão preventiva. Nesse caso, não há prazo para os envolvidos deixarem a cadeia.


Na manhã de ontem, o empresário Marcelo Odebrecht foi transferido do Complexo Médico Penal de Pinhais, no Paraná, onde se encontra preso, para a Superintendência da Polícia Federal com o objetivo de esclarecer alguns pontos dentro da investigação da Acarajé.


As dúvidas são relativas a mensagens encontradas no celular do empresário. Em relatório de 44 páginas anexado ao inquérito da 23; fase, em que complementa pedido de buscas, o delegado Filipe Hille Pace analisa a anotação ;Prédio (IL); encontrada em celular de Marcelo Odebrecht ao lado de valor superior a R$ 12 milhões. ;Em relação à anotação ;Prédio (IL); a equipe de análise consignou ser possível que tal rubrica faça referência ao Instituto Lula. Caso a rubrica ;Prédio (IL); refira-se ao Instituto Lula, a conclusão de maior plausibilidade seria a de que o Grupo Odebrecht arcou com os custos de construção da sede da referida entidade e/ou de outras propriedades pertencentes a Luiz Inácio Lula da Silva;, diz.


A investigação da Acarajé teve início após policiais federais localizarem, em fevereiro do ano passado, durante a 9; fase da Lava-Jato, na casa de Zwi Skornicki, carta escrita por Mônica. No documento, ela dizia que estava encaminhando o número de duas contas no exterior para depósito em dólar ou euro. Também informava que estava mandando o modelo de um contrato e que tinha apagado o nome da empresa por ;motivos óbvios;.


A maior parte dos recursos recebidos por Santana ; 60% ; teria sido remetida, em 2013 e 2014, ao exterior por Skornicki, utilizando a empresa Shellbill Finance S.A. A Lava-Jato já sabe que pelo menos US$ 3 milhões, depositados entre abril de 2012 e março de 2013, foram repassados para um conta de Santana a partir de uma articulação de offshores controladas pela construtora Norberto Odebrecht. Na Inovation, a Odebrecht teria repassado US$ 500 mil. A outra parte, no valor de US$ 2,5 milhões, foi encaminhada a Klienfield. As duas offshores transferiram os valores para a Shellbill Finance S.A., que teria repassado a contas de Santana.


De acordo com os investigadores, os valores passaram por bancos em Londres e Nova York antes de chegarem à Suíça. Os investigadores apontam que chama a atenção o fato de Santana ter declarado legalmente o recebimento de aproximadamente R$ 170 milhões por serviços eleitorais prestados no Brasil desde 2005 e esconder o recebimento de valores menores no exterior.






"Não vou abaixar a cabeça, não;

Mônica Regina Cunha Moura,
mulher de João Santana, ao descer da van da Polícia Federal







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