Fuga de presos derruba secretário e comando da Papuda

Fuga de presos derruba secretário e comando da Papuda

Falhas na gestão carcerária do Distrito Federal, agravada pela fuga de 10 internos do Complexo Penitenciário da Papuda, resultaram na queda dos principais gestores do setor. Sobrou até para o secretário de Justiça e Cidadania

ISA STACCIARINI BRUNO LIMA Especial para o Correio
postado em 24/02/2016 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A. Press






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(foto: Carlos Moura/CB/D.A. Press )


A crise política na segurança, provocada pela fuga de 10 internos da Penitenciária 1 do Distrito Federal (PDF 1), derrubou a cúpula do sistema carcerário. Além disso, provocou mudanças na gestão pública dos presídios, que volta a ficar sob a responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social ; até ontem, fazia parte da Secretaria de Justiça e Cidadania. Perderam os cargos o secretário de Justiça e Cidadania, João Carlos Souto; o subsecretário do Sistema Penitenciário, João Carlos Lóssio; e o diretor da PDF 1, Mauro Cézar Lima.

No lugar de Souto assume, interinamente, o perito criminal e ex-chefe de gabinete da Casa Civil Guilherme Rocha de Almeida Abreu. Lóssio deixa o cargo para o diretor adjunto da Polícia Civil, Anderson Espíndola ; o número 2 da corporação será agora Cícero Jairo Vasconcelos Monteiro. O delegado Johnson Kennedy Monteiro fica com a chefia do PDF 1.

Todas as exonerações e reconduções foram publicadas ontem em uma edição extra do Diário Oficial do Distrito Federal. O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, anunciou as trocas durante a tarde, em coletiva realizada no Palácio do Buriti. ;Esperamos, com isso, uma integração das forças de segurança para que tenhamos um sistema prisional cada vez mais seguro;, explicou.

Rollemberg só não citou a saída de Mauro Cézar, mas a demissão do delegado já estava definida. Na mesma tarde, o ex-diretor da PDF 1 enviou um áudio a pessoas próximas informando que havia entregado o cargo. ;Aprendi muito neste um ano. Foi uma experiência extraordinária. Em uma guerra, nós temos de enfrentar com dignidade e respeito, de cabeça erguida. Fico feliz, porque nenhum guerreiro tombou;, ressaltou. No dia anterior, Mauro Cézar acusou a PM de não manter homens nas guaritas externas do Complexo Penitenciário da Papuda. Também atacou a própria corporação, a Polícia Civil e voltou a alfinetar o GDF no áudio de ontem: ;Pelo menos agora o governo vai dar atenção que o sistema penitenciário precisava há mais de décadas.;

O novo diretor da PDF I, Johnson Kennedy, não quis detalhar as medidas que deve encabeçar como chefe da unidade prisional. Por telefone, apenas ressaltou que ;vamos trabalhar;. O Correio tentou contato com o novo subsecretário do Sistema Penitenciário, Anderson Espíndola, mas ele não atendeu a nenhuma das ligações. O chefe interino da Sejus, Guilherme Rocha de Almeida Abreu, estava na coletiva, mas não se pronunciou.

Nos bastidores da segurança pública, delegados travavam uma disputa interna desde a escolha do nome para a direção-geral da Polícia Civil. Lóssio fazia parte da lista tríplice para comandar a corporação, mas Rollemberg optou pelo delegado Eric Seba. Coube a Lóssio assumir a Sesipe. À frente do sistema penitenciário, ele indicou o amigo Mauro Cézar para chefiar a PDF 1. Mas, 1 ano e 2 meses depois, foi o grupo de Eric Seba que saiu vitorioso após a crise no sistema penitenciário.

Para o promotor de Justiça Marcelo Teixeira, coordenador do Núcleo de Controle e Fiscalização do Sistema Prisional, a simples troca de nomes não resolve o problema do setor. Ele abriu ontem um inquérito para investigar a fuga dos 10 presos, ocorridas no domingo. Quatro deles ainda estão foragidos. ;Não descartamos nenhuma linha de investigação. Pode, eventualmente, ter ocorrido algum facilitador com o envolvimento de servidor, assim como a ausência de efetivo, que já gera uma falta de fiscalização adequada em postos importantes para evitar uma fuga;, disse.

Investimentos
Durante a coletiva, Rollemberg também prometeu concluir a obra de um prédio do Centro de Detenção Provisória (CDP), com capacidade para 400 presos. O socialista ampliará, ainda, a Penitenciária Feminina do DF, a Colmeia, com mais 400 vagas, e reforçou a construção de mais quatro CDPs para 3,2 mil internos. Segundo o GDF, foram investidos R$ 112 milhões, dos quais R$ 80 milhões são de convênio firmado com o Departamento Penitenciário Nacional.

O chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, disse que o Executivo local iniciará o processo da realização de concurso para agentes penitenciários. ;Nós atravessamos um momento difícil. Herdamos um sistema penitenciário com dificuldades, principalmente em relação a pessoal. Então, nós pretendemos, até o fim do ano, repor boa parte da mão de obra que é necessária para o sistema penitenciário. Até lá, vamos buscar uma maior integração das forças da Polícia Militar e da Polícia Civil no sentido de prestar apoio;, concluiu.

Quem é quem



Anderson Jorge Damasceno Espíndola, 44 anos,
é o novo subsecretário do Sistema Penitenciário. Atua como delegado da Polícia Civil do DF desde 1996. Bacharel em direito, comandou o Centro de Detenção Provisória (CDP), na Papuda, e a Delegacia de Repressão a Roubos e Furtos de Veículos. Também foi delegado-chefe das unidades da Asa Sul e do Guará. Ocupou o cargo de subsecretário do Sistema Penitenciário entre 2009 e 2011 e também coordenou a Regional de Polícia Metropolitana. Até ontem ocupava o cargo de diretor adjunto da Polícia Civil.


Guilherme Rocha de Almeida Abreu, 48 anos,
assume interinamente a Secretaria de Justiça. É formado em engenharia mecânica e direito. É perito criminal desde 1993 e chefiou o Instituto de Criminalística da Polícia Civil do DF (IC). Atualmente, desempenha o cargo de chefe de gabinete da Polícia Civil do DF.


Johnson Kennedy Monteiro, 43 anos
Ficará a cargo dele o Presídio do Distrito Federal (PDF I). Foi plantonista da 13; Delegacia de Polícia (Sobradinho) e adjunto da 4; DP (Guará), da 1; DP (Asa Sul) e da 30; DP (São Sebastião). Nas especializadas, trabalhou na Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos (DRFV) e na Delegacia de Repressão a Furtos (DRF). Kennedy também foi diretor adjunto do Centro de Detenção Provisória (CDP) e exercia, até ontem, a chefia da 15; DP (Ceilândia Centro).

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